Mulheres em trânsito

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Em um dos tantos ônibus Rio Doce no leva e traz Olinda-Recife, eu estava às 23h30 rumo à rua da Aurora. O coletivo descia a Cruz Cabugá, avenida onde antes eu havia pegado o mesmo ônibus à esquina com a Av. Mário Melo, mais ou menos às 19h, sentido Olinda. Faz uns três meses que vendi meu carro e já estou habituada às voltas de bicicleta por aí – transporte que há alguns anos faz parte do meu dia a dia – mas nunca antes havia caminhado pela Av. Mário Melo à noite.  De bicicleta, mesmo à mercê dos riscos por carros cheios de si que insistem ratificar-se donos da rua, empurrando-nos para canteiros e calçadas, há em mim um maior sentimento de segurança pela habilidade que já tenho com o veículo com o qual me posso fazer ágil. A pé, corpo exposto, a sensação de vulnerabilidade se faz mais presente. Principalmente na hostilidade da Mário Melo, avenida que conheço desde os tempos da faculdade, com seus espaços vazios de pedestres e repletos de carros velozes. Ao sair de casa e me deparar com a avenida, tive que fazer a segunda escolha em prol da minha segurança, enquanto mulher, adulta, classe média, que transita em transportes públicos pela cidade: em qual das calçadas dessa avenida eu me sentiria menos desprotegida? A primeira escolha que tive que fazer, ainda em casa, foi como me apresentar esteticamente à rua para me amenizar possíveis assédios aos quais nós, mulheres, todas e todos os dias estamos submetidas. A primeira escolha foi por um casaco por sobre o vestido. A segunda, ir pelo canteiro meridional que divide as vias de ir e vir da avenida, espaço mais iluminado e com vista para ambos os lados. Esse espaço é arborizado e com uma ciclofaixa que só funciona aos domingos, das 7h as 16h. Pensei como seria se aquele canteiro no meio da Mário Melo tivesse calçadas mais largas, que proporcionassem maior trânsito de pessoas, e ciclovias permanentes, em lugar de ciclofaixas de lazer.

Quase agora, um pouco antes de começar a escrever, li um texto¹ sobre o dia internacional da mulher escrito pela jovem Aline Valek, colunista da Carta Capital. Nele, Valek fala sobre a representatividade deturpada desse dia, que teve sua origem em um movimento feminista operário e posteriormente foi tomado pela mídia como dia internacional da beleza e delicadeza da mulher feminina, ressaltando arquétipo da fragilidade doce e submissa, abafando o que deveria remeter a um dos nossos gritos de luta por igualdade de espaços marcado na história. Valek se manifesta também contra discursos que afirmam que nós, mulheres, já alcançamos tais espaços de igualdade, visto que ocupamos cargos em mercados de trabalho e outras instituições construídas aos moldes e práticas dos homens. Enquanto eu, mulher, tenho tolhida minha expressão estética e liberdade de trânsito por espaços públicos pelo fato de ser mulher, não consigo de forma alguma entender como alcançados tais níveis de igualdade.

Recentemente, passeando por redes sociais, me deparei com uma fanpage de mulheres contra os movimentos feministas e isso me pareceu de uma contradição tamanha, principalmente por suas participantes não constituírem, aparentemente, um grupo moralista religioso ou coisa que o valha. Elas se declaravam antifeministas e diziam lutar pelo direito de ser mulher feminina e com liberdade, como se necessariamente o movimento feminista defendesse uma mulher masculinizada que ocupa “espaços de homens”. Isso é uma deturpação total da luta feminista que, dentro de suas diversas vertentes – negritude, resistência indígena, sexualidades emergentes, mulheres populares, urbanas, rurais, feminismo antiimperialistas, antineoliberalistas, dentre outros – defende justamente o espaço da mulher enquanto mulher, nas suas particularidades e diversidades, na construção dos seus espaços e sua liberdade de ir, vir e ser. Ainda passeando por essa fanpage, vi vários cartazes qualificando de forma genérica movimentos feministas como feminazis, fazendo referência a práticas nazistas, como se o interesse feminista fosse liquidar a participação social do homem, quando, em verdade, os movimentos feministas lutam pela igualdade legítima de direitos, espaços e suas construções. Em artigo, um dos principais nomes do Geledés – Instituto da Mulher Negra – Sueli Carneiro aponta “Alcançar a igualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero. Esse é o sentido final dessa luta. […] Pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural, onde a diferença seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade.”² Ao ver o termo feminazi nesses cartazes, lembrei de grupos ditos feministas que, contraditoriamente, se apropriam do termo feminazi intitulando a si mesmas como tal. Já vi esse termo sendo usado por mulheres que fazem reprodução de conteúdos machistas ou outras confusões e é notória a desinformação sobre o que vem a ser os movimentos feministas e os arquétipos deturpados que são inventados para miná-los. Uma vez me falaram uma frase que tem me norteado enquanto compreensão do que vem a ser feminismo e como atua: Feminismo é a ideia radical que mulheres são gente. Todo esse contexto me motivou no relato que sigo aqui.

