Nome Próprio | Tempo

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Você tentou me avisar, eu sei, que a vida passa depressa. E sempre estalava os dedos pra demonstrar que os anos voam assim, “clic”, num estalo, num sopro, ou num piscar de olhos. “Carpe diem, meu amigo, que o tempo urge!”. Mas isso porque você sabia, então podia afirmar com convicção. Você tinha 84 anos, teve tempo de aprender a medida exata de uma vida, e eu, era ainda jovem demais, achava-me imortal e não era capaz de encarar a vida em ordem cronológica. Observava o seu rosto enrugado como algo distante que nunca iria acontecer comigo. Mas você tinha certeza que o tempo corre mesmo rápido e é implacável, irreversível. Nunca se viu até hoje quem tenha recuperado um só segundo de volta. O instante em que a criança aprende a andar, já era. O momento em que o botão se abre em rosa, é também passado. As palavras ditas ao pé do ouvido, dissiparam-se ao vento. Tudo tão assim, fugaz. Amanhã será uma nova descoberta. A vida só anda pra frente, em movimento acelerado e com a força de um caminhão ladeira abaixo, você me disse.

Até completar 30 anos, eu achava que tinha tempo demais. Que tinha tempo suficiente pra perder alguns anos sem, no entanto, desperdiçar uma vida inteira. Na minha história, até então só existiam começo e meio, sem lugar para desfechos. Com o nascimento do meu filho, aprendi muita coisa. A começar pela fecundação, mágica que acontece em milésimos de segundo, seguida pela gestação, em que uma vida tem 9 meses pra ficar pronta. Vê-lo crescer me deu uma ideia precisa sobre o tempo, que nem mesmo o testemunho da mudança das estações do ano foi capaz de me ensinar. O primeiro dente, o primeiro passo, a primeira palavra, o primeiro dia de aula, o primeiro amor. Cada instante perto (ou longe) dele fazia diferença. E, de um dia pro outro, meu menino era homem e eu tinha rugas como as suas. Foi quando me tornei um mortal, e entendi pela primeira vez o significado daquele seu estalar de dedos. A vida não são números, mas um conjunto de acontecimentos. 365 dias, 12 meses e 24 horas não passam de uma matemática vazia, que nos obriga a uma contagem cruel e regressiva do tempo: cada ano a mais é, também, um a menos.

Você não tem mais pressa, e eu finalmente aprendi a viver. Desisti de correr contra o tempo, pois sei que é em vão. Os ponteiros do relógio são invencíveis e me empurram adiante, ao encontro de uma nova manhã. Agora que eu cheguei até aqui eu sei, como você, que a vida passa mesmo depressa. Por isso, faço valer o carpe diem, gozo todos os meus dias, minhas horas, meus segundos. Mas a noção de futuro é traiçoeira: sei que não tenho mais todo o tempo do mundo, mas quanto tempo será que ainda me resta?

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7 Comentários

  1. Carol Agnolon em

    Mme Jacob! Adorei, mais uma vez! O tempo não corre, ele voa… então venha nos visitar logo!!
    Bjoss e parabéns!

  2. Cláudia Lucena em

    É sempre bom ler Juba Jacob. Sempre temos uma lição a tirar. Carpe diem, minha linda!!! Beijossss com o calorzão do Reeeecife.

  3. André Durão em

    Juba,

    belo texto, como sempre. Inspirador, para ser lido no começo de todos os dia!
    Bjabraço!

  4. Pô, Juba, fiquei surpreso dessa vez. Gosto dos seus textos, mas nesse você foi além. Tô besta aqui, deixei passar esse texto quando foi publicado, aí ele vem e me diz, de uma forma doce e corrosiva, que nessa correria da vida minhas escolhas estão equivocadas.

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