Matriuska – Sidney Rocha

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

matriuskaAutor: Sidney Rocha (Juazeiro do Norte-CE, 1965). Atualmente mora no Recife. É autor do romance Sofia, uma ventania para dentro (1994) e do volume de contos Matriuska (2009). Integrou a antologia Geração Zero Zero (2010).

Livro: Publicado em setembro de 2009, Matriuska reúne 18 pequenos contos. A edição traz prefácio do escritor Marcelino Freire e posfácio do crítico Mário Hélio.

Tema e Enredo: Os contos são habitados por mulheres num cotidiano desafortunado. As histórias revelam as experiências de horror e ranger de dentes dessas mulheres.

Forma: A linguagem experimental e muitos dos temas barra-pesada aproximam o livro de uma vertente de realismo feroz que se consolidou na nossa ficção contemporânea. [/learn_more] [learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Sobre Matriuska            

Quando muitos romances e contos brasileiros se dizem “contemporâneos”, eles parecem dizer: “eu ofereço retratos do imediato presente, relatos do corpo e deste mundo provisório”. Mas será que isto é suficiente? Cada obra literária nos ensina perguntas: que questões Matriuska, livro de contos do cearense radicado em Pernambuco Sidney Rocha, lançado pela Iluminuras, propõe ao nosso tempo e às obras literárias que lhe são contemporâneas?

As matriuskas são mais conhecidas por nós como bonecas russas, aquelas que se encaixam uma dentro da outra até chegar à menor. Os contos-matriuska de Sidney Rocha são todos habitados por mulheres envolvidas naquilo que o crítico Mário Helio, no posfácio ao livro, chama de “cotidiano desafortunado”. À medida que lemos as histórias de Matriuska, são reveladas estas mulheres e suas experiências. Ao contrário das bonecas russas, contudo, não chegamos à mulher final: quando fechamos os contos de Sidney Rocha, o ludismo da matriuska é substituído pelo do caleidoscópio.

A linguagem experimental e muitos dos temas barra-pesada aproximam o livro de uma vertente de realismo feroz que se consolidou na nossa ficção contemporânea. Seguindo a trilha aberta por Rubem Fonseca, João Antonio e Dalton Trevisan, diversos ficcionistas dos anos 90 e 00 falam de um mundo de imediato presente, tomado pela degradação social, na qual a própria possibilidade de adquirir experiências parece estar sob ameaça constante.

É o caso de alguns textos de Ana Paula Maia, Marcelo Mirisola, Marcelino Freire, Fernando Bonassi, Patrícia Melo, o João Paulo Cuenca do livro Corpo Presente, entre outros. Estes e outros escritores agarram com todas as forças a velocidade e a vertigem – usando uma linguagem direta e rápida, com um imaginário vinculado ao realismo –, num bailado no qual o corpo paga o preço da miséria social em sangue, bala e sordidez, tudo isto resultando em uma literatura que se quer “em tempo real”. Contos como sundown e flash se aproximam desta tendência. Na verdade, as narrativas construídas por Sidney Rocha tem como espinha dorsal fixar, quase como uma fotografia, instantes de angústia das suas personagens, principalmente as femininas. É possível perceber em alguns um exagero neste esforço – zero-cal e déjà vu poderiam ser citados. Às vezes, a “câmera” do narrador se aproxima de maneira tão próxima destes instantes de angústia, que a lente começa a se embaçar e o foco desafina.

Os textos de Matriuska indicam, contudo, que seu autor tem consciência do perigo de apegar-se a cacoetes maneiristas, ou a uma estética de extremo niilismo. Não obstante as ressalvas, o experimentalismo com a linguagem, o uso de citações, a procura de diluir os limites entre a prosa e a poesia são bem urdidos e criam uma boa tensão entre referencialidade e invenção poética. O flerte com o fantástico e o realismo mágico – (os contos egg e wwwoman, por exemplo) – também é bem aproveitado. Se temos boas imagens como “quem morre, nestor, é feito arbusto: não dá sombra nem escora”, por outro lado encontrei também imagens que não funcionaram comigo, tais como “durante anos visitei o seu corpo de inverno para untá-la como a um pão de ontem” e invenções linguísticas desnecessárias, a exemplo de: “jane conhecera osvaldo quando foram vender o fiat dela, para quele entrasse noutra sociedade”.