Faz poucas semana conheci uma arquiteta nicaraguense que está residindo em Recife em função de mestrado sendo desenvolvido pela UFPE sobre mobilidade e gênero no departamento de arquitetura. Enquanto ela me contava sobre o seu projeto, eu lhe fazia um paralelo com as escolhas que eu, mulher, precisava fazer diariamente nos meus trajetos pela cidade e ela me abriu os olhos para outros grupos sociais de mulheres e suas problemáticas sobre essa mesma questão. Para o projeto, ela entrevistou mulheres de diferentes países sobre questões de mobilidade urbana. Amanda Martinez começou o projeto analisando essas questões com referência em sua própria realidade, que é muito parecida com a minha: mulher, jovem adulta, branca, graduada, classe média, que utiliza transporte público como principal meio de locomoção no espaço urbano. No decorrer das entrevistas, as problemáticas se ampliaram ao somar as questões de mobilidade e gênero com classe social, com questões raciais, com tipos físicos, com as questões de gendrificação, dentre outros contextos. A mestranda me explicou que a maneira como uma mulher se locomove pela cidade é completamente diferente de como homens se locomovem, pelos papéis sociais que assumem. Enquanto um homem costuma realizar um trajeto linear casa-trabalho, a mulher desenvolve trajetos mais orgânicos e complexos casa-trabalho-médico-supermercado-creche-escola-parque. Isso se dá em função de atividades que lhe são atribuídas para além do trabalho formal, com a manutenção diária da casa (cuidados com higiene, alimentação e aparência), com o cuidado das crianças (ir e vir de escola, creche, médico e opções de lazer) e cuidados com elas mesmas (cabelereiro, manicure, depilação, costureira, academia, médico, lojas, espaços de lazer…). Ao vivermos num mundo aos moldes e práticas dos homens, também os transportes públicos são pensados para atender essa demanda linear casa-trabalho, não vislumbrando outras demandas. No recorte de pesquisa no qual se encontra agora, ela entrevista mulheres moradoras da comunidade do Coque, em sua maioria baixo poder aquisitivo, baixo nível de escolaridade, que habitam uma área que não recebe a devida atenção do poder público e com recorrentes ameaças de gendrificação pela especulação imobiliária da cidade, espaço onde não passa ônibus e táxis se recusam entrar. Além de se deslocar para o trabalho, uma vez por semana, ela também vai ao centro da cidade. Quando perguntada sobre o meio de transporte utilizado para fazer o itinerário, às gargalhadas, responde: “Caminhando! Pelo preço da passagem”. Leva duas horas para ir ao banco, lojas, supermercado, e a locais de conserto de roupas, eletrodomésticos ou outros utensílios.” Transcrição do relato de Irece em artigo pela mestranda na Revista Continente, em 2013³. Amanda me contou da importância que era, para ela, realizar essa pesquisa dentro do departamento de arquitetura, onde as discussões costumam direcionar energia para os âmbitos estéticos e funcionais e há poucos projetos voltados à compreensão da formação do espaço público para, só então daí derivar as outras dimensões projetuais de arquitetura e urbanismo, principalmente quanto a questão de gênero.

