Nome Próprio | Uma dor

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Uma dor
Julieta Jacob

Sofreu e sofreu. Seu corpo começou a rejeitar cada carinho trocado naquela segunda-feira. E foram muitos. Fortes, intensos. Agora, escorregavam pelos poros, escorriam pelas pernas, eram levados pelas lágrimas. E como doía o corpo quente, inflamado. Enquanto o marido dormia alheio àquele sofrimento, Judite acocorou-se sob a água fria que caía do chuveiro. Estava só. Com ela, apenas o lamento de ver tanto amor ir embora pelo ralo. Nada podia fazer. Chorou. E chorou. Já não sabia o que pensar. Não podia barrar o que estava dentro dela querendo sair. Do contrário, os sentimentos nutridos, guardados, começariam a apodrecer. Como num aborto provocado, Judite fez força. Expulsou o que Jorge havia deixado dentro dela. Era tarde. Nem se ficasse oca estaria limpa. Jorge era uma metástase. Seria preciso morrer. E nascer de novo. Os carinhos trocados naquela tarde, naquele motel rabugento eram pra sempre. Cada toque virou uma marca na sua alma. Os beijos ficaram impregnados no seu pensamento. Judite rezou e rezou. Em silêncio. Em vão. Sabia que não era uma questão de tempo.

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