Nome Próprio | God knows everything

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Ela não tinha a mínima pretensão. Partindo das orelhas, na altura dos olhos, deslizou os polegares por debaixo do cabelo, até os dedos se encontrarem no meio da cabeça. Os fios que ficaram entre as duas mãos seriam presos, enquanto os demais, da camada de baixo, permaneceriam soltos a cobrir-lhe a nuca até a altura dos ombros. A mão esquerda segurava o penteado inacabado pra que ele não se desfizesse; a outra, procurava alguma coisa pra prender os fios, já que ela não estava preparada para aquela ideia que lhe ocorreu de improviso. Conferiu no bolso e no pulso se tinha algum prendedor de cabelo, mas ambos estavam vazios. Um elástico daqueles de amarrar dinheiro, esquecido ao lado da caixa registradora, pareceu-lhe a opção mais apropriada. Fez tudo isso em menos de 15 segundos, sem sequer se olhar no espelho. Apenas tateou a cabeça rapidamente pra checar se estava bonita. Depois, deixou escapar um meio-sorriso de aprovação. O efeito daquele “semi” rabo de cavalo na sua cabeleira de fios escorregadios de tão sedosos, foi impactante. Olhei pra ela e minha reação foi imediata. Era a primeira vez que decidira mudar o penteado. Normalmente, só se dá ao trabalho de deixar os fios negros de origem chinesa ao sabor da gravidade. Soltos e timidamente presos atrás das orelhas.
 
Não resisti: “Lai Lai, you´re so cute. You should always keep your hair like that”.
 
E ela, não se achando merecedora de tal elogio: “Really? Do I look cute? Cute, me? Almost 40 years old?”.
 
O inglês, pronunciado com pesado sotaque cantonês e em tom de surpresa, denunciava a incoerência do meu comentário. Segundo a lógica de Lai Lai, “fofa” é adjetivo usado para moças na flor da juventude, e não para quarentonas beirando a meia-idade.
 
Ao me dar conta disso, demonstrei espanto ainda maior: “40 anos? Are you kidding me? Como pode, Lai Lai, you look so young! Please, tell me, qual o segredo pra se manter assim tão jovem?”
 
Ela me olhou com cara de quem ouvia aquela pergunta pela primeira vez, mas nem por isso titubeou na resposta: “Bom, talvez porque eu gosto de comer vegetais. Mas, no fundo, acho que deve ser mesmo porque eu não me preocupo muito. Não tenho nem muita imaginação pra ficar inventando o que não devo, nem boa memória pra me lembrar de coisas ruins. Um dia desses, por exemplo, um parente nosso morreu e meu marido ficou muito, muito triste. Eu disse a ele que não se preocupasse porque, no máximo em dois anos, ele já estaria totalmente recuperado, pois já teria esquecido o rosto da pessoa que morreu. Pelo menos é assim que acontece comigo”.
 
(A falta de imaginação, pra mim, era novidade; já a falta de memória, eu tinha tido a chance de comprovar. Desde que nos conhecemos, há uns cinco meses, Lai Lai já deve ter me perguntado pelo menos umas 357 vezes qual é a língua oficial do Brasil. Eu já fiz de tudo, mas não tem jeito dela lembrar. Quando não diz que é o espanhol, ela arrisca dizendo que é o francês. Eu já usei todo o meu conhecimento e didática tentando fazer com que ele não esquecesse. Até falei de Pedro Álvares Cabral, da colonização portuguesa etc e tal, mas foi tudo em vão. Agora entendi). 
 
É, eu compreendi o que ela havia dito, mas não me dei por satisfeita: “Lai Lai, então é sempre assim que você lida com situações difíceis? Basta não pensar muito sobre o assunto e esquecê-lo em seguida? Me dá outro exemplo de situação difícil que você já enfrentou”.
 
Ela parecia não entender o significado de “situação difícil”. Talvez porque até as mais complicadas tenham sido, pra ela, de tão fácil solução. Encarreguei-me, pois, de exemplificar: “Semana passada você me contou que um garçom foi tirar uma foto sua e, acidentalmente, derrubou sua câmera no chão. Na queda, a câmera quebrou, ou seja, não serve mais. Uma câmera cara e, além disso, a única que você e seu marido tinham. O que você sentiu? Como reagiu naquele momento?”
 
Com tom de sinceridade, ela me disse que por alguns segundos pensou em xingar o garçom, mas logo se deu conta que de nada adiantaria. Ainda por cima, o rapaz estava lhe fazendo um favor, então ela não tinha razão de reclamar. E, pra terminar, “o salário dele talvez seja ainda mais baixo do que o meu, então deixa pra lá and let´s enjoy the dinner. Eu também não tenho muito dinheiro mas, se economizar um pouco, talvez eu consiga comprar outra câmera”.
 
“E ficou por isso mesmo? Você jura que não ficou triste, Lai Lai?”.
 
