Nome Próprio | Fantasia

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Saiu de casa porque era carnaval. Atravessou a ponte coberto de cores. Embora naquele sábado enxergasse o mundo em preto e branco, colocou uma roupa alegre para ser mais um no meio da multidão. Estava só e não queria ser notado. Evitou os trechos mais apertados do Marco Zero por uma questão de sobrevivência. Aquela solidão não podia ser invadida por estranhos, muito menos de forma tão brutal, por aquela gente tão feliz. Dobrou à esquerda numa rua paralela ao grande foco de animação e achou um caminho alternativo, menos eufórico. Andou depressa para desviar dos olhares ao redor, pois não queria mostrar a ninguém o seu rosto nu, sem máscara nem sorriso. O passo ligeiro demonstrava desconforto e pressa de chegar aonde nem sabia. Até que a esperança de desaparecer dali lhe trouxe um certo prazer estranho. Atraído pela música que vinha de um bar, mal pensou e já havia entrado. Deparou-se com um rapaz que tocava Chico Buarque num órgão, e a cena incomum pra aquela época do ano agradou aos ouvidos.

Algumas dezenas de pessoas dançavam e cantavam em coro os refrões mais conhecidos do repertório. Comprou uma cerveja pra não ficar de mãos vazias. Ligeiramente encostado na parede, teve enfim coragem de experimentar o que estava sentindo. Era solidão, no sentido mais honesto da palavra. O ambiente de festa e celebração em que estava foi o contraste necessário pra que ele se enxergasse sem disfarces.

Observou os olhares ao redor, mas não havia nenhum na sua direção. Os casais se encaravam de perto e faziam das músicas declarações de amor. Pensou em comprar mais uma cerveja e mais outra, e esquecer por uma noite que dentro dele a quarta-feira já chegara. Teve vontade de provar daquela leveza espalhada no salão, quem sabe assim conseguisse até parecer feliz de verdade. Quis sentir o gosto daquela gente despreocupada. Imaginou que beijaria todos que se aproximassem ou simplesmente sorrissem pra ele. E que os beijos levariam embora o solitário que ali estava, cerveja na mão e corpo ligeiramente encostado na parede. De olhos fechados, ele viveu a sua fantasia…
 
Lúcido, porém, foi incapaz de seguir adiante com ela, por mais prazerosa que fosse. Era uma da madrugada. Colorido, ele atravessou a ponte. E, apesar do carnaval, voltou para casa.

(Para Danilo Abd-Allah)

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