Movimento Armorial: O folheto de cordel é fonte de inspiração

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Datas redondas são um dos ganchos mais usados no jornalismo para relembrar o passado. Por conta da efeméride dos 40 anos do Movimento Armorial, acabei fazendo essa matéria especial na tentativa de relembrar o que ocorreu naquele 18 de outubro de 1970, quando o escritor Ariano Suassuna lançou na Igreja de São Pedro o Movimento Armorial, e enxergar o legado deixado pelo movimento. Esta matéria integra o especial sobre os 40 anos do Movimento Armorial, que ainda conta com uma matéria e uma entrevista organizada em tópicos com o professor Carlos Newton Júnior, foi publicada no caderno Viver, do Diario de Pernambuco, no dia 17 de outubro de 2010.

O folheto de cordel é fonte de inspiração

No dia 18 de outubro de 1970, o Movimento Armorial foi lançado com a realização de uma exposição e um concerto da Orquestra Armorial na Igreja de São Pedro dos Clérigos. Com um panfleto impresso em papel ofício contendo o programa do evento, o escritor Ariano Suassuna começava a teorizar e a batizar uma poética que vinha sendo desenvolvida desde a década de 1950 e que buscava criar uma arte brasileira erudita a partir da cultura popular produzida no Nordeste.

Essa estética se mostrava presente nas peças cômicas Auto da Compadecida (1955), O casamento suspeitoso, O santo e a porca (ambas de 1957) e A farsa da boa preguiça (1960) de Suassuna e também foi identificada nos trabalhos de outros artistas da época. De forma declarada ou não ao armorial, eles tiveram em comum o interesse de pensar a identidade cultural do Nordeste a partir das manifestações populares.

Para abarcar as mais diversas áreas artísticas, o armorial pegou como síntese o folheto de cordel, usando os versos para o diálogo com a literatura, asrimas para a música, a declamação para o teatro e as gravuras para as artes plásticas. Num primeiro momento, esse campo é representado por Francisco Brennand e Gilvan Samico e depois é seguido por Romero de Andrade Lima e Dantas Suassuna.

“O que Ariano queria era recriar, reinventar a cultura popular do Sertão. É aí onde aparece o elemento mágico e o armorial se distancia do Regionalismo pela invenção”, aponta o escritor Raimundo Carrero, que integrou o movimento no início da carreira. Na literatura, além dele e de Suassuna, também são ligados ao movimento os escritores Ângelo Monteiro, Marcus Accioly, Janice Japiassu e Maximiano Campos. A adesão à estética armorial se deu de diferentes maneiras, enquanto uns seguiram pelos temas e pelas imagens sugeridas pelo movimento, outros optaram pela forma. “Usei as formas populares e não os temas, criei minha poesia em cima das estruturas do martelo agalopado, do mourão e da sextilha”, analisa Accioly.

Na música, o mesmo aconteceu com a inserção de instrumentos populares como a rabeca, a viola e os pífanos nas formações de orquestra para o desenvolvimento de uma música erudita nordestina. Assim, surgiram as orquestras Armorial e Romançal, o Quarteto Romançal e o Quinteto Armorial, do qual despontaram nomes como os de Antônio “Zoca” Madureira e Antônio Carlos Nóbrega.

Este último também é ligado à linguagem da dança, assim como o Grupo Grial, criado em 1997. “O interessante é que Ariano tem uma linha de pensamento, ele não dá uma receita como se deve fazer a arte armorial. Ele dá a coerência e você segue sua receita pessoal”, conta a coreógrafa Maria Paula Costa Rêgo, sobre a experiência de ter convivido com o escritor durante os sete meses de ensaios do primeiro espetáculo do Grial – A demanda do graal dançado.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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