Nêmesis

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A dispensa do serviço militar, depois dos ataques a Pearl Harbor, o faz se sentir inútil, em débito com seu país, seus amigos convocados e o finado avô. A miopia que o impediu de se alistar destoava do corpo de massa atlética, e uma incapacidade para a ironia e o humor, além da educação do avô, dotaram-no para o senso de responsabilidade. Este é Bucky, personagem central de Nêmesis, último romance de Philip Roth. Os fatos são narrados muitos anos depois por Arnie. Como outros meninos e meninas da época, Arnie também era fã do vigoroso professor que lhes fazia correr e suar no pátio da escola, naquele tórrido verão de 1944.

Sim. Estamos no verão e está quente pra burro, o leitor deduz que os jornais diariamente trazem notícias da guerra – nem sempre consoladoras –, e para confirmar a Lei de Murphy, um surto de poliomielite atinge Newark. Primeiro os bairros italianos, pobres, mais tarde o bairro judeu, onde está situada a escola Chancellor. O número de vítimas vai aumentar até a epidemia e tudo se transforma no inferno, e são dois infernos, sendo um deles o inferno austral de Bucky, que sofre a dor da culpa.

Um dia, depois que o bairro registrou a maior incidência de pólio, ele recebe uma ligação, é Márcia, a namorada, professora numa colônia de férias, ela tinha uma notícia sensacional: a pessoa responsável pelos esportes aquáticos fora convocada e precisavam de um substituto. Parece que todos foram convocados, menos ele, o quatro olhos. Mas ele não podia. Não podia abandonar as crianças nem a avó. Não podia ficar fora do foco da doença e ir para onde tudo é fresco, puro e alegre, onde tudo convida ao amor e à felicidade. Não podia se refugiar covardemente no paraíso. Já bastava não ter sido aceito nas fileiras do Exército contra o inimigo, contra os japoneses e seu ataque a Pearl Harbor.

Mas Bucky acaba topando o novo emprego. Nem acredita no que faz. Num momento não ia, no outro está pedindo demissão e se emprega na colônia para felicidade da mulher que o ama.

Sim, Bucky se sente amado e sua mulher é perfeita, o pai dela, seu futuro sogro, o médico respeitável também é, suas cunhadas gêmeas também são e todos estão felizes porque ele pediu a mão de Márcia em casamento, estão felizes em recebê-lo naquele lar, na casa confortável, de amplos cômodos e escadarias que dão para os quartos.

Entre os mergulhos, o treinamento com os meninos e o sexo com a namorada na canoa, no lago, em meio a tanta felicidade, Bucky sofre de culpa. Pior que isso, uma culpa soma-se a outra. Agora não é só a dispensa da guerra: sua incapacidade de servir ao lado dos amigos, mas também a culpa pelos meninos que morreram e outros que ficaram aleijados, deformados, destruídos, e não adianta nada, sua namorada, contagiada de felicidade, tenta persuadi-lo, mas não tem jeito, sente-se o pária que foi dispensado de uma guerra e desertou daquela para a qual fora convocado. E tudo vai ficar pior, muito pior, depois que se confirmar o primeiro caso de pólio na colônia. Depois que se confirmar suas mais terríveis suspeitas.

A palavra nêmesis vem do grego antigo e já foi usada com o significado de indignação. Também usada para significar vingança ou castigo. Quando tudo desanda, quando o mal irremediável se abate sobre todos e provoca dor e sofrimento, Bucky culpa a Deus. Para Arnie Deus não pode ser culpado ou inocente uma vez que não existe. Bucky, por sua vez, é Jó revoltado com sua sina, da qual se lamenta, mas com a qual se compraz porque nela encontra sentido.

O romance é sobre a culpa, mas é também sobre a perda da ilusão, enquanto Bucky se acha vítima de uma trama divina, nós leitores suspeitamos de que não há trama divina nenhuma, que possivelmente não somos tão especiais ao ponto de merecer a atenção dos deuses.

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[author_info]Nivaldo Tenório publicou A Grande Torre (2002) e Dias de febre na cabeça, pela u-Carbureto, com segunda edição pela Confraria do Vento, a ser lançada este ano.

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