Nome Próprio | Afrodisíaco

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Afrodisíaco
Julieta Jacob

O paraíso do Brasil é um filho bastardo. Mãe desconhecida, pai desnaturado. Está nos documentos do século XVI: “a primeira capitania hereditária do país foi doada pelo rei Dom Manoel I ao navegador Fernão de Loronha”. Um homem, aliás, sem coração. Batizou a criança com seu próprio nome, mas nunca pôs os pés no arquipélago. Com o tempo, passou a se chamar Fernando de Noronha. Apesar do abandono, ele cresceu saudável – e como. Inspirador por natureza. “Aqui as folhas não crescem, viçam”, me disse um pescador. Não pense que é exagero. Noronha é um convite à reprodução. Logo ele, fruto de um casamento mal sucedido. Logo ele, herdeiro indesejado, nasceu para servir ao amor – dos outros.

É o lugar onde existe o maior número de casais por metro quadrado. Jovens, alegres, férteis. É o lugar onde o solteiro vira par; onde 1 vira 2. Onde a multiplicação acontece. E de tanto, digamos, “multiplicar”, a maior de todas as namoradeiras da ilha se transformou até em ponto turístico: é o “Buraco da Raquel”, absolutamente lindo. Por isso mesmo, por via das dúvidas, é proibido entrar e tomar banho. Me contaram, aliás, que essa tal Raquel morava na Vila dos Três Paus, entre o Morro do Pico e a Ponta da Sapata. Haja criatividade…

Uma fábrica de vidas como essa não pode carregar o fardo de um passado de desprezo. Não seria justo. Trato, portanto, de lhes contar a minha própria versão. Fernando de Noronha é o filho mais velho de Adão e Eva que, como se sabe, moravam no paraíso. É conseqüência de amor e pecado. Recebeu nome próprio porque foi o melhor produto que o casal pôs na terra. Exemplar único e mutante, diferente de todos os seres apenas humanos. Uma ilha em forma de gente. Um útero masculino em permanente estado de ovulação.

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