Mario Prata entrevista uns brasileiros – Mario Prata

0

AVALIAÇÃO

60%
60%
Bom
  • Hugo Viana
    6
  • Avaliação dos visitantes (Avaliações)
    0

PRÓLOGO

Autor: Mario Prata nasceu em Uberaba (MG) em 1946. É escritor, dramaturgo, roteirista de novela, jornalista e cronista. Tem mais de 3 mil crônicas e 80 títulos já publicados. Entre suas principais obras estão os livros Diário de um magro, Minhas mulheres e meus homens, James Lins e Sete de paus.

Livro: Mario Prata entrevista uns brasileiros é a continuação de um projeto bem sucedido iniciado na revista Brasileiros, quando, em 2013, o escritor começou a lançar perfis de personagens históricos do Brasil (como Pedro Álvares Cabral, Padre Anchieta, Calabar, Aleijadinho, Xica da Silva e Castro Alves). Ao todo, o livro reúne 22 perfis, dos quais 14 já haviam sido publicados na revista.

Tema e enredo: Movido pela tentação do jornalismo moderno em escrever perfis sobre gente brava e importante, Mario Prata, autor e personagem, se propõe a entrevistar figuras da História do Brasil, sejam personagens essenciais (Dom Pedro I, Pedro Álvares Cabral) ou um pouco menos conhecidos no imaginário popular (Içá-mirim, Chico Rei).

Forma: A base na qual Mario Prata trabalha é a realidade histórica, mas a extensão de seu poder narrativo equivale à medida de seu bom-humor; fazendo com que a História seja rearranjada de maneira que as piadas se encaixem nas curvas dos relatos.

CRÍTICA

Conversas a-fiadas
por Hugo Viana

Mario Prata entrevista uns brasileiros é o tipo de livro em que o entusiasmo do autor durante o processo de escrita parece chegar intacto ao leitor. Mario Prata, escritor e jornalista, propõe uma revisão cômica da História do Brasil, enxergando ficções alvoroçadas nas histórias de pessoas e eventos reais, entortando os fatos com as ferramentas tradicionais do jornalismo, para encontrar, na deformação, a singularidade de sua imaginação.

A proposta de Mario Prata, autor e personagem, é entrevistar figuras da História do Brasil, sejam personagens essenciais (Dom Pedro I, Pedro Álvares Cabral) ou um pouco menos conhecidos no imaginário popular (Içá-mirim, Chico Rei). Mario parece movido pela tentação do jornalismo moderno: escrever perfis sobre gente brava e importante, fazendo esforço para observar emoções e características além dos clichês eternizados pelo tempo – as traições de Calabar, a sensualidade de Xica da Silva –, esmiuçando o que se esconde por trás do registro oficial.

Prata sugere novas formas e sentimentos ao que permanece oculto nessas personalidades usando sua imaginação, e não a partir de vasta pesquisa histórica. O autor parece menos interessado em passar horas transcrevendo descobertas feitas em bibliotecas e arquivos públicos do que recriar eventos e personagens explorando o alcance de sua fantasia. A base na qual o autor trabalha é a realidade histórica, mas a extensão de seu poder narrativo equivale à medida de seu bom-humor; fazendo com que a História seja rearranjada de maneira que as piadas se encaixem nas curvas dos relatos.

A mistura entre humor e História, estratégia essencial dos perfis, é manejada pelo autor de maneira que o texto sobre um personagem entrevistado possa entreter não apenas pelo que oferece de graça e fluidez literária, mas também pelo que indica sobre a origem de problemas contemporâneos no país – sem diligência acadêmica ou legitimação científica, apenas comentários e chistes breves sobre contradições célebres.

O bispo Pero Fernandes Sardinha, que “apesar de ter sido literalmente comido pelos índios, não perdeu o humor”, é um exemplo interessante do potencial que há nessas entrevistas. Sardinha é observado tanto pela comédia trágica envolvendo seu nome e destino quanto por sua situação política: um homem que lutou contra a escravização de índios e, enquanto ia de navio a Portugal – para relatar ao rei D. João III os abusos dos portugueses contra os nativos –, um naufrágio o colocou na chapa quente dos caetés. Segundo a apuração implacável de Prata, quando naufragou, Sardinha perdeu os originais de seu livro, Anedotarum et in parabolam, et in missa de Portugal-Brazilia, com mais de 300 piadas. É divertido.

