Nome Próprio | Os amores de Isabel

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Os amores de Isabel
Julieta Jacob
 
Sem entender, nada feito. Ela não consegue viver o que não entende. Por isso, tão logo algo de novo acontece, Isabel trata imediatamente de transformar tudo num jeito compreensível para poder continuar vivendo. Pra ela, as coisas não só podem, como devem ser explicadas. E se a razão por si só não dá conta de traduzir os fatos com clareza, ela recorre à superstição, ao espiritismo, aos orixás, ao que for, pois tem um forte lado místico e um sexto sentido apuradíssimo. Qualquer mistério “indecifrável” a incomoda como um pé calejado num sapato apertado. E, definitivamente, Isabel precisa caminhar em paz.
 
Assim ela é, e assim foi com todos os seus amores. A começar por Carlos, ou melhor, Carlinhos, como era chamado na época em que se conheceram, no início da faculdade. Não foi o primeiro beijo, mas a primeira grande paixão de Isabel. Com ele sentiu ciúmes, entendeu que fidelidade é uma opção de vida e conheceu os deliciosos segredos de prazer que o seu corpo guardava. Também aprendeu sobre a anatomia masculina, e constatou que os livros de Biologia do colégio eram mesmo muito limitados. Foram cinco longos anos de namoro e, se dependesse dela, teria sido pra sempre. No seu coração, aquele amor não tinha prazo de validade. No entanto, Carlinhos se sentia jovem demais pra incluir o “pra sempre” no seu vocabulário. Preferia deixar pra depois. Por enquanto, queria provar outros sabores, viver outros amores, fazer o quê? Chorar. Foi o que Isabel fez durante um mês inteiro, a ponto de precisar beber muita água para repor o tanto que lhe escapava pelos olhos. E até mesmo a hidratação reforçada teria sido insuficiente para mantê-la de pé caso Dona Elba, a avó de Isabel, não chegasse a tempo para estancar aquele sofrimento: “Minha filha, Carlos é nome de homem livre. Não adianta querer prendê-lo. Não viu o marido de Alcione, a vizinha? Bem casado, mulher dedicada, família estruturada, e o que foi que ele fez? Abandonou Alcione e os três filhos pra viajar por aí, pelo mundo. Ele também se chamava Carlos. E esse não é o único caso que eu conheço. Tenho 84 anos e já vi muita coisa nessa vida. Acredite na sua avó. Foi melhor o seu Carlos ter ido logo. Doeu, mas foi melhor. Ele iria de toda forma”.
 
As palavras da avó lhe soaram como uma verdade inquestionável. Numa sinapse própria dos que sofrem por amor, as frases de Dona Elba seguiram dos ouvidos de Isabel ao coração, que voltou a bater, e de lá partiram para ao cérebro, que se comunicou com os olhos, que pararam de chorar. Mal havia enxugado as últimas gotas de dor do rosto, Isabel já fugia de todos os Carlos como uma anoréxica diante de um prato de comida. Estava tranquila por ter uma explicação, porém sentia-se traumatizada. A partir daquele momento, qualquer um que tivesse aquele nome (que ela até evitava pronunciar), estava automaticamente bloqueado da sua lista de pretendentes. E as opções eram cada vez mais escassas. Geraldo, Frederico, William e Júlio. Todos, relacionamentos frustrados. A situação ficou ainda mais grave quando, por sugestão de sua avó, ela apelou para a religião e decidiu investir em Tiago, Lucas, Pedro, Paulo, João e Matheus. “São nomes bíblicos, minha filha, com certeza têm a bênção de Deus”. Isabel namorou todos, incluindo os 12 apóstolos, e nada… precisava de uma nova explicação para tamanha falta de sorte. E na busca incessante, acabou se dando conta de que, toda vez, nos meses que antecediam o fim de cada namoro, ela não conseguia dormir direito. Quando não tinha insônia, tinha muitos pesadelos. Era como se fosse um aviso, uma espécie de sinal que antevia o desfecho trágico e inevitável. Então, assim que começou a namorar Júnior, teve uma idéia: passou a dormir à base de comprimidos. Toda noite, sem que ele percebesse, ela ia discretamente ao banheiro e tomava a pílula que lhe garantia um sono sossegado e lhe devolvia a esperaça de um relacionamento duradouro.
 
O tempo passou. Os dois, cada vez mais felizes e companheiros. “Deu certo”, comemorou secretamente, agradecendo aos céus pela invenção da indústria farmacêutica. O que ela não sabia é que há meses Júnior havia substituído seus remédios por pílulas de açúcar. Isabel estava tão preocupada com as tais explicações e com o sucesso do relacionamento, que nem se deu conta. Ele sim, percebeu que o problema dela não eram os nomes nem o sono inquieto. Aos 35 anos, Isabel tinha medo do amor. Depois de ter conhecido o desprazer do seu reverso, ela tinha medo. Não queria mais sofrer, nem com o corpo, muito menos a alma. Por isso, inconscientemente, havia tranformado todos os nomes masculinos em Carlos, justo o que não a merecia, só pra ter uma razão de não se entregar por completo a nenhum deles. As pílulas de açúcar serviam para Isabel não admitir que estava enfim apaixonada. E também para não encarar que a vida, de forma ousada, estava desafiando as suas preciosas explicações. Júnior se chamava Carlos e, ao contrário de todos os outros, ele não queria ir embora.

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