Nome Próprio | Felicidade

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Felicidade
Julieta Jacob

Eu tenho dez dentes postiços. Cinco de cada lado do rosto, na parte de cima da boca. Meus dentes são presos por uma espécie de armadura prateada que os fixa à gengiva. Quando falo, mesmo sem articular muito bem as palavras, dá pra ver dois ganchinhos brilhosos denunciando a falsidade do meu sorriso, que nem é bonito. Perdi dez dentes por descuido, falta de zelo. Achava que eram duros como pedra, fortes como grades de um portão de ferro.

Aos poucos, o que era branco ficou encardido, cedeu a décadas de desatenção. Foram enferrujando, um a um. Ficavam tão inflamados, que era um alívio tê-los fora do meu rosto. Quando arranquei o décimo da arcada superior, pedi ao dentista que por favor me conservasse os dois últimos, os centrais, que desses eu não abriria mão. Ouvi dizer que um representa nosso pai e, o outro, nossa mãe. Retirá-los era o mesmo que ficar sem raízes, abrir um vácuo irreversível na história da minha vida, apagar o meu passado. Eles são as únicas testemunhas de tudo o que fui, do que sou, e certamente permanecerão firmes mesmo depois da minha morte. Quem sabe até sirvam para identificar o meu cadáver. Além do mais, é neles que se apóiam os meus dez dentes postiços. Cinco de cada lado, presos por dois ganchinhos brilhosos. Na arcada de baixo não me resta nada. Nem dentadura, nada. Apenas a gengiva, escorregadia e rosada, escondida sob o lábio.

Depois que passei a usar meus dentes postiços, tornei-me um homem triste. Comer em público é um martírio, e eu adoro comer, um dos poucos prazeres que ainda me restam. As migalhas ficam presas na armadura prateada que me atravessa o céu da boca e retirá-las é um sacrifício. É preciso sugar com bastante força, mas minha língua, por mais habilidosa que seja, não consegue fazer a limpeza. E eu, que sou um homem muito reservado, não removo meus dentes postiços fora de casa de jeito nenhum. Passo o dia com a comida presa, torcendo que a saliva de algum modo leve pra longe aquele incômodo. Já não mordo mais com tanta vontade e dou preferência a bebidas e sopas. Emagreci dezoito quilos. Virei escravo dos meus dentes falsos, que não me dão motivo algum para sorrir.

Com o polegar de um lado, o dedo indicador do outro e uma leve pressão para baixo, desencaixei a armadura prateada e coloquei-a na cabeceira do quarto. Deus, que alívio. Fechei os olhos, estirei o corpo na cama. Descansei uma gengiva sobre a outra e bocejei demoradamente, a ponto de derramar uma lágrima pelo canto do olho. Em poucos minutos, meu pensamento voou para longe. Lambendo suavemente os meus dentes frontais, lembrei-me da minha mãe, do seu jeito carinhoso de me mandar escovar os dentes antes de dormir. Senti também o calor do meu pai no seu beijo de boa-noite. Depois, minha boca reencontrou os beijos da adolescência… o mesmo gosto, cheiro, a mesma intensidade. Cheguei a salivar ao reproduzir alguns movimentos, agitando minha língua no ar como se farejasse algum alvo. Meus lábios ficaram quentes, vermelhos, inchados. Percebi uma leve contração nas bochechas, evidenciando as maçãs do meu rosto. Não entendi direito, mas me deixei levar, fiquei imóvel pra não correr o risco de interromper aquela sensação. Muita gengiva e apenas dois dentes à mostra… um sorriso que brotava tímido na alma de um homem feliz.

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