Os melhores contos de Sidney Rocha abrem janelas, mesmo que a paisagem continue nublada: em Nuvem, mito, história e tempo presente se misturam formando nós de significado e ambiguidade interessantes, bem como o terrível, no bom sentido, Mastruz, que nos apresenta a tensão entre uma forma de espiritualidade laica – “da minha missa sei euzinha” – e os antigos códigos morais de um tempo no qual a Fé impunha, sem espaço para questionamentos, a necessidade de sacrifício da própria individualidade. E a partir deste tema, o de que Deus seria reescrito por cada um de nós de acordo com nosso conforto individual, o conto abre seus horizontes em direção a um considerável abismo metafísico, com a repetição da frase-cantilena “desígnios de deus, desígnios de deus…”. Bem-sucedida também é a conversa estabelecida entre os contos matriuska e googlemap, pois os diferentes pontos de vista sobre as personagens e suas dores acrescentam novas camadas que se tensionam e afastam as imagens clichê do feminino.

 Voltamos, então, à metáfora das bonecas russas. Quando Sidney Rocha consegue conciliar o ludismo da linguagem com uma visão complexa das diversas facetas e camadas de realidade, temos como resultado personagens femininas bastante interessantes e uma voz própria: as bonecas se sucedem umas às outras até encontrarmos um conteúdo denso e conciso. Entretanto, quando está próximo ao lugar comum do contemporâneo, esta última boneca do jogo das matriuskas se transforma em uma miudeza – um real com sinal de menos. Matriuska, embora irregular, é uma aposta de que uma voz interessante está em formação. Seus contos consolidam o vigor que a prosa produzida a partir de Pernambuco apresenta, neste momento, bem como a principal característica desta produção: partir da tradição e das pautas do contemporâneo a fim de propor novas regras ao jogo, deixando como resultado final um conjunto de vozes muito próprias.

Cristhiano Aguiar

Lido em setembro de 2009

Escrito em setembro de 2009

Revisado em abril de 2014

Referência para citação:

AGUIAR, C. M. . Matriuska – literatura em tempos efêmeros. Revista Continente, Recife, p. 56 – 57

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Sussurros poéticos da violência

Estampada quase todos os dias nas manchetes dos jornais, a tragédia social do país também tem feito as prensas do mercado editorial rodar. Cenas de violência se tornaram tão explícitas na literatura nacional quanto os problemas encontrados nas esquinas de nossas metrópoles. Com base nesse foco de interesse, pode-se encontrar pelo menos duas vertentes literárias. De um lado autores trabalhando a violência por um viés de denúncia social, trazendo descrições detalhadas de ambientes miseráveis e caracterizações de personagens sufocados pela falta perspectiva enfrentando situações limite. Dois expoentes dessa linha são o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, e o conto Feliz ano novo, de Rubem Fonseca.

Sem tanto alarde ou vontade de evidenciar essa urgência pela denúncia, mas trabalhando com a mesma temática, aparecem como expoentes da segunda vertente os autores Marcelino Freire e agora Sidney Rocha, que publica seu segundo livro Matriuska. A linguagem deixa de ser uma lente de aumento, revelando com sordidez os detalhes do nosso desequilíbrio social, para assumir uma forma opaca, que prende o olhar na linguagem e não no fato em si. O foco fica na oralidade do texto, no ritmo, nas rimas e maneirismos estéticos.

