Nome Próprio | Perfume

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A explicação vem disfarçada, embutida nas últimas três letras do país onde ela nasceu: Equador. Foi lá que ela se casou e engravidou duas vezes, e de cada barriga, uma menina. Diana teria se dado por satisfeita. Era mulher de pensamento modesto, de poucas exigências, de felicidade sem maiores complicações. Além disso, a maternidade havia lhe trazido ocupação bastante pra nem ter tempo de pensar em mais nada que não fosse aquilo mesmo que estava vivendo. Mas a boca bêbada do marido alcóolatra teimou em sufocar a paz que tinha tudo pra existir naturalmente. Dela, só saíam frases assassinas em volume incômodo, daquela boca fedida que não conhecia beijos nem palavras doces. Maldita língua trêmula e descordenada à procura de ofensas e queixas; maldita saliva branca encharcada de agressividade.
 
O cheiro da casa tornou-se ácido. Não só o hálito, mas a presença daquele homem poluía o ar a um ponto que narinas e pulmões se recusavam a aceitá-lo. Ele era uma espécie de anti-vida, de dissabor, de ressaca. Asfixiada, Diana farejou uma salvação, saída que a levou pra longe. Pegou carona num vento forte que varreu o Equador rumo à América do Norte e voou para Toronto com as duas filhas e uma pequena mala, enquanto o ex-marido dormia, em silêncio.
 
O começo da nova vida foi difícil. Somente depois de três anos fazendo faxina pra conseguir pagar as contas, Diana percebeu que havia, também, limpado a si mesma: já podia respirar aliviada. Foi um sopro de outono que trouxe até ela o seu atual marido, um italiano que a ajudou na criação de suas meninas, agora já mulheres. Quinze anos depois de sua chegada ao Canadá, Diana não perdeu o jeito simples, tampouco o sorriso fácil e tímido. Hoje em dia ela cuida de idosos, profissão que exerce já perto da sua sexta década de vida. Encontrei-me com ela numa loja no centro de Toronto, quando me disse que aqui na América do Norte ela conheceu, pela primeira vez, o que significa viver em paz. Enquanto conversávamos, ela escolhia loções hidratantes e sabonetes perfumados. Apresentei-lhe diversas opções de aromas, mas Diana parou em frente à estante de cor violeta e ali ficou. Levou um pote de creme ao nariz e respirou fundo, como se quisesse que o cheiro invadisse todo o seu corpo por dentro. Em seguida, colocou um outro produto numa das mãos e cheirou a pele suavemente perfumada. O prazer estampado no seu rosto revelou que o seus sonhos têm cheiro de lavanda.
 
E a explicação vem disfarçada, embutida nas letras do seu sobrenome: Diana Flores, definitivamente, não nasceu para a dor. É mulher-primavera.

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