Noite do Oráculo – Paul Auster

0

Inspirado pela história que acabou de ler, o crítico senta em frente ao computador e começa a escrever sobre o livro Noite do Oráculo, do escritor americano Paul Auster, lançado em 2004 pela Companhia das Letras. Logo na introdução, o crítico apresenta não só dados como o título do livro, autor, editora e ano de lançamento no Brasil, mas também a linha que a crítica vai seguir.

O crítico continua sua resenha lembrando que o livro aborda um tema recorrente da literatura e do cinema, estilo que particularmente o interessa. Ele passa a fazer referências com outras obras do tipo, como Budapeste, Pergunte ao pó, Sonhos de Bunker Hill, Sinfonia para Vagabundos e os filmes Barton Fink, Adaptação, Topsy-Turvy, Uma Noite Americana e boa parte da obra de Woody Allen. Todos trazem textos dentro de textos, histórias dentro de histórias e escritores e/ou cineastas como personagens. É o que se chama de metalinguagem.

Porém, o crítico percebe que em Noite do Oráculo não existe o mito da criação artística baseado no sofrimento causado pelo branco de idéias, como acontece nas outras obras. Para o personagem/escritor, Sidney Orr, a criação é encarada mais como um trabalho do que a necessidade de expressão defendida por Rilke em Cartas a um jovem poeta.

Empolgado, o crítico prossegue desfiando o enredo. Diz que Orr tenta retomar sua vida após longo período internado num hospital, onde acumulou dívidas e foi dado como morto. Já em processo de recuperação, numa de suas caminhadas matinais, ele se depara com uma papelaria que nunca havia reparado antes, e lá, acaba comprando um caderno português azul (assim como o livro que o crítico acabou de ler) que o motiva voltar a escrever, proporcionando bons momentos de metalinguagem.

No entender do crítico, é a partir dos rascunhos iniciados por Orr, que Paul Auster aproveita para construir uma emaranhada ramificação de histórias. Em certo momento, a subdivisão de tramas chega a alcançar três níveis. Seu personagem (Sidney Orr) inventa um personagem (Nick Bowen) que por sua vez, lê a história de outro personagem (Lemuel Flagg) através do livro fictício Noite do Oráculo.

Mas, segundo o crítico, nem só de metalinguagem é feito o labirinto de Auster. Mesmo quando a narrativa envereda pela vida pessoal de Sidney Orr, o outro pilar de sustentação do livro, o autor consegue criar novas ramificações de histórias através do uso das notas de rodapé, que servem como um espaço para ficção e não apenas para explicações e referências.

Não bastassem a fragilidade da sua saúde, as dívidas e a crise no casamento enfrentadas por Orr, o personagem ainda é obrigado a ajudar Jacob, um viciado em drogas, filho do seu amigo, o já consagrado escritor John Trause. Trause (escrito com as mesmas letras de Auster, observa o crítico) tem um papel fundamental na vida de Orr, é quase um pai, sempre dando conselhos e idéias para que ele volte a escrever.

Intrigado com o sentimento de estranhamento sentido durante a leitura, o crítico passa a procurar respostas e acaba percebendo que Noite do Oráculo é envolto por uma névoa de surrealismo e mistério, assemelhando-se, em alguns momentos, com a aura dos filmes de David Lynch, sem, contudo, chegar ao bizarro. O clima sobrenatural manifesta-se em insinuações de invisibilidade, “visita” aos mortos e a possibilidade de palavras escritas se transformarem em realidade. Assim, tomado por esse ímpeto fantástico, Orr busca desvendar os mistérios que o cercam, a partir de fragmentos da sua vida, tentando costurá-los através dos seus escritos, lembrando o filme Swimming Pool, de François Ozon. Outro fator que também contribui para esse clima fantasioso são as referências à década de 80. Um mundo velho querendo ser moderno, tão familiar e parecido com o de hoje, que é estranho pensar na não-existência de computadores e celulares, por exemplo.

Depois de tudo isso, contar um pouco do enredo do livro, apresentar nuances nem tão perceptíveis, justificar sua opinião e fazer referências a outras obras, o crítico finalmente está satisfeito com sua resenha. Agora só lhe resta esperar, torcendo para que ela seja aceita, publicada e lida.

Thiago Corrêa
lido em Abr. de 2005
escrito em 27.05.2005

: : TRECHO : :
“Não estava escrevendo o conto ainda, apenas esboçava a ação em pinceladas largas, e não podia me permitir atolar nas minúcias de preocupações secundárias. Isso teria me forçado a parar e pensar, e no momento eu só estava interessado em continuar inventando, em ver aonde as imagens de minha cabeça iam me levar. Não era hora de controle; não era hora nem de fazer escolhas. Meu trabalho aquela manhã era simplesmente acompanhar o que estava acontecendo dentro de mim, e para isso eu tinha de manter a caneta em movimento o mais depressa que pudesse.” (p. 26)

: : FICHA TÉCNICA : :
Noite do Oráculo
Paul Auster
Trad. José Rubens Siqueira
Companhia das Letras, 1a edição, 2004
224 páginas

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

Comente!