Mas, apesar de não entrar de sola no rosto do leitor, cria-se uma sensação de descompasso, que chega a ser tão pertubadora quanto. O texto de Sidney Rocha parece nos atormentar com um sussurro de velho indecente no ouvido de uma criança. A angústia desse escritor cearense – que hoje vive entre Recife, São Paulo e Brasília – vai se revelando pouco a pouco, em pílulas de até quatro páginas, na medida em que os leitores vão descobrindo a pequenez do ser humano. Tudo acontece como numa brincadeira com as bonecas russas matriuskas, somos envolvidos pela escrita engenhosa do autor enquanto vamos encontrando nossos semelhantes, cada vez menores, dentro das entranhas em forma de palavras.

Nos 18 contos de Matriuska, gestos de carinho se revelam lâminas, pó de vidro que engolimos e nos fazem sangrar por dentro. O dilaceramento vem disfarçado, na forma da ingenuidade embutida na história de uma jovem do interior em busca da família na cidade, no sonho de uma funcionária de hotel querendo conhecer o mundo, na devoção a Deus e nas lembranças de uma relação amorosa. É apenas um detalhe, causa, consequência, desfecho. O que mais vale na prosa de Sidney Rocha não é o que vai acontecer, mas como ele ocorre.

Matriuska é um livro de pequenos contos interligados pelo rebuscamento das raízes no mal da natureza humana. São histórias construídas como relatos despretenciosos, jogados como conversas de bar. Narrados em primeira pessoa, os contos ganham um tom confessional que permite a aproximação do leitor e resulta em grafismos para desvirtuar a linguagem. Nem o uso de termos da cultura de massa consegue pasteurizar a narrativa de Sidney Rocha, que se torna ainda mais deslocada quando anunciadas por títulos como sundown, carefree e twitter.

O mesmo efeito ocorre com a transformação do idioma pela oralidade internética do autor, permitindo-lhe a junção de palavras como vocábulos e o descaso com as solenidades gramaticais nas referências em maiúsculo a nomes próprios e após pontos. Uma característica que nos faz lembrar de Marcelino Freire, que assina o prefácio e também compactua com o interesse pela tragédia e a lapidação de personagens brutos em rimas.

Lido em Set. de 2009

Escrito em 19.09.2009

Reescrito em 19.10.2009

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa

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Currículo: Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o escritor: Próxima. Desde o lançamento de Matriuska, acabei criando uma boa amizade com Sidney. O que tem rendido conversas, conselhos, dicas e críticas. [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Matriuska

Sidney Rocha

Iluminuras

1a. edição, 2009

95 páginas

[/learn_more] [learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“aí eles rasgaram o que puderam. enfiaram-se em mim, um após um, outro após outro, e foi nessa hora que detestei para sempre essas coisas do organismo, e que não entendi a reação das minhas carnes, e repudiei para sempre o meu corpo, e deicidi que com ele não viveria mais: As minhas glândulas piraram, meu amigo, entraram em curto sim, senhor, porque o que eles viram, no meio do nevoeiro, no absurdo daquilo tudo, foi o meu gozo tomando conta do recinto, uma, duas.. dez vezes, eu já disse dez vezes,” (p. 32).

[/learn_more] [learn_more caption=”CURIOSIDADES” state=”close”]Lançamento

Com Matriuska, Sidney Rocha venceu o concurso de lançamento de livros realizado na primeira edição da Freeporto. A competição, no  caso, premiava o autor que conseguisse arremessar para mais longe seu livro. Além da força física, testemunhas afirmam que o formato compacto e a capa dura do livro foram fundamentais para o bom desempenho de Sidney Rocha na disputa.

Curta

O livro foi adaptado para o cinema e virou um curta-metragem dirigido por Pablo Polo. O filme pode ser visto aqui.

[/learn_more] [learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Maurício Melo Júnior, no Jornal Rascunho.

(http://rascunho.gazetadopovo.com.br/dores-e-risos/)

“Passado o incômodo, a maçada da vanguarda desnecessária, fica um livro de qualidades narrativas indiscutíveis, um livro que traz em si uma linguagem crua, cortante, precisa.”

