Mais companhia para Bartleby

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A novela Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street de Herman Melville ganha nova edição, tradução e título no Brasil. Agora, ao invés de Bartleby, o escriturário nas tradução de Luís de Lima (Rocco) ou Cássia Zanon (LP&M) e da edição histórica da Cosac Naify (pelo projeto gráfico, em que é preciso descosturar e separar as páginas para lê-las) Bartleby, o escrivão com tradução de Irene Hirsch e posfácio de Modesto Carone, chega às estantes Bartleby, o escrevente com tradução de Bruno Gamabarotto, em edição da Grua Livros e Livraria Cultura.

Apesar da variedade da tradução, o certo é que em todas elas a novela é narrada por um advogado que emprega um copista de nome Bartleby no seu escritório em Wall Street. O que parecia ser um profissional competente logo se torna um problema quando o empregado passa a recusar as tarefas com um “prefiro não fazer”.

Essa recusa ganhou nome de síndrome pelas mãos do escritor espanhol Enrique Vila-Matas no livro Bartleby e companhia, vencedor do Prêmio Cidade de Barcelona (2001) e considerado o melhor livro estrangeiro da França em 2002. Nele, Vila-Matas cataloga uma série de autores ou potenciais autores, entre casos reais e inventado pelo próprio escritor espanhol, que se perderam pela vida e optaram pelo silêncio na escrita, a exemplo de Juan Rulfo, Rimbaud e Robert Walser ou do personagem Paranóico Perez, que sempre que tem ideias para um romance, logo as vê publicadas no novo livro de Saramago.

Bom, aproveitando a deixa da nova edição de Bartleby, listamos dois casos brasileiros da síndrome do silêncio:

Raduan Nassar

raduanCaso bartlebyliano mais emblemático da literatura brasileira, Raduan Nassar já tinha um espaço de destaque nos anais da literatura brasileira com os livros Um copo de cólera e Lavoura arcaica. Apesar do reconhecimento, em uma entrevista a Folha de S.Paulo em 1984, o autor brasileiro disse que sua vida pouco tinha a ver ainda com a literatura e dali em diante passava a se dedicar a pecuária e a agricultura, numa fazenda em Buri, no interior de São Paulo. Em 1997, esse vácuo seria amenizado com a publicação de Menina a caminho, coletânea de contos escritos nos anos 60 e 70. Mas o silêncio literário permaneceu e permanece desde então.

Ariano Suassuna

SuassunaEmbora não seja bem um exemplo de silêncio, por conta de suas aulas-espetáculo e suas participações em campanhas políticas entoando o frevo de Capiba Madeira que cupim não rói, Ariano Suassuna permanece num limbo literário que já alcança 15 anos. Ainda que sua produção seja vasta, com 19 peças, 4 obras de ficção e mais uma dezena de estudos e coletâneas de poemas; seu último livro publicado saiu lá em 1999. Tratava-se de uma seleção de poemas organizada pelo professor Carlos Newton Júnior, publicada pela editora universitária da UFPE. Em entrevistas, Ariano sempre fala que está escrevendo um novo romance, projeto iniciado no século passado, em 1981. Mas por enquanto o que se sabe apenas é que o título será O jumento sedutor e que o autor tem procurado fundir poesia, teatro e romance.

 

Críticas:

Bartleby, o escriturário – Herman Melville

Bartleby e companhia – Enrique Vila-Matas

Lavoura arcaica – Raduan Nassar

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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