Meu amigo Cthulhu (Notas sobre literatura e ideologia)

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Volta e meia, alguém me diz:

– Gosto muito de ler Fulano, apesar de ele ser um reacionário.

O inverso também acontece. Lembro de me perguntarem, por exemplo, se “valia a pena ler Saramago, apesar de ele ser comunista”.

Não me excluo destas falas. Dias antes de começar a escrever este texto, fui jantar com dois amigos. Dentro do carro do amigo que me deu carona, encontrei um livro de ensaios de Mario Vargas Llosa sobre temas relacionados à sociedade e cultura contemporâneas.

– Um grande escritor. – Comecei a dizer, após fazer um gesto superior no ar. – Embora eu ache suas opiniões sobre cultura meio conservadoras.

E continuei, durante um ou dois minutos, fazendo uma espécie de discurso no qual eu insistia em colocar Llosa entre aspas. Agora, enquanto escrevo, sinto ter feito papel de bobo. Por que quis me interpor daquela maneira brusca bem no meio da leitura do meu amigo? Queria protegê-lo de uma suposta “Grande Doutrinação da Direita”? Não pensem, porém, que duvido da importância de debates – sejam estes feitos no Facebook, nas bancas de tese, na alcova, ou numa mesa de bar – sobre qualquer texto que seja. Não se trata de elogiar a indiferença, ou o solipsismo no tocante à experiência coletiva da leitura, mas sim de sempre pensar até que ponto a hiperpolitização do texto literário não nos levar a atropelar a graça de um poema, um romance, um ensaio. Uma história cultural de como inventamos e representamos para nós mesmos esse ser ainda tão desconhecido – O Leitor – vai nos revelar um enredo cheio de reviravoltas romanescas, tragicomédias, contrabandos, sangue derramado, tabus, fantasmas e moinhos de vento a serem atacados. Às vezes ameaçado, às vezes patrulhado; às vezes infantilizado, às vezes ameaçador: a multidão dos leitores sempre nos escapa quando queremos narrá-la tão somente à nossa imagem e semelhança.

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Precisamos, volta e meia, negociar as vidas e as escolhas das pessoas que para o bem e para o mal escreveram as obras que prezamos. Observo agora os livros guardados nas minhas estantes: cada volume, apesar de quieto, é uma espécie de nódulo onde se entrelaçam tempos, culturas, ideologias e trajetórias individuais. Sempre achei verdadeiras aquelas histórias nas quais os objetos da casa passam a ter vida quando os seus donos não estão por perto. Como toda boa literatura fantástica, a imagem é realista: de repente os livros, no plano da leitura e dos debates literários, se colocam em constante movimento, brigando por atenção, atravessando novas temporalidades, subindo e descendo na móvel hierarquia dos valores literários (e posso imaginar os meus brincando de gangorra).

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A literatura sempre esteve sob suspeita. Da Poética até os dias de hoje, ela foi normatizada, banida, sequestrada, mensurada, podada, resgatada das ruínas. Atuando como crítico literário dentro da academia e fora dela, vi vários exemplos que podem nos fazer pensar sobre a relação entre literatura e ideologia. Em um determinado congresso, por exemplo, ouvi o depoimento de uma professora que afirmava ter planos de montar um curso de pós-graduação no qual se recusava a trabalhar com seus alunos qualquer romance em que uma mulher morria ao final da história. Conheço professores que baniram de suas aulas autores contemporâneos cuja participação em eventos ou ocasiões políticas estes professores consideravam reacionários, bem como blogs e revistas independentes que se recusam a escrever sobre qualquer autor atual cuja filiação política eles considerem “reacionária” ou “esquerdopata”. Ano passado, em um festival literário, me chamou atenção o modo como um escritor comparava Machado de Assis e Lima Barreto. Em sua interpretação, o Escritor Afro-brasileiro Ideal teria o “caráter de Lima Barreto e o estilo de Machado”. Para ele, o Bruxo do Cosme Velho era um traidor de sua própria negritude.

Nem pensem que estou advogando um retorno ao Humanismo Europeu Clássico, ou fazendo um elogio da Temperança do Homem Branco. Não há, também, nenhum elogio ao formalismo enquanto modo de descobrir um suposto puro prazer da linguagem. Pelo contrário, desejo pontuar o quanto concebo a crítica literária não como uma atividade que, ao se debruçar sobre um determinado texto, fica obcecada apenas em separar o joio do trigo; a boa crítica – aqui estou de fato em uma explícita militância – põe em contínua dúvida suas próprias certezas a respeito das palavras “joio” e “trigo”. Não apenas isto: entendo a crítica como uma imersão no complexo ecossistema daquilo que chamamos texto. Cada livro, cada texto, nos propõe diferentes pactos e regras do seu próprio jogo. O prazer do trabalho da leitura consiste em tentar entender quais regras são essas e, imersos dentro do mundo particular proposto pelo texto, abrir janelas.

