Narrativa transmídia na Marvel

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Antes de 2006, permanecer na sala de marvel-poster_2cinema até o término dos créditos finais do filme era uma coisa de gente cabeça. Até então, a razão era incerta, talvez fosse pra marcar território e , aproveitar o restinho de tempo no friozinho da sala escura ou pra descobrir o nome de uma música. O fato é que a persistência passou a ser recompensada com um bônus depois do filme X-Men: O Confronto Final. A partir de então, os filmes da Marvel passaram a trazer pequenas cenas que já davam uma deixa do que estaria por vir nas próximas sequências.

Claro, as cenas pós-créditos não chegam a ser uma invenção da Marvel. Lembro que na infância, nos anos 1980, ficava um pouco mais na sala de cinema pra assistir aos erros de gravações nos filmes d’Os Trapalhões. E, segundo o Wikipedia, ao que parece o recurso tem sua origem lá em 1963, quando no filme Moscou contra 007, apareceu no fim dos créditos os dizeres “James Bond will return in…”.

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Ferris Bueller: “Você continua aqui? Acabou, vá pra casa, vá”

Como cena visual, ainda segundo o Wikipedia, o recurso surgiu no filme Muppets: o filme de 1979, com os personagens quebrando a “quarta parede” na tentativa de se dirigir diretamente à plateia. A estratégia voltou a se repetir em outros filmes de comédia e o público brasileiro deve se lembrar de Curtindo a vida adoidado, quando o personagem Ferris Bueller (interpretado por Matthew Broderick) aparece de roupão com espanto e diz “Você continua aqui? Acabou, vá pra casa, vá”.

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Cena do pós-crédito do filme Demolidor

Nem na própria Marvel o recurso era novidade. Já em 2003, no filme Demolidor – o homem sem medo, é possível  assistir a cena do Mercenário numa cama de hospital espetando com uma seringa a mosca que lhe incomodava. Mas o fato é que a cena pós-crédito de X-Men: O confronto final, com o professor Charles Xavier é tão forte que virou um marco. Mais do que isso, esperar a cena final nos filmes da Marvel virou um símbolo de diferenciação entre meros comedores de pipocas e os devotos, ficar até depois dos créditos passou a dar uma sensação de pertencimento parecida com a aura das sessões de pré-estreia.

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No fim de Homem-de-Ferro, Nick Fury aparece para falar da iniciativa Vingadores.

E foram esses nerds persistentes que primeiro perceberam a mudança de rumo dos filmes da Marvel na cena final do primeiro Homem-de-Ferro. A presença de um ator do porte de Samuel L. Jackson como Nick Fury, numa cena de 35 segundos, indicava que algo maior estava por vir. A partir de então, os filmes dos super-heróis deixavam de ser trabalhados como universos isolados (como eram e ainda são as franquias Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e X-Men, apesar de todos habitarem na mesma Nova Iorque) e passavam a ser trabalhados numa perspectiva conjunta. Embora os títulos foquem apenas em um super-herói, as franquias Homem-de-Ferro e Hulk se somaram às do Thor e Capitão América (que logo estreariam) na construção de um bem comum chamado Os Vingadores, no caminho inverso dos filmes X-Men, que partiram do todo para só depois individualizar as histórias com os dois filmes de Wolverine.

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Cena pós-crédito de Homem-de-Ferro 2 anuncia a chegada de Thor

Se no primeiro Homem-de-Ferro (2008) a presença de Nick Furry na cena pós-crédito já aponta para a formação d’Os Vingadores (2012) e a aparição de Tony Stark depois dos letreiros de O Incrível Hulk (2008) toca no soro de supersoldado e retoma a ideia da Iniciativa Vingadores, em Homem-de-Ferro 2 (2010) o agente Coulson da SHIELD dá a deixa para a chegada de Thor no ano seguinte. Que, por sua vez, indica no pós-crédito tanto a fonte do conflito que sustenta a trama d’Os Vingadores (no caso, o interesse de Loki pela energia do tesseract) como abre uma conexão para a estreia, três meses depois, do Capitão América: O Primeiro Vingador, que contextualizaria a aparição do tesseract.

marvel-Os-VingadoresA estratégia, claro, tem uma proposta de fidelização, fazendo com que o público do Homem-de-Ferro também vá assistir ao filme do Hulk e que o deste assista ao do Thor, do Capitão América e d’Os Vingadores. Traduzindo em números, de acordo com o IMDB, em ordem cronológica de lançamento os filmes da Marvel arrecadaram US$ 585 milhões no primeiro Homem-de-Ferro (2008), 263 milhões com O Incrível Hulk (2008), 623 milhões com Homem-de-Ferro 2 (2010), 449 milhões com Thor (2011), 368 milhões com Capitão América: O primeiro Vingador (2011) e 1,511 bilhão de dólares com Os Vingadores (2012).

