Nome próprio | Difícil

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Recentemente eu precisei fazer um exame médico no centro do Recife, bairro do Derby. Chegando lá, a recepcionista me informa que o expediente da manhã havia encerrado e que, à  tarde, o atendimento recomeçaria às 13h30. Olho pro relógio e constato que tenho que esperar duas horas até ser atendida. O que fazer nesse intervalo?

O estômago ronca. Na minha frente, um dos restaurantes mais deliciosos da cidade. À minha esquerda, uma barraquinha modesta na calçada da Avenida Agamenon Magalhães. É pra lá que eu vou. Não fui guiada pelo paladar, mas pela vontade de enfrentar um medo antigo. Entre a clínica e a barraquinha, havia um grupo de adolescentes fazendo ponto no sinal. Mal os carros paravam, lá iam eles salpicando água nos pára-brisas. E o gesto seguido por um: “Tem um trocado?”.

Nunca havia parado para observar a cena do lado de fora. Normalmente, estou dentro do carro, torcendo pra não pegar o sinal vermelho nem ser abordada pelos “limpadores de pára-brisa”. O motivo? Medo. Depois de três assaltos. Naquela mesma avenida. Todos cometidos por jovens aparentemente bem intencionados pedindo esmola.

Cheguei à conclusão de que não dá pra distinguir quem é bom e quem é mau. Na dúvida, melhor evitá-los.  Mas na tarde daquela terça-feira, foi diferente. Eu estava bem ali, ao lado deles. Sentada num banquinho, eu pude vê-los de perto, sem medo e sem ser notada. Analisei repetidamente como eles se apressam em direção aos automóveis, pedem dinheiro e como reagem ao notarem que não são bem-vindos. Pude até mesmo ouvir o que conversam entre si (sobre os motoristas) enquanto aguardam o sinal fechar de novo. E, pra minha surpresa, a barraquinha onde eu estava funcionava como o banco do grupo, onde os rapazes trocavam as moedas arrecadas.

Enquanto comia pipoca doce com água de coco, pela primeira vez, me senti tranquila diante dos meus “inimigos”. Fiquei imaginando minha cidade sem violência, com pedestres sorridentes e apressados, motoristas destemidos e jovens que pedem, mas não assaltam.

Meu devaneio é interrompido por uma voz esperta de quatro anos de idade. “Tá gostosa a pipoca?”. Um menino rechonchudo e guloso senta no banquinho ao meu lado, junto com a mãe, que parecia meio envergonhada pelo fato do filho estar puxando conversa comigo. “Tá uma delícia. E você, o que vai comer?”.  “Pastel de frango com refrigerante”. Entre uma mordida e outra, nosso papo continuou. “Meu nome é Andisson”. Apesar de falante, ele mal conseguia pronunciar o próprio nome. E, o do irmão, menos ainda. “Andivisson tá em casa com a minha vó”.  A mãe estava lá pra esclarecer. “Ele enrola a língua quando fala, mas o nome dele é Andreyson e o do irmão, Andreyvison. Sabe como é, meu marido é complicado e achou de escolher dois nomes que ainda não existiam.”

Faltavam 15 minutos pras 13h30. “Tchau, tia”. Desta vez, a voz esperta de Andreyson me trouxe de volta ao devaneio de minutos trás. Caminhei em direção à clínica, passei pelo grupo do sinal e, feliz, continuei sonhando com uma Recife que ainda não existe.

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3 Comentários

  1. sou de Recife e tbm espero por uma cidade menos agressiva e mais bonita,
    moro em Boa Vista-Roraima a 6 anos e diferente de Recife é
    uma cidade tranquila e sem os problemas da minha cidade natal q amo tanto
    e q ainda tenho esperanças de poder andar tranquila como ando aqui.

  2. Julieta Jacob em

    Andar a pé, de carro ou bicicleta, enfim, VIVER sem medo é o que muitos recifenses desejam, Taia. Me alegra saber que você não perdeu as esperanças. Obrigada pelo comentário.

  3. Michelle Serralva em

    Infelizmente chegamos ao ponto de evitar esses jovens e sempre desconfiar deles.
    A escolha pela barraquinha de lanches em lugar de boas carnes rendeu bons frutos.
    Ah! Se mais pessoas tivessem essa esperança de um Recife assim.

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