Nome Próprio | S.O.S

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S.O.S
Julieta Jacob

Socorro, desde criança, ouvia seu nome na boca de adultos. Nunca teve a chance de ganhar um apelido ou ao menos um diminutivo que aliviasse um pouco o peso daquela palavra: socorro!! Por falta de opção, aceitou seu destino sem questionar, pois nunca soube que a vida era feita de escolhas. Aprendeu cedo que seu nome era também um pedido acompanhado de exclamações, e prometeu a si mesma atender a todos que estivessem ao seu alcance.

A ordem das coisas, ela não sabia bem: se foi o nome que lhe conferiu uma capacidade especial de resolver problemas, ou o contrário. O fato é que, ao ser chamada, o som que penetrava nos seus tímpanos acionava dentro dela uma sirene de emergência. Socorro partia apressada, como uma ambulância nervosa numa avenida engarrafada. Cedia o ombro, emprestava os ouvidos e até lágrimas, dava uma mãozinha e também conselhos. Aproximava irmãos, reconciliava vizinhos, buscava soluções para os outros. Estava sempre disposta a ajudar.

Filhos criados, marido morto, família distante… muitos anos passaram e Socorro já não tinha tanta pressa. Nada lhe era urgente como antes. Renda fixa por mês e nenhuma preocupação séria. A vida se organizara de tal forma, que virou um quase-tédio. Os dias seguiam em linha reta, geométricos. Por mais que tentasse, não encontrava (nem dentro, nem fora de si) possibilidade concreta de que tamanha monotonia fosse interrompida. À medida que não ouvia mais o seu nome romper o silêncio, foi se trancando em sua solidão. Tampouco queria chamar alguém. Ali, naquele apartamento onde tudo era tão artificialmente previsível, ela se sentia perfeita, porém inútil. Não havia “de repente”, nem “por acaso”; sonhos, visitas, expectativas. Apenas três refeições e oito horas de sono. No coração, uma dúvida: pedir socorro?

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