Embora haja uma oscilação na renda, até por conta da variação na qualidade dos filmes, o salto na arrecadação d’Os Vingadores (com quase 300 milhões a mais do que o dobro da maior renda individualmente alcançada pelos filmes anteriores) mostra a eficiência da estratégia de se pensar o universo fílmico da Marvel em conjunto, fazendo com que um filme acabe divulgando o próximo. É de se considerar ainda o efeito retrocedente, em que o público que adentrou nesse universo através d’Os Vingadores muito provavelmente ficará tentado a descobrir o que ocorreu antes, gerando novo interesse a filmes que já estavam na sombra.

Do ponto de vista narrativo, é desafiador pensar em como os filmes estão sendo construídos de forma independente e, ao mesmo tempo, como parte de um mosaico muito maior, que envolve até o momento cinco franquias cinematográficas milionárias. A estrutura adotada é semelhante ao dos seriados de televisão, onde cada capítulo é trabalhado como uma história com começo, meio e fim, mas dentro de uma lógica de sequência de fatos que vai se desenvolvendo ao longo da temporada, fazendo com que a trama ande, num processo contínuo de responder a perguntas feitas em episódios anteriores e lançar novas dúvidas para serem esclarecidas nos próximos capítulos.

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O tesseract aparece no primeiro Capitão América

Alinhar esse projeto, no entanto, não é fácil, às vezes exige ajustes e sacrifícios. Até Homem-de-Ferro 2, as ligações ocorriam basicamente através das cenas pós-crédito, enquanto o filme se concentrava em contar uma história individual de Tony Stark, sem grandes consequências para o andamento das outras peças do projeto. No entanto, para acentuar a conexão entre os filmes, foi necessário uma mudança de postura que pode ser vista a partir dos primeiros filmes de Thor e Capitão América, que passaram a inserir elementos importantes para a trama d’Os Vingadores, como Loki e o tesseract. Embora Capitão América: O Primeiro Vingador funcione como filme independente, a mudança parece ter comprometido a estreia de Thor. E essa qualidade inferior parece estar relacionada com o fato dele ter sido trabalhado menos como um filme do que como um etapa preparatória para Os Vingadores. Mas observando o mosaico como um todo e as boas sequências do Capitão América e Thor, o projeto de narrativa que está sendo construída parece ter se alinhado e tomado um rumo coerente.

marvel-iron-man-3Ao elevar esse grau vinculação entre os filmes, aumenta-se também a dependência entre eles. Num seriado, onde a dependência entre os capítulos tende a ser maior, ela vem sendo facilmente resolvida com o previously, um resumão de cenas passadas que serão importantes para o entendimento do novo episódio. Nos filmes da Marvel a ferramenta usada é mais sutil. Em vez da anexação de um prólogo, as informações necessárias aparecem dentro da própria narrativa, geralmente na forma de digressões. Em Homem-de-Ferro 3, por exemplo, o link com Os Vingadores é feito através das cenas da batalha de Nova Iorque, que surgem nos pesadelos pós-traumáticos de Tony Stark. Esse retorno, no caso, não é uma simples menção, mas uma informação importante para a própria história, o medo de Stark é um fator que move o filme.

Mas esse recurso é limitado, não pode ser aplicado em todas as ligações com os filmes anteriores porque colocaria o andamento da narrativa em risco, tornando lento um filme de ação. Assim, muitas informações acabam sendo inseridas, mas a grande maioria do público não consegue absorver. Contudo, essa perda não chega a comprometer o entendimento do filme. Quem não percebe, segue em frente. Quem capta, percebe o piscar de olhos do autor e sente-se mais envolvido com o filme, gera uma relação de cumplicidade semelhante à confidência de segredos. O escritor italiano Umberto Eco chama isso de double coding, o que em tradução livre para o português seria dupla significação. É algo que acrescenta, mas não bifurca o rumo da obra como faz a ironia. Nela, quem não entende vira parte da piada e quem entende ri da piada.