Mario Prata expõe o filho de Duarte da Costa – representante da nobreza que maltratava os índios – Álvaro da Costa, como um jovem particularmente sádico. A posição social fazia com que seus atos passassem impunes. A ofensiva do bispo, que levaria suas queixas a Portugal, terminou em naufrágio… Sabotagem? O triste fim de Pero Fernandes Sardinha ofereceu a chance para os nobres portugueses se tornarem mais rígidos contra os índios. O comentário crítico do autor é claro, relacionando passado e presente – berço e injustiça, hipocrisia e intolerância –, enquanto passeia por mais de 500 anos de História.

Embora os pontos altos do livro sejam intrigantes (a conversa com Tiradentes, ou ainda a não entrevista com Aleijadinho), agradáveis pela maneira como trabalham o humor em uma perspectiva histórica e pelo que indicam sobre a trajetória do Brasil, sugerindo com mais graça do que convicção política e autoridade histórica que nosso país é hoje a evolução natural de tropeços monumentais e sentimentos difusos e exaltados; há algo de banal nos capítulos menos inspirados.

O alcance ocasionalmente curto da imaginação de Prata é uma nota negativa. Alguns perfis tendem com frequência para o humor sexual, piadas sobre feitos e descobertas do corpo, como se o roteiro erótico fosse a maneira mais incisiva de narrar histórias. Poderia ser uma piscada para o que vem se tornando o jornalismo de celebridades, a busca mais ou menos exagerada pela intimidade das estrelas, a forma como portais de notícia buscam cliques ao colocar chamadas polêmicas sobre amor & privacidade, mas o excesso retira parte do encanto do humor do escritor.

Perguntas sobre homossexualidade (o autor opta pelo termo homossexualismo… a terminação ‘ismo’ para determinar a orientação sexual já vem sendo criticada há algum tempo – mas esse é outro assunto) são repetidas algumas vezes nas entrevistas; Calabar teria se juntado aos holandeses por causa, entre outros motivos, das “loiraças de um metro e oitenta”, ao contrário das “portuguesas baixas e bigodudas”. Se até o Zorra Total percebeu que esse tipo de humor não causa mais impacto, notando que o público superou os personagens do velho tarado e da jovem voluptuosa e assanhada, uma literatura com proposta tão mais refinada realmente não precisa desse tipo de piada.

A lista de entrevistados tende aos anos de presença portuguesa no Brasil – não apenas integrantes da realeza, mas também índios e jesuítas; embora as conversas tenham um bom ritmo e progressão, talvez uma maior diversidade de entrevistados em mais de 500 anos de História pudesse dar ao livro uma coletânea mais vasta e dinâmica. As entrevistas com Castro Alves e Charles Miller, exceções a essa maioria lusitana, são ótimos trechos do livro.

Importante destacar que esta obra vem sendo construída há alguns anos; é a continuação de um projeto bem sucedido iniciado na revista Brasileiros, onde Mario Prata começou a lançar esses perfis em 2013 (assim como no livro, Pedro Álvares Cabral também foi o primeiro editado). Ao todo, 14 textos dos 22 que estão neste lançamento já foram apresentados antes; o leitor agora pode ler oito narrativas inéditas.

A possibilidade de ampliação desse projeto de entrevistas, com novas conversas e perfis – que podem inclusive apontar para outras questões da História do Brasil, dependendo do recorte – apenas ressalta como essa ideia simples (entrevistar figuras históricas) tem um potencial tão intrigante e difícil de prever em detalhes. Outros volumes podem facilmente vir nos próximos anos e nos surpreender.

Lido em julho de 2015
Escrito em 08.07.2015

FICHA TÉCNICA

Mario Prata entrevista uns brasileiros
Mario Prata
Editora: Record
1ª edição, 2015
248 páginas

TRECHO

“Nesta entrevista, mais do que exclusiva, ele fala do Descobrimento do Brasil, não explica direito por que viajava com treze barcos nem para que uma tripulação de 1.500 homens. Colombo, por exemplo, para descobrir toda a América usou apenas três cascas de nozes. Cabral fala de sua suposta relação com Paulo Salim Maluf, fala de Colombo e Américo Vespúcio (senti uma certa inveja por parte de Cabral), comenta o vinho tomado durante a viagem de 44 dias do Tejo à Bahia de Porto Seguro. E cochicha sobre nudez. Sussurra sobre homossexualismo.” (p. 14)

EPÍLOGO

Entrevistas: Pedro Álvares Cabral; Içá-Mirim; Padre Anchieta; Bispo Sardinha; Arariboia; Calabar; Chico Rei; Aleijadinho; Xica da Silva; Dona Maria I, a Louca; Tiradentes; Dom João VI; Dom Pedro I; Maria Quitéria; Marquesa de Santos; Dona Beja; Madame Lynch; Carlos Gomes; Dom Casmurro; Castro Alves; Rui Barbosa; Charles Miller.

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

Comente!