Nome Próprio | Esperança

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Esperança
Julieta Jacob

Juninho é um tarado. Não pode ver um peito, que pega. Não pode ver uma boca, que lambe. Não pode ver uma perna, que monta. Tarado. O detalhe é que ele só tem quatro aninhos. Precoce? Não, não é isso. A explicação pra tanto fogo é outra. Juninho tem uma síndrome. Ainda não se sabe se é de down ou qualquer outra, mas algo misterioso que o torna assim, tarado.

A mãe de Juninho, Sandra, carioca da Baixada, leva o menino toda semana a uma dezena de médicos. Especialistas em tratar daquilo que ninguém conhece. Mas funciona. Sempre que Juninho começa com a incontrolável vontade de devorar tudo o que vê pela frente (pernas, de preferência), Sandra já sabe: chama ele pro quarto e deixa Juninho uma meia hora se divertindo com uma almofadinha. Santo remédio! O próximo passo, me disse, vai ser comprar uma boneca inflável. Mas isso só quando ele completar 15 anos.

Além de tarado, Juninho é também o sentido da vida de Sandra. Ela se emociona à toa falando dele. Diz que basta olhar seu rostinho de manhã pra ter a certeza de um dia feliz. Segue à risca o que mandam as psicólogas do seu caçula, mas discordou quando mandaram que ela parasse de chamá-lo de Juninho. “Ele precisa saber que é Aluisio, como o pai, faz parte do tratamento, do processo de crescimento e de auto-afirmação do menino”. “Nada disso. Ele nasceu Juninho e vai continuar sendo!”. O filho amado de Sandra. O tarado ingênuo e sem maldade. Juninho é puro instinto. É impulso que não se segura. É prazer que não se adia. Satisfação que se realiza. Apetite que não sacia. Eu, que não tenho síndrome alguma, tenho inveja dele. Sentimentos, palavras, gestos, desejos e sorrisos estão represados dentro de mim. Juninho é indomável. Eu, disciplinada. Mas existe uma chance: quem sabe, da próxima vez, nasço homem. Aluisio, como meu pai, e como Juninho.

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