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Tocha Humana aparece como detalhe em Capitão América

Entender isso é fundamental para pensar como funciona o projeto da Marvel. Num universo tão vasto de histórias e personagens como esse, é natural que haja diferentes níveis de leitores. Os que já acompanham os heróis da Marvel pelos quadrinhos, claro, têm uma vantagem sobre os outros. Ele consegue enxergar detalhes como a câmara de ar em que o Tocha Humana foi apresentado aparece no primeiro Capitão América e sua leitura dos filmes tem grandes chances de ser levada a comparações com as histórias em quadrinhos, localizando a origem de tais tramas, observando semelhanças e diferenças, num processo de análise metalinguística sobre as decisões de escolha do diretor e dos roteiristas na construção do próprio filme.

Mas até aí nenhuma novidade. Adaptações de narrativas para outro tipo de mídia é um recurso pra lá de utilizado na indústria de entretenimento. Livros viram filmes, tornam-se musicais, peças de teatro, histórias em quadrinhos, jogos de vídeo games. A diferença é que a Marvel passou a trabalhar seus produtos dentro de uma lógica transmídia. Ao invés de ficar replicando suas histórias nos diferentes meios, ela passou a somá-los na intenção de desenvolver uma narrativa em comum. Esse tipo de narrativa transmídia que a Marvel vem desenvolvendo aqui também não chega a ser novo, mas é um exemplo raro, que agora vem se somar a experiências como a de Star Wars, Matrix e do seriado Heroes. No livro Cultura da Convergência (Aleph, 2009), Henry Jenkins aponta que:

marvel-cultura-convergencia“Uma história transmídia desenrola-se através de múltiplas plataformas de mídia, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo. Na forma ideal de narrativa transmídia, cada meio faz o que faz de melhor – a fim de que uma história possa ser introduzida num filme, ser expandida pela televisão, romances e quadrinhos; seu universo possa ser explorado em games ou experimentado como atração de um parque de diversões. Cada acesso à franquia deve ser autônomo, para que não seja necessário ver o filme para gostar do game, e vice-versa. Cada produto determinado é um ponto de acesso à franquia como um todo. A compreensão obtida por meio de diversas mídias sustenta uma profundidade de experiência que motiva mais consumo. A redundância acaba com o interesse do fã e provoca o fracasso da franquia. Oferecer novos níveis de revelação e experiência renova a franquia e sustenta a fidelidade do consumidor.”, (p. 138).

Em maior ou menor grau, é isso o que a Marvel tem feito com, além das cinco franquias de filmes milionários, as histórias em quadrinhos, games, desenhos animados e a série de televisão Agents of SHIELD, exibida aqui no Brasil pelo canal Sony. Embora a maioria não seja diretamente ligada à narrativa, digamos principal, que vem sendo construída no cinema, ela colabora para a manutenção da marca em períodos de entressafra de filmes, permite um aprofundamento no universo dos heróis e vilões e aproveita esse canal direto com um público já fiel para criar expectativas e divulgar lançamentos futuros da Marvel.

marvel-thing_ffCriado para Facebook em março de 2012, o game Marvels Avengers Alliance, junto com sua variante Marvels Avengers Alliance: Tatics (lançada em junho de 2014), atua nesse projeto. Com uma história própria, que envolve a chegada de uma nova fonte de poderes na Terra, o game compartilha os mesmos personagens, ajuda no processo de conhecimento dos jogadores em relação aos poderes de cada personagem, mas se mantém autônoma. Além disso, o vínculo também se estabelece com chegada de novos eventos no Universo Marvel. Com a estreia do filme Os Vingadores e do lançamento da equipe Fundação Futuro nos quadrinhos, os jogos terminaram por divulgá-los, chamando atenção para eles através de missões especiais ou com a oferta de novos uniformes e equipamentos para os heróis. Assim, por conta d’Os Vingadores, os jogadores que tinham a Viúva Negra e o Gavião Arqueiro na equipe puderam adquirir os uniformes que eles usavam no filme. E do mesmo jeito trajes brancos da Fundação Futuro ficaram disponíveis para personagens como o Homem-Aranha, Sr. Fantástico e a Mulher Invisível e o Coisa.

