Mudança, de novo

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Imagine você encarar quatro mudanças em menos de um ano. Para quem tem 35 anos, dos quais 34 foram no mesmo CEP, isso está mais para uma provação que vai além de empacotar coisas, carregar peso e dar uma de ninja tentando encaixar tudo o que você tem em caixas. No filme Peixe grande e suas histórias maravilhosas, de Tim Burton, há uma cena em que o tempo desacelera para que o personagem possa captar todas as nuances do momento em que vê pela primeira vez sua amada. O que de fato acontece, mas essa lentidão logo é compensada com a aceleração dos frames seguintes para reequilibrar o ritmo dos ponteiros do relógio. Acho que o destino percebeu que minha carga horária estava deficitária (em termos de mudança) e agora vem cobrando o atraso.

Nesse intensivo forçado, as lições práticas acabam tendo duplo aprendizado. Ao mesmo tempo em que você treina sua capacidade de encaixotar coisas, também adquire o compromisso de não acumulá-las. O que – para alguém envolvido com livros – não é fácil. Talvez isso tenha alguma relação com meu apego a tanto papel, considerando a quantidade de revistas, jornais, anotações feitas em pedaços de papel, rascunhos, contas, recibos, blocos de notas, extratos bancários, boletins de colégio e documentos antigos que guardei nesses 34 anos. Mas quando chega a hora de ir pra outra cidade, você finalmente entende a impossibilidade de se mover com tamanha tralha. A mudança então vira um exercício de desapego, um corte que você precisa fazer mesmo sabendo que esteja se desfazendo de uma parte de sua história, apagando rastros, eliminando a possibilidade de uma crítica genética.

Hoje, já forasteiro, percebo que essa é apenas uma etapa preparatória para o que vem depois. Numa outra cidade, você é impelido a se reescrever. Na distância de sua área de conforto, você precisa abdicar de vontades, adiar projetos, cancelar sonhos. Por mais que a tecnologia ajude (seja com indicações e endereços de supermercados, médicos e farmácias, ou diminuindo distâncias e saudades), você continua sozinho, longe de amigos e parentes. Somos obrigados a adquirir novos hábitos, construir amizades e se aventurar no desconhecido. Como uma aranha, vamos tecendo teias sobre uma nova cartografia, na esperança de costurar uma rede de proteção, traçar uma rotina através dos pontos de referência que te indicam o caminho de volta para o lugar em que você ainda reluta chamar de casa.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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