Nome Próprio | Azul piscina

13

Eu era pequeno demais pra entender. Não sei se existe uma idade mínima pra esse tipo de coisa, mas comigo aconteceu quando eu tinha sete anos. Na minha lembrança ficaram impressões, cheiros, detalhes; tudo o que se sente com o coração e não com a cabeça. Eu era pequeno demais pra enxergar o mundo com os olhos da consciência, que só os adultos possuem.

Ela se chamava Sônia e tinha 36 anos. Quando a conheci, ela estava divina, enrolada numa toalha branca, os cabelos ensopados  pingando sobre os ombros, tinha acabado de sair do banho depois da aula de hidroginástica. Ela abriu a porta do box e se deparou comigo de pé em cima de um banco, também enrolado numa toalha, enquanto minha mãe penteava meu cabelo e me ajudava a trocar de roupa depois da minha aula de natação. Eu, que até então estava tímido no meio de tantas mulheres, perdi toda a vergonha ao ver o rosto de Sônia. Aquele belo rosto de sobrancelhas escuras, desenhado com capricho dentro de uma moldura de perfume de banho recém-tomado. Meu nariz foi quem primeiro percebeu aquela beleza diferente de todas as outras. Devo ter sido indiscreto, pois ela veio direto em minha direção dizer que eu era muito lindo. Enquanto ela alisava as minhas bochechas e meu queixo, me olhando de frente e de perto como se quisesse ter certeza de que eu era muito lindo mesmo, eu senti pela primeira vez o prazer que só as mulheres são capazes de proporcionar. A maciez da pele, a suavidade do toque. Os instantes em que a minha pele roçou na palma da mão de Sônia foram suficientes para despejar litros de felicidade no meu coraçãozinho infantil. Uma felicidade bem diferente da que eu sentia ao ganhar um brinquedo novo ou agarrar um pênalti na pelada do colégio. A sensação gostosa começou no fundo do peito, que acelerou, acelerou, acelerou descontroladamente, até transformar meu coração numa cascata, de onde a água do desejo escorregou em violenta queda livre e se espalhou por todo o meu corpo arrastada por uma correnteza feroz. Sônia tinha a mesma idade e talvez o mesmo peso e altura da minha mãe. A diferença é que ela não era uma santa, mas uma mulher de carne e osso. Foi a primeira vez que o meu mundo entrou em confusão. Eu estava completamente apaixonado.

Só que eu era pequeno demais pra ter noção do que se passava. Sabia apenas que toda vez que me faltava ar, minha mãe se aperreava muito. Trocava minha roupa rápido e lá íamos nós dois pra clínica de nebulização, primeira palavra difícil que eu aprendi a falar. E que delícia aquela fumacinha mágica no meu nariz! Em alguns minutos, eu tava curado. O prazer de voltar a respirar direito era tanto, que eu adormecia no colo da minha mãe antes mesmo de chegar em casa. Pena que o efeito durava só até a noite seguinte, quando uma nova crise de asma me atacava e lá íamos nós outra vez. Minha mãe sabia que meu problema era crônico, mas não desistia de procurar uma cura. Numa das tentativas, minha vó me levou à praia às quatro e meia da manhã. Quando o primeiro raio de sol iluminou o céu, caminhamos juntos até o mar e ela rezou em voz alta, uma prece em que pedia a Iemanjá que carregasse a minha asma embora e me purificasse com a brisa marítima. A receita, testada com sucesso em cinco netos, comigo não funcionou. E quando minha mãe me viu novamente puxando o ar pela boca com dificuldade e enchendo o peito como se fosse morrer sufocado, quem teve uma crise foi ela. Desabou no consultório do médico que me acompanhava desde que nasci. Foi quando Doutor Sabino veio com a brilhante e inédita ideia: “Por que você não coloca esse menino na natação?”.

Na mesma semana eu já estava matriculado. Sunga nova, toca e óculos, figurino completo. Pra mim, que já era naturalmente louco por piscinas, mas nunca tinha tido a chance de ter uma só minha, passar uma hora ali dentro daquela delícia azul era a imagem mais próxima que eu poderia conceber do paraíso. Minha mãe aproveitou e começou aulas de hidroginástica na mesma academia pra entrar em forma também. A professora sabia do meu caso e passava exercícios específicos pra melhorar a minha respiração. Eu comecei a achar a novidade muito melhor do que a tal fumacinha mágica no meu nariz. Terminada a natação, eu tinha que tomar banho e seguir a maratona rumo ao curso de inglês, como muitas crianças nascidas nos anos oitenta.

