Na livraria

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Na livraria, aquele pingo de gente. Saio por ali gravitando em torno dos livros expostos e dou de cara com a nova tradução, aliás a primeira vertida diretamente do russo, por Boris Schnaiderman, da Morte de Ivan Ilich. Peguei o livro e o visor ótico me deu outra boa notícia, não é caro; apenas 24 reais.

A livraria mantém um café no primeiro andar, com o livro debaixo do braço subo os oito degraus e me sento numa mesinha, a mesma de todas as vezes que vou ali. O rapaz já me conhece, também sabe de minhas posses, e de longe me faz um gesto, a mão estendida e dois dedos medindo a insignificância de meu pedido: um expresso, sem grãos selecionados nem os bolinhos de goma.

Faz um ano que aceitei o emprego naquela cidade, ainda estou me acostumando ao seu ritmo, a família ficou no interior e a não ser quando estou na escola, na maioria do tempo não falo com ninguém, almoço em self service onde ruidosos grupos, na hora e meia de intervalo do batente, conversam ao mesmo tempo em que mastigam. Ainda não fiz amigos. Há um professor que vive marcando de me mostrar igrejas barrocas, ele é bem intencionado, dá pra ver nos olhos, mas o tempo é escasso e ele está sempre correndo. É preciso ir de uma escola para a outra, diz. Tem três filhos e um deles precisa de cuidados especiais. Todas as segundas-feiras eu noto seu constrangimento quando me cumprimenta de manha.

Não é muito o ganho, descontados os gastos, restam uns tostões que mando para a esposa, essa dificuldade também me impossibilita viajar toda semana, de modo que foi preciso restringir as idas para casa só no final do mês. Na última vez ela estava amuada, acha que não quero leva-la comigo. Ela e os meninos. Acha que é fácil viver aqui, sonha com a praia.

Quando o café chega, eu já tenho lido a primeira página. Uns juízes sabem da morte de um colega e cada um se põe a imaginar o quinhão que lhes cabe. É um livro sobre a vida e sua insignificância, é um tratado da mesquinharia humana. Enquanto tomo meu café me lembro do Milan Kundera, foi ele quem disse que aquilo que melhor nos representa, a nós seres humanos, é a insignificância. Acho que isso devia mexer com a fé de Tolstoi.

Numa mesa ao meu lado uma senhora conversa com uma jovem, e a não ser a gente e o rapaz que serve as mesas, o café está quase deserto.

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[author_info]Nivaldo Tenório

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O autor: Nivaldo Tenório publicou A Grande Torre (2002) e Dias de febre na cabeça, pela u-Carbureto, com segunda edição pela Confraria do Vento, a ser lançada este ano.

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