Memória de Minhas Putas Tristes – Gabriel García Márquez

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Memória de amores contrariados

Para os fiéis leitores do colombiano Gabriel García Márquez, há poucos meses acabou o jejum de uma década. O novo romance do Prêmio Nobel de Literatura, Memória de Minhas Putas Tristes — lançado ano passado com ampla repercussão — contava com uma expectativa tão grande que, antes mesmo de sua publicação, já circulava na Internet, o que levou o autor a alterar o final no último momento, surpreendendo os leitores quando da efetiva chegada da obra às livrarias.

E não era para menos. Tratava-se da primeira obra de ficção que o grande artista escrevia em bastante tempo, e, é de se convir, García Márquez é considerado um dos maiores escritores vivos da atualidade.  Em meio a tanto disse-me-disse, o sucesso foi inevitável: no Brasil, a versão original do livro, em espanhol mesmo, figurava entre listas de mais vendidos.

A tradução brasileira, feita pelo premiado Eric Nepomuceno — que também fez a versão de Viver para Contar, autobiografia de García Márquez — mantém a fluidez do texto original, importante em um livro feito para ser lido de fôlego único. Memória de Minhas Putas Tristes, na verdade, melhor seria enquadrado como uma novela do que como um romance propriamente dito.

O enredo é simples, e a habilidade narrativa de García Márquez transparece a cada capítulo. O livro conta da passagem de noventa anos de um jornalista solitário e melancólico, cujo desejo maior em tão importante ocasião foi se dar de presente uma noite com uma prostituta virgem.  A partir da realização do desejo (ou sua não-realização, dependendo do ponto de vista), García Márquez traça belas linhas de reflexão sobre a velhice e sobre a solidão, e volta a um de seus temas preferidos, aquele dos amores frustrados.

Numa primeira análise, a obra traz vários pontos de contato com uma das obras-primas do colombiano, o clássico romance Amor nos Tempos do Cólera, uma verdadeira ode às relações amorosas.  Impossível não compará-las. O velho ancião de Memória tem algo, de fato, de um Florentino Ariza já mais calejado, e bem menos romântico. Provavelmente bem mais próximo do verdadeiro eu do autor. Ambos os livros tratam com delicadeza do tema do amor na velhice, mas aí acabam as semelhanças. García Márquez mostra agora um texto bem mais cético, amargurado, que vê a relação idoso/ninfeta sem traços moralistas (o que teria sido bem fácil, nos tempos atuais) e com ares nostálgicos. Como um lamento pela perda da inocência, pela fábula infantil incompleta. Não da menina, mas do próprio narrador.

O talento de García Márquez continua inquestionável. E é sempre um prazer ler o gênio latino-americano da literatura fantástica, carinhoso como ele sabe ser. Mas a impressão que fica é saudosista, um gosto estranho de algo que poderia ter sido, mas não foi. Talvez seja proposital. É esse mesmo o tom do livro.

Aline Arroxelas

: : TRECHO : :
“É que estou ficando velho, disse a ela. Já ficamos, suspirou ela. Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê”.

: : FICHA TÉCNICA : :
Memória de minhas putas tristes
Gabriel García Márquez
Trad. Eric Nepomuceno
Record, 1a. edição, 2005
132 páginas

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Sobre o autor

2 Comentários

  1. Ciça Buendía em

    A recorrência caracteriza bem a obra de García Márquez. Digo isso não só em relação aos nomes de personagens, mas a própria nostalgia que percorre suas obras. Em “Memoria de minhas putas tristes” um velho de noventa anos conhece o amor pela primeira vez, ou seja, são quase “cem anos de solidão”.

  2. Amar na juventude é bom, na velhice é melhor ainda. Romance nos traz esperança que também na velhice podemos amar alguém.

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