Nas entrelinhas da História

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Quando um estudante presta vestibular, ele antes precisa decidir seu futuro já no preenchimento do formulário de inscrição. Entre as várias opções, ele poderá escolher o curso de Letras ou História. Já com a cabeça raspada, o estudante perceberá que os centímetros que separavam os cursos no formulário se transformam em paredes na universidade, cada um isolado em seus respectivos departamentos. Mas a divisão que hoje se apresenta de maneira concreta, tinha suas fronteiras borradas no passado.

Apesar da Grécia Antiga já fazer a distinção entre a criação ficcional e o discurso mimético, o teórico Luiz Costa Lima mostra, no artigo História e Literatura, que uma névoa ainda confundia os leitores no começo do século XVI. A invenção e a imaginação conviviam ao lado dos fatos verídicos nos relatos de viagem, passavam por verdade de acordo com a capacidade retórica do autor em construir uma narrativa coerente.

Porém, com o início das grandes navegações, um parâmetro foi criado, elevando a resistência dos leitores, cujas crenças deixaram de ser tão suscetíveis à fantasia. Aos poucos, o incômodo dos leitores foi levando os viajantes e cientistas a diferenciarem seus trabalhos, levando-os a romper com a escrita alegórica em busca de uma linguagem mais verossímil, dotada de maior credibilidade. Deu-se então a bifurcação: literatura de um lado, História do outro. Gradativamente ao longo dos últimos quatro séculos, elas se distanciaram de tal forma que hoje as encontramos entrincheiradas em suas respectivas estantes nas livrarias e bibliotecas.

No entanto, a solidez dessas fronteiras se revela frágil quando abrimos os livros. Do lado historiográfico, a corrente da Nova História e os teóricos pós-modernos passaram a relativizar o acesso à verdade por ser fruto de construções discursivas e sujeitas a escolhas individuais. Já a literatura mergulha na subjetividade do eu e sua relação com o terreno do real ganha novos tons com a criação do romance histórico. De acordo com o teórico húngaro Georg Lukács, as mudanças ocorridas na sociedade europeia durante o período romântico permitiram o surgimento dessa nova variante, cuja criação é atribuída ao escocês Walter Scott, autor de obras como Waverley (1814), Rob Roy (1819) e Ivanhoé (1819).

A característica mais representativa dessa forma está na recusa em se valer da perspectiva oficial (dos heróis e governantes) para tratar de fatos históricos, abordando-os apenas pelo olhar de personagens comuns, numa tentativa de mostrar como esses eventos afetam o cotidiano das pessoas. “O romance histórico não deve mostrar nem existências individuais nem acontecimentos históricos, mas a interseção de ambos: o evento precisa trespassar e transfixar de um só golpe o tempo existencial dos indivíduos e seus destinos.”, aponta o crítico literário americano Fredric Jameson na conferência O romance histórico ainda é possível? (2004).

É preciso lembrar que a gênese do romance histórico ocorre no Romantismo, período em que as nações estão erguendo suas fronteiras. “Assim como o Romantismo é filho do Estado-nação, o romance histórico é filho do Romantismo e, por decorrência, do Estado-nação. O romance histórico encerra o eu da nacionalidade em contraposição ao eu das demais nacionalidades. O romance histórico é, como é o espírito romântico, uma idealização do passado, de uma chamada Era de Ouro, perdida pelo mundo burguês, industrial e cinzento”, explica o professor da pós-graduação em Letras da UFPE, Anco Márcio Tenório Vieira.

Cabe à literatura, então, assumir o papel de tecer as identidades dos países, erguendo símbolos nacionais e exaltando heróis. Não por coincidência, o romance histórico encontra terreno fértil no Brasil do século XIX. “Eles surgem para suprir uma deficiência no incipiente sistema intelectual brasileiro: a ausência de uma história pátria escrita por brasileiros. A literatura romântica no Brasil praticamente explora apenas uma das vertentes do romantismo: o da nacionalidade. Dentro desse horizonte mental, ela tem uma missão: dizer aos brasileiros quem somos ou, de outro modo, construir a ideia do que somos”, observa Anco Márcio.

A primeira obra desse tipo no país é Um roubo na Pavuna, de Azambuja Suzano. Publicado em 1843, pouco mais de duas décadas após Dom Pedro I declarar a independência do Brasil; o romance abriu a trilha para a literatura nacional reforçar a desvinculação do país em relação à metrópole. Caminho que o crítico Antonio Cândido diz ter sido seguido por autores como Joaquim Manuel de Macedo, Bernardo Guimarães, Franklin Távora e, o mais famoso deles, José de Alencar. De acordo com o professor Anco Márcio, em Pernambuco também surgiram romances históricos nessa época, sendo Nossa Senhora dos Guararapes (1847), de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o mais conhecido deles.

Embora o romance histórico atualmente tenha se transformado, carregando um viés mais questionador do que de registro; ele se encontra valorizado entre os leitores do fim do século XX. De acordo com o historiador inglês Peter Burke, o interesse se deve à possibilidade de turismo temporal na comodidade da poltrona e à rapidez com que as transformações sociais têm ocorrido nos dias de hoje, gerando nas pessoas uma necessidade de autoconhecimento do próprio passado.

