O africano – J.M.G. Le Clézio

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A busca pelas origens

A cada ano, quando a Academia Sueca anuncia o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, a pergunta “quem é esse(a)?” ecoa pela mente dos brasileiros. Um bom começo para se descobrir a resposta em relação ao escolhido de 2008, o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, é lendo seu livro O africano. Apesar de ser baseado nas memórias do autor, o volume não se trata de uma autobiografia propriamente dita. O foco aqui é outro, o pai de Le Clézio.

O tom não é de nenhum acerto de contas ou desabafo como o de Franz Kafka em Carta ao pai. Pelo contrário, Le Clézio adota uma entonação de filho, que não chega a ser solene, embora se revele uma visão respeitosa de quem procura entender a transformação do pai num homem rígido. Mais que isso, é uma tentativa de descobrir suas próprias origens a partir da figura paterna, remontando as trajetórias de pai e filho até o encontro e o consequente convívio conturbado.

O autor francês deixa em segundo plano os traumas dessa relação difícil para, a partir de fotos, conversas, mapas e diários do pai, resgatar a aventura dele, como médico recém formado, primeiro pela América do Sul e em seguida pelo continente africano. Enquanto destrincha o percurso solitário do pai pela Guiana, Camarões e Nigéria; Le Clézio remonta sua infância na Europa do pós-guerra, que apesar da recessão econômica, ainda resguardava o mínimo de condições necessárias a cidadãos de origem ocidental.

O escritor desenvolve a narrativa fazendo esse contraponto entre as duas realidades, sendo exploradas tanto na relação íntima familiar, como nas observações de um garoto com educação européia que, de repente, vê-se diante da vastidão pulsante da vida selvagem africana, com hordas de insetos querendo invadir a sua casa à noite. Por esse olhar inicialmente infantil, mas já com os devidos retoques feitos pela maturidade intelectual de Le Clézio, temos acesso a esse encontro instigante e, ao mesmo tempo, repleto de conflitos culturais e morais.

Embora não seja um exemplo de primor literário, repleto de frases engessadas, O africano impõe seu valor graças à profundidade das análises feitas pelo autor. Com a vivência de ter passado anos na isolada Nigéria do fim da década de 40, Le Clézio consegue traduzir assuntos pesados como os absurdos da lógica colonialista com a sinceridade de exemplos íntimos e lembranças de infância.

Nesse sentido, os relatos do jovem Le Clézio destruindo ninhos de cupins, sob os olhos temerosos dos amiguinhos africanos, servem como metáfora para a perversidade dos colonos e o desprezo dos dominantes para com as crenças e valores dos povos locais. Diferenças culturais que aparecem com igual força no menino francês em sua descoberta do próprio corpo, através do simples gesto de pisar o chão com os pés descalços; mas que, ao mesmo tempo, essas arestas se revelam irrelevantes na fácil relação de amizade construída entre crianças.

Thiago Corrêa
lido em Dez. de 2008
escrito em 31.03.2009

: : TRECHO : :
“Quanto a nós, éramos selvagens como jovens colonos, certos de nossa liberdade, de nossa impunidade, sem responsabilidades, sem os mais velhos. (…) Com o coração disparado, a violência irrompia em nosso fôlego e, apanhando paus e pedras, batíamos, batíamos, púnhamos abaixo partes daquelas catedrais, por nada, simplesmente pelo prazer de ver subir as nuvens de poeira, ouvir a derrocada das torres, o ressoar das pancadas na rigidez das paredes, para espiar, quando elas se abriam à luz, as galerias vermelhas como veias onde uma vida nacarada e pálida fervilhava” (p. 27).

: : FICHA TÉCNICA : :
O africano
Jean-Marie Gustave Le Clézio
Tradução: Leonardo Fróes
Cosac Naify
1a. edição, 2007
136 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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