Meu turno na ronda – Diogo Monteiro

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Um réptil habita meu cérebro.

Ele implora para se estirar e afinar o sangue sob o dia. Mas lhe concedo apenas estas incursões à janela, na madrugada. Ele chia contrariado, lambe o ar morno, contrai as garras, ameaça com a cauda, mas se recolhe, deixando-me só na vigia.

O réptil quer inflamar as escamas. Eu quero o escuro e o silêncio. O silêncio dos outros. Só, eu me preencho.

Daqui, passeio sobre o abraço dos muros. Nesta hora, as janelas conversam. Buracos acesos no preto, onde cada observador cede a outro um corte de biografia. Eu os espreito, completando as histórias, e atravesso sem corpo o ar.

Súbito, estou lá. Eu sou eles: as luzes piscando o mesmo programa de tv, o sono adiado na quina da cama, um banho para escorrer o dia, a roupa pendurada para amanhã. Aqui em frente, na proximidade incômoda de alguns metros, a janela apagada há um mês.

É nela que minha ronda termina, invariavelmente. Desde antes, quando a atenção ocupava seu interior como um cômodo de minha própria casa. Parava sobre ela, coletando uma informação escapada, um movimento. Se conseguia, o primeiro reflexo era recuar, fechar o vidro e me recolher à proteção do escuro. No entanto, nem os pés nem a cabeça se moviam, e eu permanecia aqui. Era nessa janela que meu silêncio se acabava.

Começava como agora. Uma madrugada de som baixo, de estridulação sobre motores distantes.

As luzes do apartamento apagavam e uma lanterna acendia, o facho se debatendo pela casa, rebatendo em aleatórios telhados e cacos de vidros – seguranças entre vizinhos – até parar no cômodo à frente, onde minha atenção esperava.

Começava o debate exaltado com o vazio. O morador emendava grunhidos, engasgos e estalos. Em alerta, imposição, contrariedade, frases encurtadas em palavras sem solo. Seguiam-se as pancadas nas paredes, objetos ao chão. Às vezes, vidro quebrando. E acabava com o silêncio, um gigante deitado entre nós.

De dia, o vizinho era polido. Palavras economizadas quando nos batíamos na fila do ônibus, na parada da padaria, a calçada dos passeios. Bons dias e boas tardes. A chuva, a manchete, o resultado do jogo. Pequenos acenos de diálogos já de despedida.

No semáforo, esperávamos a impaciência das pessoas do outro lado. Ele soluçou um sorriso apontando para a senhora de cabelos presos:

“Ela faz isso também em casa. Nas noites nubladas, estica o pescoço fora da janela, para forçar a chuva a se decidir. Torço para a tempestade”.

Era tudo que me concedia. Menos ainda aos outros.

Eu também não me agradava da intimidade forçada, esquivava da familiaridade dos vizinhos, da cumplicidade geográfica. Ocupava-me de suas vidas, mas detrás de meu esconderijo. Há ofensa na invasão não desvendada? Assim, também era o homem. Fora dos acessos noturnos, pouca era a nossa diferença, e eu me assustava.

À noite, nos encontrávamos, cada qual em sua janela. Ele não falava, não acenava. Apenas encarava, os olhos chumbados – um pedido de ajuda lançado com uma corda. Eu fingia não perceber, apressava uma saudação displicente e me recolhia com o cigarro pela metade.

E o homem permanecia lá, seu turno na ronda.

Uma hora, desistiu.

Foi encontrado dois dias após o colapso. No cérebro, uma artéria rompida. Um parente teria aprontado o velório sem convites. Os pertences foram levados e o apartamento, trancado, habitando o silêncio. Nas calçadas, falavam de um imóvel inquieto. Juravam pequenos barulhos, sussurros, fios de choro arrastado, e pediam missa. Eu me exasperava para dentro, diante dos idiotas. Irritava-me encherem de superstições os cômodos vazios. Agarravam-se ao destino do louco para preencher os seus, faziam mais barulho que os gritos do antigo vizinho.

Isso eu contestava, até segundos atrás, quando no sono veio o grito. Na borda da consciência, escuto a voz do louco, ventando.

“Eles estão olhando. Estão vendo”.

Acordo. Agora escuto vozes, como os idiotas gerais, reclamo. Deixo a cama irritado, busco o cigarro e meu posto de observação. Restos de sonho pelo caminho, chego à noite aberta.

O lagarto reclama mal-humorado, no entanto, me acompanha.

Entre a faísca do isqueiro e a primeira fumaça, o redor me puxa a atenção para a plateia.

Cada casa, cada apartamento, um espectador insone. Um parlamento mudo.

Observo-os enquanto o pulmão trabalha.

O cigarro reduz em poucas tragadas e eu acabo fixado aos vidros vedados em frente.

“A luz de um morto não se apaga nunca”, a frase vem antes ou depois de o facho se lançar através da janela do imóvel vazio?

A lanterna acende na sala, roda paredes e tetos, avançando sombras e desenhos, chegando ao quarto bem à frente e uma silhueta se aproxima da janela.

Separado de mim por oito metros de ar carregado, o louco da rua sorri.

Cogito me despedir com a mesma saudação, mas estou preso.

O lagarto guincha e contorce, e então percebo que não é com um sorriso que o homem me saúda.

Os lábios arregaçados mostram dentes entre bolhas e perdigotos. Os olhos espantados do homem projetam íris na noite. Surpreendo-me ao escutar nítida sua respiração: o fôlego asmático nos meus ouvidos e a alvura daqueles globos é tudo o que vejo.

Depois, o tempo me confunde, a respiração é a minha, o cenário branco se desfaz.

Vejo a moldura de minha própria janela, do outro lado do vão.

Nela, o homem que eu era me observa.

Larga o cigarro e dá as costas sem despedidas, sumindo no escuro.

Quero chamá-lo de volta. Contenho o grito, porque, só então, ouço o grunhido grave no fundo do quarto, atrás de mim.

Já arrependido, aponto a lanterna para iluminá-lo.

Diogo Monteiro nasceu em Recife-PE, em 1978. É jornalista, colaborou com entrevistas e reportagens para revistas de cultura e literatura como Cult, Continente Multicultural e Raízes. Teve contos publicados no livro-coletânea Tempo Bom (2010). Foi editor de Política da Folha de Pernambuco, editor-geral do portal de notícias LeiaJá e atuou como consultor da Unesco junto ao Ministério da Igualdade Racial. 

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Sobre o autor

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