Acontece que eu era pequeno demais pra me virar sozinho no banheiro masculino. Ainda mais um menino asmático como eu, que poderia ter uma crise a qualquer momento. Minha mãe decidiu então me levar pro banheiro feminino, porque não queria desgrudar de mim. É verdade que eu era pequeno demais pra compreender essas questões complexas de gênero (que só interessam pra quem é gente grande), mas hoje eu concluo que algumas mulheres ficavam bem incomodadas com a minha presença ali, e sentiam vergonha como se estivessem diante de um homem feito. Trocavam de roupa quase que escondidas, viradas pra parede pra que ninguém (muito menos eu) visse o que havia por baixo da toalha. Eu confesso que tentava ser o mais quieto possível, até pra não pôr em risco a minha situação privilegiada, mas não deixava de dar uma espiada quando um peito, coxa ou uma bunda apareciam por descuido aqui e acolá.

Foi quando no meio de mulheres tão envergonhadas, apareceu-me Sônia. Eu talvez fosse pequeno demais pra merecer uma mulher daquelas, por isso me considero um sortudo precoce. Se naquela época eu pensasse em ficar rico, diria que vê-la foi como ganhar na MegaSena acumulada do amor. Ela abriu a porta do box sorrindo, naturalmente cheia de vida e auto-confiança, e espremeu o excesso de água dos cabelos. A imagem perfumada de Sônia atraiu minha atenção e não me deixou outra escolha a não ser me apaixonar. E como se quisesse testar os limites da minha paixão, ela trocou de roupa na minha frente, sem pudor nem vulgaridade, exibindo seu corpo perfeito sem pressa alguma enquanto conversava sobre qualquer assunto. Antes de ir embora, me deu um beijo estalado dizendo à minha mãe que tomasse cuidado porque eu ia dar muito trabalho daqui a algum tempo. Eu passei a não ver mais a minha vida sem o sorriso de Sônia dentro dela. Ela era o meu estímulo para ir às aulas de natação, pois eu precisava de pulmões fortes pra sentir o cheiro dela por completo, já que eu não queria desperdiçar nenhuma molécula sequer daquela nuvem de perfume molhado que a circundava quando saía do banho.

Eu era pequeno demais pra perceber relações de causa e efeito, mas foi graças a Sônia que me curei da asma. Mais que isso: me dediquei com tanto gosto à natação, que passei a competir e virei um atleta profissional. Apesar da minha saúde de ferro, Sônia permanece na minha memória como uma das poucas coisas que ainda me fazem perder o fôlego. Lembrando dela, sinto saudade do tempo quando eu era criança. Tão pequeno, que enxergava o mundo com os olhos do coração, e achava que os meus dias mais azuis seriam pra sempre.

Compartilhe

Sobre o autor

13 Comentários

  1. André Durão em

    Ju,

    nossa, seu texto nos dá a exata imagem do que se passou na vida deste garoto! Alem de ser gostoso de ler, tem uma sensualidade bem sutil, na medida certa! Só que eu nao sou tão pequeno assim, e tava torcendo para um encontro dele com Sônia depois de grande, já uma atleta! Ahahaha
    Mas a sua mágica como autora é esta, deixar para nossa imaginação esse encontro.
    Parabéns! Grande texto! Grande bjo.
    André

  2. Fátima Maranhão em

    Jubs………….
    Amei. Lindo, gostoso e azul brilhante…………………….
    beijo de luz

  3. Julieta Jacob em

    Aos visitantes de primeira viagem, sejam bem-vindos e voltem sempre! É um prazer tê-los aqui.

  4. Grande Jubarte,
    Você sempre me impressiona, um dia apos o outro. É de grande admiração como pessoa e profissional. É lindo o texto, com tal riqueza de descrição que seria capaz de imaginar que eu mesmo já tenha passado por aquilo. Linda.

  5. Aos 7, eu provavelmente teria passado vergonha nesse banheiro hahah. Massa o texto, congrats!

Comente!