Macanudo 1 – Liniers

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PRÓLOGO

Autor: Liniers nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1975. Como quadrinista, é responsável pelas tirinhas Bonjour, publicadas no jornal Pagina/12 e Macanudo no jornal La Nación.

Livro: Reunião de 260 tirinhas da série Macanudo, publicadas no jornal argentino La Nación entre junho de 2002 e novembro de 2003.

Tema e Enredo: Liniers esbanja elegância no traço e na combinação de cores em tom pastel para despertar a nostalgia necessária para apreciar sentimentos já vividos como a doçura dos apaixonados, a melancolia da solidão urbana e a ingenuidade do olhar infantil.

Forma: É atuando nos limiares da razão e da emoção, da doçura e da crítica que Liniers constrói seu discurso.

CRÍTICA

Nostalgia para sorrir e pensar

É uma questão de segundos. Primeiro vem o estranhamento, mas você insiste e segue em frente, tateando os próximos quadros como se estivesse adentrando na escuridão de um local desconhecido. Quando você dá sinais de acomodação, de que está ambientado e acredita já saber qual será o rumo da história; o quadrinista argentino Liniers lhe dá uma rasteira, provocando sinapses no seu cérebro que despertam emoções, reflexões, admiração e não raro são expressadas com risos e um sonoro puta-que-pariu!!!

Se houvesse um índice de medição baseado no número de putas-que-pariu exclamados durante a leitura, não tenho dúvidas de que o primeiro volume de Macanudo chegaria fácil entre os líderes do meu ranking. Saio desse livro com a plena convicção de que não é nenhum pecado colocar Liniers no mesmo patamar de gênio, onde já habitam outros quadrinistas como Charles Schulz (da tirinha Peanuts), Bill Watterson (Calvin e Haroldo) e o seu compatriota Quino (criador de Mafalda).

Com uma edição pra lá de delicada, o livro reúne 260 tirinhas da série Macanudo, publicadas no jornal argentino La Nación entre junho de 2002 e novembro de 2003. Nelas, Liniers esbanja elegância no traço e na combinação de cores em tom pastel para despertar a nostalgia necessária para apreciar sentimentos já vividos como a doçura dos apaixonados (p. 69), a melancolia da solidão urbana e a ingenuidade do olhar infantil através do mundo fantasioso dos duendes e do cotidiano da garotinha Enriqueta.

Mistura bem sucedida entre a inocência das crianças de Peanuts e a perspicácia de Mafalada e Calvin, Enriqueta mostra uma sintonia com eles que vai além da harmonia de espírito desses personagens. Suas conversas com o ursinho de pelúcia Madariaga remetem à imaginação de Calvin que dá vida ao tigre Haroldo (Hobbes, no original), enquanto seu gato Fellini nos faz recordar a relação de amor e incompreensão que envolvem Charlie Brown e o beagle Snoopy.

Ao mesmo tempo, o autor apresenta senso crítico suficiente para se manter de pé na linha tênue que separa a sutileza artística do sentimentalismo brega. Quando Liniers se desequilibra, é porque foi propósito. Nutrindo-se desse solo de excesso, brota Z-25, o robô sensível. Com a escolha de uma máquina para desempenhar esse papel, o autor trabalha o romantismo exacerbado de forma irônica para tanto nos fazer pensar que os clichês de Z-25 na verdade são os reflexos do nosso imaginário que o programou, como para mostrar o embrutecimento humano, revelando nossa incapacidade de se sensibilizar com um filme (p. 37), um livro (p. 45), o pôr-do-sol (p. 58) ou o canto de um pássaro (p. 53) e, por isso, condenarmos a emoção do robô (p. 33).

É atuando nos limiares da razão e da emoção, da doçura e da crítica que Liniers constrói seu discurso. Seu processo carrega um mecanismo de ponderação, de auto-avaliação. As tirinhas de Macanudo trazem andaimes à mostra para que a gente as desmonte e as aprecie não apenas como desenhos bonitos e bem humorados, mas na sua integridade de autor e no respeito à capacidade de preenchimento do leitor (p. 13, 82). Para tanto, ele deixa pistas, faz citações às suas referências da cultura pop – com homenagens ao pintor Henri Matisse (p. 48), aos Beatles (pp. 30-31) e aos cineastas Georges Méliès (p. 49), Luis Buñuel (p. 94) e Charles Chaplin (p. 37).

Além, é claro, de utilizar o recurso da metalinguagem para evidenciar a noção da narrativa como construção individual e investigar as possibilidades de se expressar em tirinhas. Nesse quesito, Liniers mostra que sabe, como poucos, tirar proveito do experimentalismo para se comunicar. Ele oxigena o formato das tirinhas entortando os quadradinhos para mostrar os defeitos do mundo (p. 17), apropriando-se da linguagem fotográfica (p. 43, 50), combinando quadrinhos caprichados com outros em rascunho (p. 8), submetendo seus personagens a testes (p. 10, 69) e criando um paradoxo temporal ao fazer um personagem se espiar no quadro seguinte (p. 37).

Liniers nos coloca questões complexas que nos atingem aos poucos, que crescem como bolas de neve dentro da gente. Sem pedantismo ou academicismos, Macanudo trabalha temas pesados como as questões ambientais (p. 40, 45), a cultura de celebridades (p. 13), a corrupção política (p. 27, 52) e o esvaziamento da arte contemporânea (p. 17) através de risos provocados por situações do cotidiano (p. 64, 71, 75), personagens divertidos como o tradutor de nomes de filmes (p. 52, 56), os pinguins e outros animais.

Lido em Mar de 2012
Escrito em 12.04.2012


Relação com o autor: Nenhuma.

FICHA TÉCNICA

Macanudo
Liniers
Tradução: Cláudio R. Martini
Zarabatana Books
1a. edição, 2008
96 páginas

TRECHO

“Eu apareço na TV, logo existo.”, (p. 13)

OUTRAS OPINIÕES

Aline Guevara, no site Experimento 42, 12 de abril de 2013.

(http://www.experimento42.com.br/review-macanudo-vol-1/)

“Mas ele trata de assuntos comuns e rotineiros de uma forma encantadora, com uma certa mágica, de maneira que começamos a encarar as nossas próprias ações de forma diferente. Os próprios traços artísticos de suas tiras remetem à simplicidade e ingenuidade. Mas o quadrinista consegue ver através das atitudes banais e traz essa sua interpretação única, tornando o ordinário extraordinário.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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