Não understanding Othello

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Ano passado estive na Inglaterra, onde fiquei uns quinze dias participando de dois eventos literários. Uma das melhores lembranças daquela viagem foi não ter conseguido entender Shakespeare. A ironia se torna maior pelo fato de que um dos eventos do qual fiz parte consistiu em, a convite do Centro Britânico de Tradução Literária, na University of East Anglia, ter participado como escritor residente de uma oficina de tradução.

Em Londres, ganhei de presente um convite para assistir a uma então nova e celebrada montagem de Othello, dirigida por Nicholas Hytner e encenada pelo respeitado National Theatre, belo teatro localizado à beira do rio Tâmisa. A expectativa era alta, até porque meu maior contato com as obras de Shakespeare aconteceu não no teatro, mas nos cinemas. Dois filmes? O Hamlet de Olivier (a imagem: Hamlet sentado em uma cadeira de diretor de cinema, em meio à escuridão) e uma adaptação de Ricardo III estrelada por Ian Mckellen (na qual a peça é adaptada para uma espécie de período histórico alternativo, em que a Inglaterra é um Estado fascista aos moldes do nazista).

Meu desencontro com Othello começou antes do espetáculo começar. Conversando com Daniel Han, o responsável pela minha passagem pela Inglaterra, e o seu amigo, também britânico, que nos acompanharia na peça, meu inglês tropical insistia em falar a palavra “Othello” de uma maneira que soou parecida com “Ofélia”. Daí, ficamos especulando a respeito da possibilidade de existir um musical da Broadway baseado em Hamlet, mas cujo título seria justo Ofélia – talvez algo meio Mary Poppins.

O espetáculo transpõe a peça para uma ambientação atual. Boa parte da ação se passa em um bunker no qual os atores usam um fardamento militar contemporâneo. A primeira cena aconteceu na frente de um típico pub londrino – Iago e Roderigo conversam e conspiram. Eu conhecia o texto tanto no original, quanto em algumas traduções. Previa dificuldades, pois não sou plenamente proficiente no inglês, mas julgava, antes do espetáculo começar, que conseguiria me virar bem no contexto geral. Passados poucos segundos, fui tomado pela perplexidade. Me inclinei, dobrei e desdobrei as pernas, retirei e recoloquei meus óculos umas cincos vezes, enquanto palavras atrás de palavras foram ditas pelos atores, sem que eu conseguisse fazer parte delas. Não conseguia entender aquilo que já conhecia. “O que estou fazendo aqui”, pensei. Ou melhor: “o que vou fazer aqui nas próximas… Três horas?!”. A qualidade dos atores logo se sobressaiu, assim como todo o cuidado com o figurino e os cenários (engenhosamente projetados para se recomporem após cada cena). Os dois principais,  Adrian Lester e Rory Kinnear, interpretavam Othello e Iago com muito brilho. Dessa maneira, a encenação se transformou em uma espécie de cinema mudo-sonoro, no qual tudo que se pode ouvir ou ler se torna ininteligível. Mas aos poucos fui entendendo frases, palavras-chave, e principalmente o corpo dos atores. Acho que a necessidade substituiu uma gramática por outra.

Duas cenas com Iago, aliás, se repetem na minha cabeça. A primeira, logo no começo, é uma reunião de autoridades. Um dos tópicos de discussão é o casamento recente entre o Mouro e Desdêmona. Iago está em pé, quase encostado a uma parede, de cabeça baixa e silente. As pessoas importantes parecem ser as outras, mas isso é só uma ilusão, porque será Iago o grande motor da peça e o articulador das intrigas. A segunda imagem é a cena final, a longa olhada, quase obscena, que Iago lança sobre a cama onde repousam os corpos mortos de sua esposa, de Othello e de Desdêmona. Há outra bela cena, na qual o corpo e as palavras de Othello como que se multiplicam sobre o corpo dormente de Desdêmona, cobrindo sua pele com uma presença mórbida. Mais uma vez, me pergunto: qual peça eu teria assistido se a tivesse ouvido propriamente? Como talvez tenha escrito T.S. Eliot, tanto aquilo que poderia ter sido, quanto aquilo que foi, convergem na direção do único lugar possível, o agora a partir do qual termino esse parágrafo. Isso vale tanto para os erros e acertos daqueles personagens, quanto para a pequena, miúda, vida que carrego nessas três décadas. De qualquer maneira, para mim não existe outro Othello além daquele cuja vida foi comigo compartilhada há mais de um ano, à beira de um rio hoje distante, um rio sobre o qual pouco compreendo.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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