Nome Próprio | Sono

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Na segunda garrafa, as pálpebras ficaram pesadas. Não menos de três segundos entre o fechar e o abrir dos olhos. Os cílios se tocavam demoradamente, como se aproveitassem o encontro para trocarem carícias. A bebida nem era tão forte, ela é que era sensível demais. Uma mistura doce de vodka com sabor artificial de morango, que mais parecia uma sobremesa gelada. Ela havia acabado de preparar uma massa com frango ao molho de tomate seco e muita pimenta. Seu paladar veio do Paquistão, onde nasceu, moldado à base do tempero quente da mãe. Comida sem pimenta, é comida sem gosto, me disse. Ao contrário do que costuma fazer, naquela noite ela colocou pouca comida no prato. Quando sentou para jantar, as duas velas na mesa iluminaram a sua pele, que ficou ligeiramente dourada. Uma música dos anos 70 tocava baixinho. Antes de provar a receita recém-saída do fogo, ela abriu a segunda garrafa, já que a primeira havia bebido enquanto cozinhava. Do pouco que tinha no prato, comeu menos ainda. Conversou de olhos bem abertos, de um piscar tão rápido que nem se via. Mas, nos últimos goles, ela deu claros sinais de que a tal bebida, embora doce, não devia ser confundida com sobremesa. A garrafa, ela mal equilibrava na mão de dedos curtos e unhas irregulares. Levá-la até a boca era a mais difícil das tarefas. Ela estava pesada por inteiro, embora de uma leveza de algodão. Aos poucos, a boca desacelerou o ritmo pra acompanhar o movimento vagaroso das pálpebras. O ar lhe entrava suave pelas narinas, invisível.
 
Garrafa vazia, os cílios grudaram num abraço profundo. Os olhos, ela não mais abriu. Continuava sentada, cabeça erguida e rosto iluminado pela chama quente feito tempero paquistanês. Não sentia mais o gosto, não ouvia mais a música, não percebia mais a luz da vela tão próxima. Ela não tinha mais 24, mas 9 anos de idade:
 
– Mãe, me protege. Eu tenho medo. Se eu te disser que aquele homem me fez mal, aquele que veio cuidar do jardim, você acredita em mim e jura que não vai brigar comigo?
 
– Filha, você pode me contar tudo, não tenha medo. Eu não vou brigar com você, pelo contrário. Se ele te fez mal, é porque eu não estava lá pra te defender. Por isso, peço desculpas. Você me perdoa? Nunca mais vou te deixar sozinha.
 
– Eu tenho vergonha de dizer o que ele fez, porque acho que é feio, e sei que foi algo ruim, porque doeu. E não foi a primeira vez.
 
– Isso não vai acontecer de novo. (Vergonha maior sinto eu. E como dói).
 
– Mãe, todos os homens são maus?
 
– Não, filha, apenas alguns fazem maldades, são cruéis. Mas também existem muitos de bom coração. Mais tarde, quando você crescer, vai entender melhor, não se preocupe. Enquanto isso, vem cá, deita a cabeça aqui no meu colo. Deixa que cuido de você, meu amor.
 
A menina nada disse, apenas obedeceu. Abraçou a mãe tão forte, que parecia gritar eu te amo. E a mãe alisou os cabelos da filha, umedecidos por lágrimas, enquanto tentava, ela própria, conter as suas. Embalada pelo carinho protetor da mãe, as pálpebras da menina ficaram pesadas. Não menos de três segundos entre o fechar e o abrir dos olhos. Os cílios se tocavam demoradamente, como se aproveitassem o encontro para trocarem carícias. O som dos dedos deslizando por entre os fios do cabelo produzia uma canção de ninar. Assim ficou durante alguns minutos, até que os cílios grudaram num abraço profundo. Sana adormeceu.
 
(…)
 
Abriu os olhos como se já fosse outro dia. Bocejou procurando a luz do sol através da janela. Era noite. Estava sentada à mesa. Garrafa vazia e resto de comida no prato. Sabor apimentado na boca. Uma música que tocava baixinho e a lembrança de um diálogo que nunca aconteceu.

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5 Comentários

  1. Daniela Jacob em

    Como uma boa comida picante (que eu adoro!!!)… Arde e queima no começo, mas depois dá uma sensação de alívio e prazer!!
    LINDO!!!
    Beijos!!
    Te amo!!

  2. Thiago Corrêa em

    “os cílios se tocavam demoradamente, como se aproveitassem o encontro para trocarem carícias” – muito bom isso. mas nem a tua delicadeza com as palavras pra deixar essa história menos indigesta, ainda mais quando se pensa que realmente aconteceu. esse foi um soco no estômago.

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