Nome Próprio | Os próprios nomes

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Os próprios nomes
Julieta Jacob
 
“Mamãe, vem ver aqui quantos litros eu tenho!”, chamou a menina encostada na porta da quarto, colocando a mãozinha sobre a cabeça. 01 litro ou 10 ml? A resposta em si pouco importava, mas era indispensável que existisse alguma réplica para aquela pergunta inquietante. Lara queria saber a sua altura. Não em metros, como manda a convenção universal, mas em litros mesmo. A mãe olhou a marca na porta, dispensou qualquer unidade de medida e concluiu: “Filha, você já está virando uma mocinha!”.
 
Era exatamente o que Lara queria ouvir. Mal alcançava o trinco da porta, mas não tinha problema. Era uma mocinha e pronto. Mocinha, porém, que adorava brincar de bonecas. E, certa vez, decidiu provocar a amiguinha: “Minha boneca é muito maior do que a sua”, desafiou. “Duvido, olha aqui!”, apostou a amiguinha, colocando uma ao lado da outra e mostrando que a sua boneca tinha o dobro da altura da de Lara. Depois de analisar atentamente, Lara não se convenceu e treplicou: “Nada disso. A minha é maior. Ela tem 100 mil quilômetros de dólares!!”. A batalha estava mesmo perdida. Por mais que tentasse, a amiguinha não teria um contra-argumento capaz de derrubar o que ouviu. De que adiantava ter a maior boneca do mundo, se Lara tinha a seu favor as palavras? Contra elas, ficou impotente.
 
E olha que Lara nem conhece muitas. Com apenas quatro anos, é curto o seu vocabulário, mas vasta a sua imaginação. Se não sabe a palavra certa para o quer dizer, combina as poucas que já aprendeu e cria novos significados. São os seus próprios nomes que a ajudam a dar sentido ao que vê, ao que sente. Pra ela, o “pum” mais alto do universo, por exemplo, não tem infinitos decibéis, mas sim 100 mil polegadas, já pensou? E garanto que ninguém duvida que é mesmo capaz de explodir os tímpanos! É que apesar do troca-troca e dos superlativos impensáveis, esse dicionário ingenuamente inventado traduz o mundo com simplicidade e coerência. Afinal, o que é a vida se não também uma grande invenção? Agora eu, pelo menos, não inventei absolutamente nada. Lara existe de verdade. Ainda bem.

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