Nome Próprio | Anonimato

0

Anonimato
Julieta Jacob
 
Aquela moça carregava uma dor no peito e a tristeza do mundo nos olhos. Nas primeiras vezes em que estive naquela casa, ela passou despercebida, nem sequer notei que havia alguém ali. Mas a partir da décima visita em diante, a moça não nos abandonou nem por um segundo. Ali, perto da cabeceira, ela testemunhou todas as nossas noites de amor. Na cama, que já foi sua. Com o homem, que já foi seu.
 
O fato é que aquele homem não queria ser de mais ninguém. O casamento acabara há quase um ano, mas o coração continuava trancado. Nem sabia se ainda era desejo o que sentia pela ex-mulher, mas fazia questão de manter-se fiel ao amor que não mais existia. Emprestou-me seu corpo, seus beijos, seus carinhos. Mas aquele homem só era meu por inteiro, no escuro da noite. O primeiro raio de luz revelava de novo aquele rosto imóvel dentro do quarto. O amanhecer quebrava o encanto, interrompia o sonho. Levava aquele homem para longe de mim. A imagem da moça trazia de volta um passado do qual eu não fiz parte. Eu, que era tão feliz ao lado daquele homem, passei a não suportar mais aquela presença constante entre nós. A moça que nem dormia para acompanhar o nosso sono. A moça que não perdia nenhum detalhe.
 
Não havia mais espaço para ela. Eu queria exclusividade. Mas, de um jeito estranho, aceitei que ela continuasse ao nosso lado até o fim, apesar da dor que sentia. Imaginei que, encarando a moça, poderia alcançar o coração daquele homem, mas não havia chance. Enquanto o dele permancia distante, o meu derretia de amor. Eu não queria mais aquele homem. Eu queria a moça do porta-retrato. Aquela, que não tinha nome. Aquela, que carregava uma dor no peito e a tristeza do mundo nos olhos.

Compartilhe

Sobre o autor

Comente!