Não há ninguém aqui

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Não havia cores do Brasil, nem nada parecido: o protesto dele com certeza não era uma antecipação do Sete de Setembro. Há quantas horas ele estava em pé, postado entre a entrada do metrô Consolação e a agência do Banco do Brasil, segurando um cartaz nas mãos?

“Fora intervenção do Governo! Plena liberdade econômica já!”

As palavras foram escritas na cartolina em letra de forma, creio que com algum tipo de giz de cera. Devia ter por volta dos trinta anos. Pele morena, nariz arredondado, cabelo curto, as laterais da nuca raspadas à máquina. Não tentou abordar ninguém, nem pedia doações para sua causa. Não estava ali para conversar, embora também não parecesse antipático. Volta e meia, mexia um pouco o corpo, desconheço se por cansaço de estar em uma mesma posição, ou porque ajeitava a própria postura a fim de que o cartaz pudesse ser visto melhor. Seu rosto não tinha o senso de dever dos cavaleiros medievais. Também não transmitia qualquer forma de sofrimento, ou ansiedade. Não havia o estado febril dos Olavos de Carvalho, nem o conservadorismo gourmetizado dos João Pereira Coutinhos e Pondés. No meu ranço esquerdista, claro que procurei uma explicação. Um protesto fora agendado? Naquela data, se comemorava algo? Temos falado na saída do amário da direita, ou da ascensão de um jovem liberalismo (não estou convencido de que os dois fenômenos são exatamente sinônimos; isso, contudo, fica para outra conversa), mas ninguém na Paulista, embora com certeza muitas pessoas passando por ali concordassem com sua mensagem, sinalizou qualquer gesto de apoio. Por outro lado, nem seus possíveis adversários políticos o requisitaram. Nada disso o abalava. Simplesmente se deixava estar, porque, quer eu quisesse, ou não, a rua também lhe pertencia.

Passos adiante, me encontro na esquina da Augusta com a Paulista. O sinal para pedestres estava vermelho, mas não havia nenhum carro à vista e muitas pessoas, dos dois lados das calçadas, atravessaram. Entra um carro preto, desses grandes, de pneus enormes; os pedestres hesitam, mas a mulher que o dirigia, uma dama loira, óculos escuros, fez um gesto de Paz e Fraternidade Entre os Povos, diminuindo aos poucos, até parar, a velocidade do veículo. Seu carro agora se localizava em uma zona temporária entre o fluxo da Paulista e a faixa de pedestres da Augusta. Enquanto todo mundo atravessava, um ônibus passou de raspão na traseira do carro. O que ela fez? Inclinou o corpo, colocou um cigarro na boca e abaixou o vidro. Acendeu-o, degustou o primeiro trago e lançou a fumaça para fora. Observava, sem aborrecimento, as pessoas caminharem na sua frente. Acho que lhe fez bem aquela breve trégua.

 *

À noite, ligaram para minha casa. Exausto por conta das aulas e daquela caminhada, demorei a atender o telefone, que tinha me acordado do cochilo. Ao meu lado, na cama, um livro aberto, as páginas amassadas – vítima do meu sono duro, sono de nocaute.

Ouvi:

– Alô. Gostaria de falar com a Renata.

– É engano. – Respondi.

E após um breve intervalo, ainda confuso, completei:

– Não tem ninguém aqui.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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