Marvels – Kurt Busiek e Alex Ross

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Marvels_por_Alex_RossAutores: Alex Ross (Portland, Oregon, EUA, 1970). Ilustrador, com diversos trabalhos prestados a Marvel e a DC Comics. Em seu currículo constam 13 Prêmios Will Eisner e obras como Marvels e Reino do Amanhã.

Kurt Busiek (Boston, Massachusetts, EUA, 1960). É roteirista, vencedor de 10 Prêmios Will Eisner. Entre seus trabalhos, destacam-se a temporada de 4 anos na revista Os Vingadores, a série Marvels e o título Astro City.

Livro: Publicado em 1994, Marvels foi uma série originalmente publicada em quatro edições. Nesse ano, ela abocanhou três Prêmios Will Eisner, nas categorias de melhor minissérie, de melhor ilustrador e de melhor design de publicação.

Tema e Enredo: Marvels reconta a origem dos super-heróis do universo Marvel pelo ponto de vista do fotógrafo Phil Sheldon, que narra com espanto, admiração e receio o surgimento de seres poderosos como Namor, Tocha Humana e os mutantes.

Forma: A premiada arte de Alex Ross ressalta, através de detalhes com os vincos das roupas, o tom realista do roteiro de Busiek, dando a Marvels uma perspectiva histórica e ainda um contraste entre o mundo e os seres fantasiados.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Realismo no mundo dos super-heróis

Com tramas que envolvem invasões alienígenas, deuses místicos, seres poderosos, mutações, mundos em outras dimensões e avanços tecnológicos que ainda estamos a léguas de alcançar; os quadrinhos de super-heróis decolaram para um universo próprio marcado pela fantasia. Entretanto, foi explorando justamente a tensão entre a realidade e a fantasia que algumas histórias se tornaram relevantes como obras de arte, rompendo o preconceito que havia em relação aos quadrinhos através de uma visão crítica sobre preocupações que dizem respeito ao mundo real.

Caso basilar disso é a minissérie Marvels, publicada em quatro revistas entre janeiro e abril de 1994. Assinada pelo roteirista Kurt Busiek e desenhada por Alex Ross, a história teve sua qualidade reconhecida pelo Prêmio Will Eisner, vencendo em três categorias (de Melhor Minissérie, Melhor Ilustrador e Melhor Design de Publicação) e sendo indicada em outras duas (Melhor Artista de Capa e Melhor edição em uma só história, para o segundo número da minissérie). Com esse currículo de peso, a minissérie mereceu uma edição comemorativa pelos dez anos do seu lançamento, com prefácio de Stan Lee e arquivos de bastidores em que Alex Ross explica o seu processo criativo.

Não era para menos, afinal, como bem diz Stan Lee no prefácio: “Marvels é um gigantesco salto adiante, que nos traz a um novo patamar na evolução da literatura ilustrada”. Tamanho elogio é explicado algumas linhas depois: “De todas as incontáveis graphic novels (…), nenhuma trouxe o leitor tão diretamente para dentro da história quanto Marvels, nenhuma tornou o leitor uma parte dos eventos que se desenrolavam da mesma forma que Marvels, e nenhuma fez o leitor se sentir como se ele ou ela estivesse na cena, testemunhado o desenrolar da história, da mesma maneira que Marvels”.

Com a experiência de ter criado alguns dos mascarados mais populares do Universo Marvel (como o Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, X-Men, Hulk, Homem-de-Ferro, Demolidor e Thor); Stan Lee acerta em cheio na sua avaliação. O grande mérito de Marvels está na maneira como ela reinsere a realidade na narrativa dos super-heróis. Ao invés de contar a história a partir dos heróis, Busiek prefere pegar um viés periférico, escolhendo como narrador o jornalista fotográfico Phil Sheldon, um jovem em início de carreira que planeja ser escalado para a cobertura da Segunda Guerra Mundial, mas termina adiando seu plano, fascinado com o surgimento de super-heróis em Nova York.

A nova perspectiva provoca mudanças enormes naquele tipo de história de mascarados que já conhecemos. Ao invés de relatos de lutas e investigações, temos as preocupações sinceras de um cidadão comum que sai para trabalhar e de repente se depara com um andróide flamejante (Tocha Humana), um ser do oceano (Namor) e um soldado fabricado em laboratório (Capitão América). Em vez de focar em detalhes como ferimentos, pontos fortes do inimigo e na possibilidade de solucionar crimes; os duelos de mascarados são vistos por Sheldon como um acaso, um evento de sorte, uma possibilidade de tirar boas fotos e um risco de vida, feito ele descobre ao ser atingido por um tijolo durante a cobertura do duelo entre o Tocha Humana e Namor.

Com o olhar apurado de um jornalista e, ao mesmo tempo, relutante de um pai de família; Sheldon é testemunha e agente de um novo passo na evolução humana que ocorre entre 1939 e 1974. Nesse período, ele se sente diminuído diante do poder dos super-heróis e orgulhoso pela atuação das maravilhas (maneira como ele chama os mascarados) na Segunda Guerra Mundial, receia o futuro de suas filhas num mundo habitado por mutantes e se revolta contra o desprezo dos nova-iorquinos aos heróis, teme o fim do mundo com a invasão de Galactus e procura salvar a reputação do Homem-Aranha, acusado de assassinato pelo jornal sensacionalista Clarim Diáro, de J.J. Jameson.

Nessa gangorra de sentimentos e impressões, o roteirista apresenta um olhar tão pessimista quanto real sobre a nossa dificuldade em lidar com o novo, com o estranho. Na história, toda a destruição e o medo provocado pelos supervilões não chegam perto do mal que o próprio homem pode provocar a si mesmo, como o autor aponta através do horror causado pelos nazistas e da irracionalidade dos nova-iorquinos na caça aos mutantes. Aliado ao texto engenhoso de Busiek, os desenhos primorosos de Alex Ross reforçam o teor realista da história. Verdadeiras pinturas feitas a partir de estudos em cima fotografias tiradas pelo próprio Ross para se aproximar do real (com especial atenção às sombras dos vincos das roupas), além de conferir o aspecto nostálgico para contextualizar historicamente a narrativa, as ilustrações dão a veracidade necessária para ressaltar o impacto do colorido dos super-heróis no cotidiano cinzento de Nova York.

Relido em Mar de 2012

Escrito em 11.04.2012

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[author_info]Thiago Corrêa

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Currículo: Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o escritor: Nenhuma. [/author_info] [/author]

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[learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Marvels

Kurt Busiek (roteiro), Alex Ross (desenhos)

Panini Brasil

1a. edição, 2005

242 páginas

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[learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“A caminho de casa, me perguntei por que tinha feito aquilo. Eu era um jornalista. Não fazia notícias… só as relatava. Pelo menos, geralmente. Mas havia alguma coisa em relação aos mutantes. Eles eram o lado sombrio das maravilhas. Enquanto o Capitão América e o Senhor Fantástico inspiravam a grandeza dentro de nós… os mutantes eram a morte. E nem precisavam fazer nada pra isso. Eles eram nossos substitutos, diziam os cientistas. O próximo passo na evolução. Nós, homo sapiens, éramos obsoletos. Eles eram o futuro. Iam cuspir em nossos túmulos.”, (p. 81)

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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