Em meados do ano passado fui convidada pelo S.O.S. Corpo, organização feminista sediada no Recife, para fazer o projeto gráfico de quatro folders sobre questões da luta feminista. Eram eles: mulheres e paridade política, mulheres e cidade, mulheres e violência, mulheres e direito a creche. Fiquei extremamente feliz com o convite por meu envolvimento com essas questões e minha busca diária na ocupação desses espaços. Mas, assim como nos embates sobre mobilidade e gênero que foram ampliados para além da minha perspectiva socioeconômica quando debatidas com a mestranda nicaraguense, a amplitude das questões sobre essas outras vertentes de lutas por nós, mulheres, também foi engrandecida nas idas e vindas das escolhas gráficas que representassem tais questões. Ao desenvolver os folders pude perceber que estamos tão envolvidas em uma malha simbólica dentro da nossa condição social, cultural e de gênero, em práticas opressoras rotineiras, que somos impedidas de enxergar a complexidade desses temas sobre o lugar que ocupamos, o que nos é de direito e pelo qual lutamos.

Na volta de Olinda para o centro de Recife, no mesmo ônibus Rio Doce, as 23h30 da noite, observando a paisagem urbana de publicidades que usam a imagem de nós, mulheres, para vender de carro a sapato, objetificando-nos ao explorarem atrativos da nosso corpo enquanto sexualidade, ou das poucas mulheres que ainda transitavam pela rua, agarradas a suas bolsas, caminhando a passos rápidos, em meio a homens que também transitavam, perguntei ao cobrador qual seria o ponto mais tranquilo para eu descer, visto o trecho da Aurora ao qual me dirigia. Ele me falou que o lugar mais seguro é a Igreja Evangélica, que fica à esquina da Cabugá com a Mário Melo, bem próximo de onde peguei o ônibus para ir a Olinda. Lembrei dos outdoors com propagandas fundamentalistas ao longo da Mário Melo por onde caminhei mais cedo e de todo o sistema opressor propagado por certas igrejas com suas bandeiras morais, além de sua crescente representatividade política criando barreiras não só às conquistas de nós, mulheres, mas a vários outros segmentos sociais. Deixo claro que aqui não falo de fé, de crença em Deus ou em Cristo, ou mesmo genericamente de grupos que se encontram para estudar ou ler sobre esses temas, de forma alguma. Falo sim de manipulação e opressão moral e, em certos casos, extorsão, camuflados num discurso divino. E me pareceu bastante contraditório ser aquele o local mais seguro onde eu poderia descer. Um pouco antes de alcançarmos a igreja, o ônibus parou em um sinal de trânsito onde vendedores ambulantes desfaziam suas barracas de comida e outros produtos, próximo à rua do Lima. Pedi ao cobrador para descer ali. Segui rua do Lima sentido Aurora, buscando sempre os espaços mais iluminados, juntamente a uma mulher e um homem que, assim como eu, pareciam unidos por manter-se seguros em um mesmo trajeto. Em uma das mais representativas publicações sobre a situação da mulher, o livro O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir afirma que quando um indivíduo é mantido em situação de inferioridade, ele passa a se sentir inferior. Nesse contexto histórico de séculos de opressão e culto à fragilidade feminina, não é a toda a tensão que nos permeia e é preciso vigilância e coragem para manter-se firme ao dar seguimento à caminhada. Já no fim da rua do Lima, bem perto da rua da Aurora, encontrei duas militantes feministas que conheci nos últimos anos morando aqui em Recife. Elas, como eu, também ocupavam um espaço que é público e, portanto, nosso, no qual deveríamos transitar tranquilas: a rua. Elas, felizes, vieram falar comigo e me deram um abraço. Senti gratidão por mulheres como elas existirem.

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[author_info]Nathalia Queiroz é publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.
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[1] http://www.cartacapital.com.br/blogs/escritorio-feminista/nao-ha-raiva-que-cale-nossa-voz-1392.html?utm_content=buffereb256&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

[2] http://www.unifem.org.br/sites/700/710/00000690.pdf

[3] http://www.revistacontinente.com.br/index.php/component/content/article/502-artigo/8350-construcao-social-da-segregacao.html

[4] http://brasil.indymedia.org/media/2008/01/409660.pdf

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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