O amor nos tempos de cólera – Gabriel García Márquez

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Confesso que só terminei de ler um García Márquez há dois meses. Para não precisar desculpar-me, devo esclarecer a minha crença pessoal e ferrenha de que a arte, por ter uma relação estreitíssima com a subjetividade tanto do artista quanto do “espectador”, somente consegue firmar a ponte do entendimento no momento certo para que ambos os pólos dessa relação miraculosa possam compreendê-la. Ou, colocando as coisas de outro modo, tudo — mas principalmente a arte — tem seu momento certo e preciso para operar magia.

Quando comecei a ler Cem Anos de Solidão pela primeira vez (há mais de dois anos), é claro que reconhecia a boa literatura, mas minha compreensão do texto não passava dessa secura analítica, e por isso resolvi deixá-lo de lado temporariamente e esperar uma oportunidade. Esta surgiu há uns três meses, no meio de um período turbulento em minha vida. E o milagre aconteceu.

Mas não vou falar de Cem Anos de Solidão, claro. O intróito serviu como gancho para explicar por que, antes mesmo de terminá-lo, já tinha comprado O Amor nos Tempos do Cólera. Foi a primeira frase do livro que me fez sua leitura uma obrigação sentimental — “Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados”. Foi um baque de olhos arregalados e depois alguns passos resolutos ao caixa da livraria.

O livro é uma longa e intensa poesia em forma (quase não disfarçada) de prosa. Não é simplesmente uma estória de amor mal resolvido, ou de tantas formas de amor quanto possíveis e reconhecíveis. É uma verdadeira epopéia sobre as relações humanas, lindas todas, brutas e delicadas, enaltecedoras e humilhantes. Florentino Ariza, mais que um homem determinado a passar décadas medindo os passos para conquistar Fermina Daza, contra todos os percalços que a vida ou a sua própria amada impunham contra ele, é, no fundo, todos nós.

Quem nunca escreveu cartas de amor que nunca acabaram sendo enviadas? Quem nunca procurou em outras camas o calor que sonhava encontrar na única impossível? Quem nunca sentiu o aperto de ser fria e obstinadamente ignorado justamente pela pessoa por quem vertemos nosso encantamento? Quem nunca chorou de desilusão?

Florentino Ariza se apaixonou por Fermina Daza (a quem nunca havia sequer tocado) ainda na adolescência, e o namorico à distância dos dois, recriminado com pavor pelo pai dela, durou anos de persistentes cartas e mensagens de devoção. Quando Fermina Daza, tempos depois, dá-se conta de que o amor que julgava sentir era inventado, e se alimentava de ilusão imaginada, repele energicamente seu pretendente, que, a partir de então, teve que esperar por exatamente cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias para propô-la em casamento. Na primeira noite após o enterro de seu marido.

Mais que uma dor de cotovelo prolongada, a espera de Florentino Ariza é o fio condutor de sua vida, e a estória é tão poderosa principalmente porque nunca, em todos aqueles anos e ainda depois de outros, ele fraquejou. Acordava e dormia todos os dias com a convicção inabalável de que teria Fermina Daza junto a si. Não, mais do que isso: sua mocidade, vida adulta e boa parte de sua velhice foram somente uma preparação, estóica, comovente e profundamente apaixonada, para o dia em que Fermina finalmente o aceitasse.

É a partir daí que García Márquez, gênio latino-americano da literatura fantástica, desenovela seu texto fluido, carinhoso, e nos confia as amarguras e delícias do amor. Aquele surgido da admiração, da amizade, da necessidade, das dores, da força do sexo, da solidão. O amor que é um convite ao mundo pessoal de cada um de nós. O livro é uma homenagem ao que há de mais humano e nobre, numa narrativa que nunca se permite descambar para a tristeza sentimentalista ou tormentosa; é sempre sensível e tocante, mas sobretudo leve.

Quem nunca se apaixonou, que atire a primeira pedra. O Amor nos Tempos do Cólera é o amor de sonho que parece faltar nos áridos tempos atuais, em que já não se tem mais a certeza de que os olhos falam (e fazem poesia), em que o medo do amor nos condena à solidão e ao esquecimento. Aos apaixonados, aos que querem se apaixonar, ao que não correspondem às paixões que lhes são devotadas: recorram às lições de humanidade do professor García Márquez e procurem reconhecer o Florentino Ariza que habita, calado e esperançoso, dentro de suas almas.

Aline Arroxelas
lido em Jan. de 2004
escrito em 22.01.2004

: : FICHA TÉCNICA : :
O Amor nos Tempos de Cólera
Gabriel García Márquez
Record, 21a. edição, 2001
429 páginas

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Sobre o autor

13 Comentários

  1. André costa em

    Se o LIVRO for como o filme … uma paixão tola de jovens, a obscessão ridícula do protagonista promíscuo e , finalmente, uma transa de velhos num barco … sinceramente, não é este o meu ideal de romance, nem sonho, seria um pesadelo do qual eu gostaria de acordar … mas “gosto é gosto” seja em literatura, cinema , artes em geral …

  2. Ciça Buendía em

    É fantástico ler comentários desse naipe acerca de uma das mais belas obras desse incomensurável escritor. Parabéns pela sensibilidade com que expõe sua análise! Creio que esse lirismo está realmente em baixa na crítica literária. Aplaudo-te cada vez que te leio!