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Devemos então desconfiar da literatura? Minha resposta é sim. Ganhamos imensamente com a suspeita teórica e o engajamento crítico das úlitmas décadas. Conjugar política e crítica literária, apontar e debater os nós ideologicos das obras sobre as quais nos debruçamos, significa, nos melhores casos, injetar sangue novo na literatura. Deste modo, não apenas resgatamos o calor da hora do instante no qual uma obra foi produzida, como renovamos e reiteramos sua importância e suas funções para nós, seus leitores contemporâneos. A opacidade da literatura, suas contradições e ambiguidades, não são um véu a ser desbaratado, como se a Verdade fosse uma criança travessa escondida por trás da cortina; a potência da literatura reside na encruzilhada e hibridez, na incerteza dos significados. A sua política se faz ali, dentro da linguagem e da mímesis. Se apenas o politicamente correto nos move, se o texto é tão somente um trampolim de uma quixotesca política, creio que perdemos o melhor da leitura. Afinal de contas, a literatura nunca está completamente enredada na ideologia de uma sociedade. Nem ela é o direto reflexo de suas condições econômicas. Pelo contrário, como lembra Terry Eagleton em Marxismo e crítica literária, o texto literário não só consegue se distanciar das ideologias, mas, ao menos parcialmente, desnudá-las.

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De onde surge a obra literária, quais variáveis dão conta de sua forma? São questionamentos amplos e não tenho condições de esgotá-los. A partir da leitura do já citado Marxismo e crítica literária, podemos elaborar os seguintes tópicos. A literatura é, ao mesmo tempo, formada: a) Pelas ideologias do seu momento de produção. Estas ideologias, contudo, não são um bloco de soldados marchando por uma única ideia. Elas apresentam contradições, tensões entre si e muitas vezes atravessam com diferentes nuances diversos grupos sociais; b) Pelo percurso individual do escritor: sua posição específica, singular, idiossincrática, em um dado tempo histórico; c) Pelo desenvolvimento intrínseco de uma tradição literária – seria melhor falar de tradições –, cujas transformações não são, de maneira nenhuma, reflexo mecânico das formas de poder, dos modos de produção, dos partidos políticos, ou das ideologias; d) Pelas condições sociais de produção da arte. A relação do escritor com um mercado editorial do seu tempo, bem como com os seus leitores e as diversas instituições da cultura, responsáveis, por exemplo, pela normatização, censura, ensino ou legitimação das obras literárias.

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O que fazer com escritores cuja biografia repudiamos?

Um dos tantos exemplos a serem dados é o caso do apoio dado por Jorge Luis Borges ao ditador chileno Pinochet. Autoritarismo, assassinatos, corrupção: a tudo isso, nem que seja com um pequeno grão de areia, o prestígio de Borges, ao apoiar o então ditador, ajudou a legitimar. O escândalo na época não foi pequeno, segundo Edwin Williamson, um dos seus biógrafos: “Durante essas visitas à Espanha e ao Chile, em 1976, ele estava com espírito extraordinariamente combativo e sentiu um prazer perverso em destruir os ídolos da esquerda internacional. (…) Na Espanha, alardeou seu apoio aos regimes militares da América do Sul, chamando a democracia de ‘superstição’. A situação na Argentina era ‘caótica’, mas o general Videla estava superando esse caos; seu regime era ‘um governo de soldados, de cavalheiros, de gente decente’. Eram opiniões para causar indignação certa na Espanha, país que tentava restabelecer uma democracia parlamentar depois dos quarenta anos de ditadura militar do general Franco”.

O que fazer, assim, com esse Borges? A sua grandeza literária é fora de dúvidas e este episódio está meio pálido e esquecido passadas quase quatro décadas. Mas temos hoje um bom escritor de Ficção Científica, Orson Scott Card, cujas convicções religiosas o fazem ser um dos mais conservadores ativistas estadunidenses contra a militância gay, por exemplo. O que dizer das recentes declarações antissemitas de Von Trier, ou das denúncias de abuso sexual que circundam a biografia de Woody Allen? Criadores assim deveriam ser premiados, homenageados, estudados nas escolas? Não há resposta pronta, nem fácil. Mas nada justifica que suas obras sejam banidas do nosso convívio. Por outro lado, o afeto – por uma obra, por um projeto literário – é parte importante da nossa relação com a arte. Assim, a indignação e o repúdio ao nos decepcionarmos com um artista cujo trabalho admiramos não me parece necessariamente uma imaturidade intelectual.

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Em seu ensaio “Devastação”, George Steiner nos fala de Lucien Rebatet, um escritor cujo romance Les deux étendards ele admira, mas cuja biografia é marcada pela colaboração com o nazismo. Steiner escreve: “Muito mais perturbador, muito mais subversivo do humanismo de Ruskin e Sartre seria o caso de um homem em quem a barbárie explícita coexistisse com a criação de uma obra de arte clássica. Esse caso existe. Um dos jovens facistas da década de 30 sobre quem Céline exerceu grande influêcia foi Lucien Rebatet. Durante a Ocupação, Rebatet colaborou ativamente com os nazistas. Suas denúncias de combatentes da Resistência no notório periódico Je Suis Partout, a alegria que expressou com a morte de judeus e reféns fizeram do nome Rebatet um dos mais abominados na França”. No entanto, confinado, Rebatet se tornou praticamente um dos personagens de Bolaño ao escrever um manuscrito de quase mil páginas na prisão. “Uma das obras-primas desconhecidas da literatura moderna”, afirma Steiner, admirado com a própria admiração e com aquilo que chama de “mistério”: “Nele [no mistério]uma imaginação profundamente generosa, uma apreensão da santidade da vida individual, que levaram à invenção de personagens literários duradouros, coexistem com doutrinas fascistas e objetivos de ação assassina abertamente confessados”.