Lupeu Lacerda, no blog Séquiço Sacro, em 6 de setembro de 2009

(http://sequicosacro.blogspot.com.br/2009/09/matriuska-de-sidney-rocha-ou-ainda.html)

“Sidney tem o encantamento do estranhamento. De uma leitura que incomoda, porque real, porque parece que eu vi, porque parece que foi comigo, porque parece que a Marisa do conto ta vindo ali, de lá, de sei lá onde, com medo do sol.”

Francisco Quinteiro Pires, no Estado de São Paulo, em 15 de setembro de 2009

(http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090915/not_imp434908,0.php)

“Em Matriuska, os personagens só existem associados aos fatos de que são protagonistas ou, melhor dizendo, de que são vítimas. Os acontecimentos não se deixam revelar por inteiro: algumas brechas de luz iluminam a treva, da qual saem vivências dolorosas e extremas, como o aborto, o estupro e a pedofilia.”

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Do mesmo autor

O destino das metáforas

Sofia, uma ventania para dentro

Obras relacionadas

Angu de sangue – Marcelino Freire

Rasif: mar que arrebenta – Marcelino Freire

Cidade de deus – Paulo Lins

Feliz Ano Novo – Rubem Fonseca

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

8 Comentários

  1. lula terreiros em

    eu acho que esse sidney escreve muito melhor que todos aqueles que sentem inveja dele e até do que alguns daqueles que nem o conheceram porque se foram cedo demais, por sede ou falta de sede… Duvidas? Vai a Matriuska e te engasgas com as espinhas dor-sais de seus contos, tontos ficarás e não quererás dormir, mas pra que tanta vigília?
    parabéns ao camarada da terra do cícero romão, que acolheu lampião.

  2. Ramos Sobrinho em

    Penso em Saramago lendo Sidney Rocha… Nem possoimaginar as faíscas saltando para todos os lados…pois, ele, Saramago, quanto nós outros pequeninos provincianos , ouvimos dizer , reiteradamente, roboticamente, que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus… É evidente que há uma terrivel infância condicionando a História dos seres humanos e desumanos. Vivemos dando voltas num círculo de giz de prender perus… Até quando? Não sabemos, claro. Penso em Sidney Rocha, e nas matriuskas enfurnadas Brasis adentro, servindo de pasto para todos os tipos de tarados, padres, pastores, proprietários de terra…
    Penso em Sidney Rocha quando leio as colunas sociais dos nossos jornalecos,com suas margozinhas que sabem escolher bem as jóias para desfilar nas arcádias dos quintos dos infernos, enquanto nossas cidades infelizes derrubam suas casas e suas histórias para abrir pistas para automóveis multinacionais, nossas cidades vencidas pelas especulação política, por oportunistas e vigaristas, vencidas pela burocracia , pelo medo, pela manipulação da consciência astuciosa, ardilosa, exploradora, vil. Penso em nossas cidades sem bibliotecas, sem professoras qualificadas para romper as diversas formas da cultura de dominação neocolonial. Quantas matriuskas saberão da tua existência, Sidney Rocha? Nenhuma. Estás sozinho na tua dor, SD. Mas, eu , também, estarei contigo até `a consumação dos séculos. Um abraço.

  3. Hola,
    soy argentina de Buenos Aires y en realidad no tuve la oportunidad, aun, de leer el último libro de Sidney,quisiera que alguien, si es que lo tiene en forma electrónica, me lo envie a este correo. Conozco a Sidney , si lo ven, por favor diganle que sigo amandolo!!!
    He leido “Sophia”, hace mucho tiempo, y en varias oportunidades, y aun sigo maravillandome con esa novela.
    Desde ya agradezco a quien pueda hacerme este favorcito.
    Saludos

  4. Mil gracias por comentarle mi deseo de leer el último de sus libros, Matriuska, a Sidney Rocha. ya me contacte con él por mail.
    Les quedo muy agradecida.
    Saludos y FELIZ 2010!!
    Susana, de Buenos Aires…

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