“Bom, não posso negar que fiquei um pouco, mas isso não estragou a minha noite. And you know what? Duas semanas depois meu marido foi sorteado num concurso da Fuji e ganhou uma câmera fotográfica novinha, ainda melhor do que a que a gente perdeu. Eu realmente acho que Deus sabe de tudo. Ele sabia que minha câmera havia sido quebrada, por isso me presenteou com outra. Pra que se preocupar, então, se ele mesmo se encarrega de encontrar uma solução pra tudo?”
 
Depois que conversamos, entrou um grupo de chinesas na loja, doidas pra gastar. Lai Lai engatou um cantonês com elas, mostrou de tudo um pouco, pegou a calculadora pra convencê-las de que as promoções valiam a pena e, a cada novo produto, as chinesinhas falavam mais e mais alto, arregalando os olhos de excitação. No fim das contas, Lai Lai investiu não menos do que 40 minutos do seu tempo com elas. A venda foi boa, passou de 100 dólares. No entanto, na hora de finalizar a transação, Lai Lai se equivocou e colocou a venda no nome de outra vendedora. Como o procedimento é irreversível, eu pensei: “Não acredito. Depois de um trabalhão desse, ela perdeu tudo… aposto que Lai Lai deve estar, no mínimo, aborrecida consigo mesma”. E puxei assunto pra testá-la mais uma vez. Pra minha surpresa, Lai Lai nem tinha percebido o que havia feito e, ao descobrir, sorriu que nem menina pequena quando faz besteira, com aquela coragem infantil de quem não tem noção do perigo, nem tem medo de errar.
 
“Ai, meu Deus”, pensei eu. Acho que Lai Lai é mesmo um espírito evoluído…
 
Algum tempo depois eu saí da loja pra tomar um café e, quando volto, sou recebida com a notícia de que ela acabara de ter a venda recorde do dia: 186 dólares. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela sintetizou: “Tá vendo? God knows everything”.   
 
“Matei a charada”, pensei comigo mesma. “Lai Lai se apega à religião como forma de enfrentar o sofrimento e as dificuldades, já saquei tudo”. Mas a validade da minha descoberta não durou nem um minuto:
 
“De forma alguma, Julieta, eu não sigo nenhuma religião, não rezo nem vou à igreja. Apenas acho que várias coisas que acontecem na minha vida me fazem acreditar que existe um Deus lá em cima observando tudo atentamente. And he knows everything, I´m sure he does”, falou suave e cheia de convicção.
 
E, diante dessa certeza, Lai Lai se dá ao luxo de não saber quase nada. Faz da ignorância uma aliada e, da falta de memória, uma forma de encarar tudo com a ingenuidade sadia de quem se aventura pela primeira vez. Sem maldades, preconceitos, medos ou expectativas.
 
Ela também se dá ao luxo de usar a versão original do seu nome em terras canadenses. Enquanto 99,9% dos imigrantes que vêm das bandas asiáticas precisam “traduzir” seus nomes para o inglês ou até mesmo inventar um nome equivalente, Lai Lai, mais uma vez, não teve motivo pra se preocupar. Seu nome em Toronto é exatamente igual ao que ela recebeu 39 anos atrás em Hong Kong: Lai Lai é simplesmente Lai Lai, com a mesma pronúncia da língua materna. A única diferença, é que aqui ela escreve o nome com o alfabeto ocidental.
 
Ela me disse que o adora, porque seu nome é fácil de se pronunciar em qualquer parte do mundo. Além disso, é também de fácil memorização, até mesmo para as mentes mais esquecidas como a dela, já que o nome é composto por duas palavras repetidas.
 
Eu, claro, não poderia deixar de perguntar o significado de tal nome. Ela me contou que não há mistério, que o nome é tão simples quanto ela, e que não significa nada em especial. “E então por que sua mãe o escolheu?”. E Lai Lai, bem humorada, encerrou: “Ah, isso, só Deus sabe…”

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9 Comentários

  1. Julieta Jacob em

    Martha, na verdade, aquela que vc encontrou no supermercado não foi Lai Lai, mas Sana (não menos inspiradora do que Lai Lai). Ela que é absolutamente doida por brigadeiro! Lai Lai tb provou e gostou, mas certamente não lembra do nome do doce… hehehe

  2. Mais uma vez parabéns pelo texto!! Já estou virando fã do site!
    Já andava repensando sobre o valor da ignorancia, e Lai Lai vem pra nos mostrar que realmente, como ocorre em meus pensamentos nas últimas semanas, ela talvez seja uma benção! God knows e Lai Lai já sabia! Beijos!

  3. Daniela Jacob em

    Juba,
    “Lai Lai” duas palavras repetidas, pequenas e simples!
    Posso até arriscar que esse nome tem alguma coisa haver com “DaLai”… mas afirmo, sem medo de errar, que tem ele tudo haver com uma tal de Dona Neuza!!
    Beijos!!
    LINDO TEXTO!!
    Para guardar no coração!!

  4. Julieta Jacob em

    Minha irma Daniela,

    voce tem toda razao. Adorei a associacao dos nomes. Nao havia pensado em Dona Neuza, mas concordo 100%. Ela, assim como Lai Lai e Dalai, parecem nos dizer: “just keep it simple”

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