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Um dos escritores que mais admirei talvez me considerasse, por ser latino-americano, pertencente a uma raça inferior. Ele também detestava asiáticos, negros, judeus e mulheres. Seu nome é H.P. Lovecraft. Nasceu em 1890 nos Estados Unidos e faleceu em relativa obscuridade 1937. Sua obra divide opiniões. De fato, seus cemitérios “musgosos”, seus monstros “bulbosos” e suas cidades perdidas “ciclópicas” não funcionam com todos os leitores. Que decepção eu sentia, por exemplo, ao mostrar algumas das histórias escritas por Lovecraft a amigos, que riam com o que consideravam o ridículo de labirínticas tramas sobre alienígenas e livros proibidos.

Lovecraft foi uma das minhas primeiras paixões literárias. Um dos seus livros foi o primeiro que comprei na minha vida. Tratava-se de uma compilação de contos (Um sussurro nas trevas) publicada pela Francisco Alves, cujo capa era ilustrada pessimamente com o desenho de lagostas aladas operando máquinas valvuladas. Embora até hoje Lovecraft não seja considerado um Messi da literatura dos Estados Unidos, sua influência na literatura fantástica é duradoura. Inúmeros autores o imitaram ou homenagearam. Talvez um dos seus fãs mais ilustres seja o nosso já citado Borges, que escreveu um conto em sua homenagem. Assim como outros autores do fantástico, principalmente aqueles que se deteram em gêneros como o Horror e a Fantasia, Lovecraft criou uma mitologia e colocou-a como moldura de várias das suas narrativas e rascunhos. Nessa mitologia, uma série de seres alienígenas, os Grandes Antigos, liderados por um ser de proporções ciclópicas chamado de Chthulu, esperam adormecidos nas profundezas da terra o dia no qual despertarão para escravizar não só a humanidade, mas provavelmente todo o cosmos.

Em seus melhores momentos, há uma energia narrativa e uma tensão na escrita de Lovecraft que tornam as suas histórias irresistíveis àqueles que, como eu, apreciam este tipo de literatura. Claro, o seu resultado literário é desigual e o criador de Cthuhlu esteve o tempo todo à beira do ridículo. Seus heróis são de maneira geral solteirões assexuados, homens dedicados a uma vida de estudo e reclusão. Stephen King, porém, enxerga muitas alegorias sexuais e desejos reprimidos em suas narrativas, principalmente na criação dos seus monstros – tendo a concordar com essa leitura e penso que a sensação de sordidez do horror, tão importante em Lovecraft, é em parte explicada por uma pulsão sexual, latente e atormentada pelo puritanismo, escondida nas suas imagens fantásticas.

No entanto, o tempo desfez a força desses contos em minha memória afetiva. Continuo admirando Lovecraft, mas ele não é mais tão interessante quanto era para mim aos quinze anos de idade. O que aconteceu? Cresci e decidi abandonar as distrações da literatura fantástica, em prol de autores “sérios” e “realistas”? De maneira alguma: continuo adorando e sendo influenciado por pulp fiction. O que mudou, contudo, foi a percepção da ideologia. Assim, no caso de alguns dos seus contos, seus preconceitos aparecem nas histórias de maneira tão ostensiva, que passaram a me incomodar muito. Apesar disso, não é necessário abandonar Lovecraft. Seus textos, mesmo cheios de preconceitos, continuam a oferecer camadas muito interessantes e um ou outro medo genuíno. Podemos encontrar o horror que surge da experiência com o sublime, especulações instigantes a respeito de formas de vida alienígenas, assim como metáforas acerca dos limites da capacidade humana em formular hipóteses sobre a realidade que nos circunda. Se em um conto como Horror em Red Hook, temos um compêndio de preconceitos e imagens caricatas, nas quais os monstros são uma mera alegoria rasa de um ódio à alteridade (por isso acho este um dos seus piores contos), no clássico O chamado de Cthulhu, uma obra-prima do fantástico (e uma aula de como estruturar uma narrativa a fim de alcançar uma boa atmosfera e suspense), os preconceitos existem ao lado de uma série de metáforas, personagens e cenas instigantes. Talvez Lovecraft já não seja mais aquele melhor amigo da época da adolescência. Com certeza estamos em lados opostos da mesa. Mesmo assim, é bom reencontrar suas histórias.

Ensaio publicado originalmente na Revista Cesárea

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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