Nome Próprio | A saga de um nome

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A saga de um nome
Julieta Jacob

Ele foi o primeiro filho daquela mãe. Nasceu em 1910 e foi batizado como Edgar. Morreu cinco anos depois de difteria, doença que provoca inflamação na garganta. O choque foi tão forte, que ela não teve dúvida ao confirmar a nova gravidez: “vai ser o meu segundo Edgar”. Nasceu em casa, de parto normal. Morreu em casa, de morte natural. A mãe se afastou ligeiramente para estender uma fralda e, quando voltou, Edgar já estava com uma vela na mão. É que naquele tempo se fazia isso pra que a pessoa tivesse uma morte iluminada. Foi a última vez que viu o filho com vida.

O tempo passou. Ela desistiu dos Edgars, mas não da maternidade. Na sequência vieram Yara, Harry, Hélio e Ernani. Irmãos que escaparam da morte precoce por um nome. Harry, aliás, chegou quase aos noventa. Viveu tudo o que a vida tinha a oferecer. Mas mesmo com a prole extensa, ela não conseguia tirar os Edgars da cabeça nem do coração. Chorava muito sempre que lembrava deles. Uma dor sempre recente, ferida pra sempre aberta. A nora, impressionada com aquele lamento, teve uma idéia pra sanar tamanha tristeza: chamou o primogênito de Edgar e deu o menino de presente para a sogra. Uma criança linda, de olhos azuis. Edgar “terceiro” teve asfixia durante o parto. Morreu de olhos abertos.

De lá pra cá foram muitos nascimentos na família. Vinícius, Rafael, Matheus e tantos outros. Edgar, ninguém arrisca mais. A história deles é passada de geração pra geração, como forma de evitar lágrimas futuras, despedidas previsíveis. Só uma mãe sabe a dor de perder um filho. E a terceira perda encerrou de vez aquela seqüência de mortes provocadas por um nome assassino.

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