No Brasil a situação não tem sido diferente. Obras como O chalaça (1994) de José Roberto Torero, Boca do Inferno (1989) de Ana Miranda, O xangô de Baker Street (1995) e O homem que matou Getúlio Vargas (1998) de Jô Soares desfrutaram de grande popularidade entre os leitores. Em comum, todos eles carregam a ficção no DNA e são erguidos nas entrelinhas de fatos históricos relevantes para o Brasil. Em Pernambuco, duas obras recentes chegaram à estante com a proposta de preencher com imaginação as lacunas deixadas em aberto no registro do passado. Tratam-se de Maldição e fé escrito pelo presidente da UBE-PE Alexandre Santos (2011) e Olinda abrasada (2012) do médico e acadêmico Waldênio Porto. Ambos focam nos contornos da invasão holandesa a Pernambuco, no século XVII.

Para escrever Olinda abrasada foram necessários seis anos de pesquisa. O cuidado no embasamento é consequência do projeto do escritor em transmitir conhecimento. “Minha preocupação foi de despertar o interesse nos mais novos para o nosso passado. E a literatura é uma maneira mais prazerosa para se contar a História”, avalia Porto. Assim, através da leitura de Olinda abrasada, os leitores têm a oportunidade de descobrir a importância de personagens que hoje foram esquecidos como nomes de viadutos, pontes e ruas da cidade, como o capitão André Temudo e o donatário Matias de Albuquerque.

O rigor da pesquisa se traduz em descrições da paisagem seiscentista, na riqueza de detalhes da chegada dos holandeses e na complexidade das tensões culturais, políticas, econômicas e religiosas. “Olinda era a Dubai daquela época, uma vila opulenta, com riqueza impressionante. Isso atraiu uma população diversa, entre os 2 mil habitantes tinham colonizadores portugueses, representantes comerciais holandeses, judeus fugidos da inquisição na Europa, índios e negros escravos. Havia uma multiplicidade de conflitos”, observa o acadêmico.

Valendo-se das tensões desse tabuleiro, montado com 78 figuras históricas; Porto utiliza as brechas da História para inserir outros 44 personagens fictícios e contar a história de amor entre a judia Bianca e Tiago, filho de cristãos velhos. “O que fiz foi humanizar a História. Não inventei nem alterei os fatos históricos, meu trabalho foi de co-relatar fatos que realmente aconteceram. Apenas imaginei o sentimento e as reações dos personagens. Por exemplo, não há registro do teor da conversa entre Joers e Calabar, então imaginei esse diálogo calcado na verdade histórica”, explica Porto.

Nessa mesma linha segue o romance Maldição e fé. Embora a obra de Alexandre Santos apresente uma liberdade imaginativa maior, ele se mantém fiel aos dados colhidos durante os três anos de pesquisa que lhe forneceram subsídios para a criação do romance. “Procuro oferecer dados concretos, sem induzir o leitor a erros. Os marcos históricos que aparecem no livro aconteceram exatamente do mesmo jeito. A literatura está no trabalho de esculpir o texto, escolher as palavras certas para traduzir as ideias, deixando o texto suave”, aponta Santos.

No entanto, essa preocupação não o impediu de criar. Santos se desprende do compromisso do discurso histórico para explorar os elementos reais como uma maneira de elevar o mistério da trama de Maldição e fé e discutir certas verdades implantadas pela História oficial. Além disso, o autor explora a instabilidade da Olinda do século XVII (gerada pelo domínio espanhol de Portugal, pela ameaça dos interesses da Holanda e pela inquisição da Igreja Católica) como ponto de tensão para traçar os pilares da sua obra e propor uma visão crítica sobre as relações de poder.

Nesse caso, o embasamento histórico – ao invés de impor limites – serviu de estímulo à imaginação. Afinal, o autor conta que a narrativa nasceu da curiosidade em torno da única casa que não sucumbiu ao fogo que destruiu Olinda durante a invasão holandesa. Detalhes sobre a vida naquela época ajudam o autor a fazer o contraponto entre fantasia e realidade para dar maior veracidade à ficção. A partir daí, o que seria o mote para um conto acabou se transformando num romance de 336 páginas pelas quais o autor conta a trajetória do padre exorcista Daniel Corogeanu, que esteve envolvido no combate à legião do vampiro Vlad Tepes e depois foi convocado para a caçada aos demônios empreendida na Terra Brasilis.

O interessante é perceber que, cada uma do seu jeito, as obras – Olinda abrasada e Maldição e fé – retomam as trilhas desbravadas por Nossa Senhora dos Guararapes, que lá no século XIX já usava as invasões holandesas como matéria-prima literária. Nessas novas viagens ao passado, os autores evidenciam a importância dos eventos seiscentistas para a formação da identidade dos pernambucanos, reforçando-os em nosso imaginário.

Escrito em 26 de junho de 2013

Publicado originalmente na Revista UBE

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Sua pesquisa foi sobre a relação entre literatura e internet no Brasil. [/author_info] [/author]
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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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