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A equipe do agente Phil Coulson

Já o caso do seriado Agents of SHIELD é bem diferente. Aqui sim, de fato existe uma preocupação em complementar o narrativa principal. Com estreia em setembro de 2013, a série pega carona nos filmes da Marvel, contextualiza elementos e desenvolve fiapos deixados em obras como Os Vingadores, Thor: O Mundo Sombrio (2013) e Capitão América: O Soldado Invernal (2014). A história tem início nos escombros da batalha de Nova Iorque travada contra Loki e a invasão alienígena. O seriado é conduzido pelo agente Phil Coulson, que havia sido morto por Loki n’Os Vingadores. Sua ressurreição é um mistério que será perseguido ao longo da primeira temporada, enquanto ele desfruta as regalias de herói que conheceu a morte em missão.

Assim, ele tem a liberdade de montar sua própria equipe na SHIELD (formada pelos jovens cientistas Leo Fitz e Jemma Simmons, pela piloto Melinda May, pela hacker Skye e pelo agente Ward) e investigar casos estranhos e potencialmente perigosos ao redor do mundo. Nessa mistura do Universo Marvel com o clima do seriado Heroes (no sentido da descoberta de novos poderes, mistério e conspirações), Agents of SHIELD liga diversos pontos que há entre os filmes, dando uma unidade ainda maior ao conjunto Vingadores. Embora possua seus próprios mistérios e conflitos a serem resolvidos, aqui e ali o seriado entra em zonas de interseção com os filmes – pela narrativa e pelas participações especiais de Samuel L. Jackson (Nick Fury), Cobie Smulders (Maria Hill) e Jaimie Alexander (Lady Sif).

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Participação especial de Lady Sif no seriado Agents of SHIELD

Além de todo o gancho inicial que envolve a morte de Coulson, a relação com Os Vingadores se intensifica no sexto episódio, quando corpos de pessoas mortas são encontrados flutuando e a causa tem a ver com um capacete Chiaturi, guardado como relíquia na tentativa de invasão alienígena à Nova Iorque. Com a estreia de Thor: O Mundo Sombrio em novembro de 2013, o seriado já começa a se aproximar do núcleo asgardiano da Marvel. No episódio The Well, exibido em 19 de novembro de 2013, a equipe do agente Coulson vai a Londres investigar os destroços deixados pela luta de Thor contra o elfo negro Malekith. Em março, no 15º capítulo, entra em cena a asgardiana Lady Sif, que vem à Terra ajudar a equipe na captura de sua conterrânea Lorelei. A partir de abril, mesmo mês de estreia de Capitão América: O Soldado Invernal, a trama do seriado já entra num ritmo de conspirações que eclodiria no filme, com a revelação de infiltrados da Hidra na SHIELD.

Nenhuma das informações propagadas pelo seriado ou pelos filmes é necessária para a compreensão deles individualmente, mas, como já disse antes, elas reforçam a narrativa, jogam novas luzes sobre detalhes, contextualizam certos elementos e dão mais subsídios ao público mais devoto. Quem vai ao cinema para comer pipoca, encontra um bom filme com cenas de ação. E quem vai assistir ao filme para complementar seu conhecimento, encontrará um bom quebra-cabeça para montar. Agora é esperar as cenas do pós-crédito para ver em que isso vai dar. As cenas pós-crédito de Homem-de-Ferro 3 e das sequências de Thor e Capitão América já apontam para uma nova aventura d’Os Vingadores, com a participação do vilão Thanos e dos gêmeos Wanda, mais conhecida como a Feiticeira Escarlate, e Pietro, o Mercúrio. A presença de Mercúrio, inclusive, pode significar uma nova junção do universo cinematográfico da Marvel, já que o personagem também foi apresentado em X-Men: dias de um futuro esquecido.

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Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Sua pesquisa foi sobre a relação entre literatura e internet no Brasil. [/author_info] [/author]

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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