Maçã Agreste em e-book

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Na trajetória do pernambucano Raimundo Carrero, nascido em Salgueiro, o livro Maçã Agreste, lançado originalmente em 1989, representa um ponto de inflexão: foi a publicação em que o escritor assumiu consciência das ferramentas de escrita e de métodos de criação. A obra foi publicada pela editora José Olympio e permanecia sem reedições. Hoje, 25 anos depois, o livro ganha versão e-book, através da editora pernambucana Cesárea.

“O livro foi escrito num momento em que me sentia mais maduro”, lembra Raimundo. “Foi um livro muito trabalhado, marca o princípio de minha carreira técnica como romancista. Quando comecei a escrever, tinha impulso narrativo. Depois comecei a observar melhor o comportamento dos personagens, olhar com mais cuidado a construção de cenas, a evolução psicológica. Tudo isso cresceu de acordo com meu amadurecimento pessoal. Por isso é um livro central na minha obra ficcional”, destaca.

Sobre esta edição, Raimundo ressalta que escolheu não mudar nada, já que não tem o hábito de reler textos antigos. “Neste caso, não precisei reler, pois tenho a mais absoluta consciência de cada palavra, vírgula, ponto. E a releitura seria muito sofrida, porque depois de 25 anos meu grau de maturidade é muito maior. Meu nível de exigência também é maior, então é melhor evitar, deixar a releitura para leitores e críticos”, destaca.

O livro apresenta indícios dos interesses narrativos e estilísticos que Carrero aprofundaria em livros seguintes: estão no enredo personagens conturbados, perdidos em um Recife vagamente familiar. “Maçã Agreste revela uma família que passa por toda minha obra. Depois de concluir, percebi que os personagens podiam render um pouco mais, podiam impulsionar uma obra futura. Por isso acho que para entender minha literatura é essencial ler Maçã Agreste“, ressalta.

“No livro trabalho a ideia de decadência financeira e moral de uma família, um microcosmo de uma sociedade. É o que chamo de decadência humana. Estamos no período mais decadente do ser humano. Embora tenhamos mais tecnologia, a decadência ética e moral da sociedade me impressionam profundamente. Sempre me interessou escrever sobre a decadência do humano. O que me impressiona no homem é seu comportamento social”, comenta o autor.

Segundo Carrero, sua escrita foi mudando com o tempo – modificações que de certa forma refletem transformações pessoais. “O tempo mudou muito minha maneira de escrever, no sentido de conhecer melhor os personagens e, claro, a linguagem do romance”, destaca. “Agora sou mais ligado à forma. O escritor deve ter mais ligação com o movimento das cenas, com os personagens, pensar nas relações entre os parágrafos. Nisso me sinto mais maduro. Não sei se melhor, mas fiquei mais exigente”, explica o autor.

A publicação no formato eletrônico não é novidade para o autor: seus dois últimos livros, Seria uma sombria noite secreta (2012) e Tangolomango – Ritual das paixões deste mundo (2013), foram lançados em versão impressa e e-book. “Estou muito entusiasmado com este lançamento. Me entusiasmei com a editora Cesárea, é um projeto cuidadoso. Meu livro vai chegar ao leitor numa bela edição”, ressalta o autor.

O título do livro se refere a uma lembrança particular, uma imagem carregada de sentidos que indica uma espécie política de afetos. “Como sou sertanejo, a maçã era uma fruta urbana e distante. Quando minhas irmãs vinham do Recife, quando voltavam das férias, traziam maçãs. O cheiro passava para as malas e as roupas, e esse cheiro exerceu sobre mim prazer imenso. Ainda hoje é assim”, detalha.

 

Serviço

Maçã Agreste, de Raimundo Carrero

Cesárea Editora, R$ 7,50, e-book

 

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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