  3. Quanto ao primeiro comentário, sem comentários…Ou melhor: 1. O filme fica bem aquém da genialidade do livro. Mas dizer que é uma paixão tola de jovens, uma OBSCESSÃO (SIC) ridícula do protagonista promíscuo…mostra que o autor (do comentário, claro), além de desinformado, inculto e desrespeitoso, nunca, nunca na vida se apaixonou. O que será que ele assiste no cinema? Máquina Mortífera? Velocidade Máxima? Porque ler, acho que não lê.
    2. O amor nos tempos do cólera é um dos maiores clássicos da literatura contemporânea mundial. Mas isso, não é pra qualquer um entender. Como ele disse, “gosto é gosto”. e mau-gosto também.

    PS: Aline adorei seu texto.

  4. Vanderson Carvalho em

    André tu não sabe interpretar nem um filme imagina o livro…kkk

    opinião mas idiota…mas respeito.

    O filme é legal…o livro é perfeito…poucas vezes me emocionei tanto e vivi tanto um personagem como Florentino…ah kd minha Fermina??

  5. Livro maravilhoso. A forma como lida com o amor na sua faze mais realista, contrapondo ao amor utópico hollywoodiano é maravilhosa. Garcia Marquez é um grande dominador da narrativa. Consegue passar o fico narrativo da obra de um personagem a outro com maestria, fazendo-nos apegar a cada um dos personagens independente de suas personalidades. Consegue fazer-nos identificar com cada personagem mesmo sendo todos muitíssimo diferentes. Parabéns Marquez!!

  6. Célia Almeida em

    Aline,
    Sua análise é perfeita, bonita, quase poética. Sou uma leitora inveterada de vários autores. Mas Gabriel Garcia Marquez é maravilhoso e “o amor nos tempos do cólera” me deixa sem palavras. Sempre vou lá, tiro da estante e releio algumas páginas e sempre me emociono. Sou completamente apaixonada por esta obra a ponto de nunca ter visto o filme homônimo pra não correr o risco de me desencantar. Parabéns pelo seu texto e pela sua sensibilidade.

  7. Daniel Barreto em

    Celia,

    pensei que fosse o único a cometer essas “loucuras”…de procurar o livro na estante, abrir uma página qualquer e mergular naquelas frases perfeitas, um delírio para a alma, uma mão suave a acariciar seu coração. O Amor nos Tempos do Cólera é um livro para toda vida, intenso, tocante, sensível, surpreendente, magnífico.
    Aline, seu texto, escrito com a alma, reflete de forma magistral o sentimento de quem lê essa obra-prima!

  8. Li o livro e li o seu comentario sobre o mesmo Aline. Coerente, pertinente, sensato e de uma sintese contundente. Adoro Gabriel Garcia Marquez ele e de uma inspiracao magica. O livro – O Amor nos tempos de colera nos traz a condicao humana, que nao mudou em Machado de Assis, nao mudou quando crucificaram Jesus Cristo e nao mudou em Garcia Marquez. A condicao humana e paradoxal, assim, o amor eh paradoxal, a vida eh paradocal e nem por isso, menos bela. Assim, o romance nos abre o leque das relacoes humanas em suas distintas nuances. Quem comentou que uma obra classica eh de mau gosto, nada entende de literatura. Mas nao causa -me estranhamento a infeliz colocacao, estamos carentes de mentes pensantes.

  9. Na verdade todo este amor, deixa de um amor platônico e passa a ser uma patologia, de um exagero que nos deixa muitas vezes iludido com as pretensoes amorosas, Daza, firme em sua posiçào se coloca como a fêmea decidida e caça a sua prenda preferida, uma análise simples, como ja foi dito nao nos levará a lugar algum, pois o enunciado do fantástico na escritura de Gabriel Garcia Marques, exige muito mais que uma simples leitura do romance, ir além dos crítidos e do texto todo artesanal que é constituido.
    Adoraria receber estudos de GGM, estou com projeto no Mestrado em relacao a sua escritura, do pathos da desconstrução e de suas narrativas.

  10. para uma estudante em pleno seculo 21 esse livro ate podia parecer ridiculo,mas não o autor é completamente incrivel e nos insere em um mundo dentro do qual não vivemos e vivemos ao mesmo tempo, a mim me fez repensar que amor é esse dos nossos dias e de quanto somos capaz de mudar por um objetivo,e de que nossas vidas vão acontecer e algumas coisa ficaram sempre em nossa memoria esperando pra ser revivida ou começa-la de onde demos um stop, ademas de um livro de amor um livro sobre a vida , Gael (como diria a minha profe de espanhol) íncrivel !

  11. História romantica como qualquer outra! A descrição e construção do ambiente do livro é apaixonante e este é meu livro preferido.

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