O bom e o mal do bem (parte 2)

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II

OS INVISÍVEIS

Atualmente, com o fortalecimento dos movimentos de gênero, LGBT e feminista, estamos vivenciando quebras do sistema binário de identidade, homem/mulher, ao qual fomos educados na nossa convenção do saber social patriarcal. Com formações só para mulheres onde elas se conhecem, trocam experiências, fazem vivências de descoberta e reinvenção do corpo, do intelecto, de postura social, os movimentos feministas atuam voltando tudo isso para o empoderamento das mulheres enquanto grupo e para que, através da união, “juntas somos fortes”, o movimento ganhe força revolucionária. Muitas das atividades de grupos feministas são pautadas no fortalecimento da identidade de mulher através de suas demandas mais genuínas, na quebra de paradigmas sociais de submissão e na construção de uma sociedade onde o gênero não interfira nos direitos democráticos.

Já que falei de democracia… é importante entender seu surgimento para compreender como se colocam os movimentos sociais num sistema democrático. O conceito de democracia surgiu na Atenas da Grécia antiga e sugere, como em sua etimologia– demos povo e kratos poder – uma governabilidade onde o poder esteja no povo. A primeira coisa que devemos ter em mente ao pensarmos Democracia é sobre quem era o demos na sociedade grega. As mulheres não tinham poder social, inclusive tanto na Grécia quanto na Roma antigas não havia problemas em relacionamento entre homens, os tidos como iguais. As mulheres nas sociedades antigas sempre foram instrumentos de troca de bens, meios de reprodução e produção de herdeiros. Sendo assim, as mulheres não faziam parte do Povo. A conceitualização de Democracia data de +-500 anos a.C. O primeiro país a conceder direito de voto a uma mulher, ou seja, reconhecimento de representatividade política, foi a Nova Zelândia em 1893 d.C.  No Brasil, esse direito só foi conquistado em 1932 d.C., não temos, portanto, nem um século de reconhecimento político enquanto mulheres no nosso país. Os escravos, serviçais e demais vassalos do Estado também não faziam parte do povo que deu origem ao conceito de Democracia. Eles, na verdade, tinham a obrigação quase divina de zelar, manter e servir seus súditos, donos, carrascos, o que seja. Retomando A Partilha do sensível de Racière “O animal falante, diz Aristóteles, é um animal político. Mas o escravo, se compreende a linguagem, não a ‘possui’. Os artesãos, diz Platão, não podem participar das coisas comuns por que eles não têm tempo para se dedicar a outra coisa que não seja o seu trabalho. Eles não podem estar em outro lugar porque o trabalho não espera. […] Assim, ter esta ou aquela ‘ocupação’ define competências ou incompetências para o comum. Define o fato de ser ou não visível num espaço comum […]” Então já temos aí, desde a configuração do conceito democrático, dois grupos sociais que não mereciam ser iguais, ou simplesmente não eram vistos ou percebidos. Eram seres invisíveis, abjetos sociais, visto que entendia-se por Povo os homens, e tão somente homens do gênero biológico masculino, não escravos, ou, os homens de bem de uma nação. Entre eles se dava o processo democrático. Os movimentos sociais, desde sua insurgência, vêm a tona para esgotar invisibilidades. Para que os seres abjetos (me apropriando do termo usado pela contemporânea filósofa americana Judith Butler) comecem a ser vistos, reconhecidos e tenham direito a voz e representatividade no meio social onde vivem. Há uma frase emblemática no movimento feminista que diz: Feminismo é a ideia radical de que as mulheres existem.

Segundo a linha de pensamento filosófico de Judith Butler, a partir do momento que nos apegamos por demais à uma identidade, limitamos nossa potencialidade. A partir do momento que recorremos demais a outrem (ao Estado por exemplo) por reconhecimento de nossa identidade, transferimos para eles o poder sobre o governo de nós mesmos, recaindo sobre esse outrem a autonomia que deveria ser nossa. Ao não alcançarmos esse reconhecimento, não nos sentimos representados e rivalizamos, ampliando abismos entre a convenção social normativa, ou o que se entende por “normalidade”, e as singularidades de cada indivíduo. Quando os seres abjetos insurgem socialmente, muitas vezes chegam com uma energia violenta de conflito e não de negatividade potente. O “ser” se subjuga ao “preciso ser reconhecido pelo que sou, aí então, de fato, serei”. E o binarismo das identidades reforça os conflitos e atrasa os avanços de integração social. O que a Butler propõe é que haja uma quebra definitiva nas identidades. Mas que identidades? Como se formam as identidades? Um dia, conversando com uma amiga poeta que estuda questões em torno do direito à memória, ela disse algo como quando você tem memória você tem identidade. Sendo assim, onde está a memória responsável pelos arquétipos identitários que se propaga no mundo contemporâneo? Quem guarda e relata essa memória por gerações no escopo dessa civilização globalizada de consumo que vivemos hoje? Gosto quando Foucault, naquela mesma coletânea de entrevistas citada anteriormente (parte I – O discurso invertido), diz “Creio que a identidade é uma das primeiras produções do poder, desse tipo de poder que conhecemos em nossa sociedade. Eu acredito muito, com efeito, na importância constitutiva das formas jurídico-político-policias de nossa sociedade. Será que o sujeito, idêntico a si mesmo, com sua historicidade própria, sua gênese, suas continuidades, os efeitos de sua infância prolongados até o último dia se sua vida, etc., não seria o produto de um certo tipo de poder que se estende sobre nós nas formas jurídicas antigas e nas formas policiais recentes? É necessário lembrar que o poder não é um conjunto de mecanismos de negação, de recusa, de exclusão. Mas, efetivamente, ele produz. Possivelmente, produz até os próprios indivíduos.”

Observando a força dos movimentos de gênero, por exemplo, ao esgotar invisibilidades, noto a criação de uma pluralidade identitária que as vezes me parece tender ao infinito, e talvez seja mesmo esse o caminho: a diversidade plena num universo de seres singulares em um espaço coletivo. Mas parece que ainda estamos em processo e o apego às identidades formatadas faz com que numa neurose compulsiva ainda sejam criadas categorias que parecem inesgotáveis. Hoje não se diz mais Sou Mulher, e sim Sou Mulher, Branca, Cisgênero, Bissexual, Interseccional, … segue. Nesse caminho para o diverso ainda parece preciso encontrar uma caixa diferenciada e agrupar-se com seus iguais, diferentes de um todo normativo. Os feminismos, que sempre puseram em pauta o Ser Mulher para além das convenções patriarcais e que sempre foram plurais em suas essências, para além de serem categorizados por classe, raça, tipo de trabalho, geografia, agora encontram novas categorias como o feminismo trans, que quebra a premissa fundadora feminista por ser protagonizada por um homem biológico que nega o papel social de homem, alguns reproduzindo performaticamente o papel e a persona de uma mulher, outros preferindo não se enquadrar em papel nenhum e sendo uma mistura dos dois ou mesmo uma persona completamente nova. O universo trans em si já tem milhares de categorias como travestis, transexuais, crossdresses, e questionamentos sobre até que ponto fazer ou não fazer a cirurgia de mudança de sexo faz uma trans ser mais ou menos mulher. A condição de homem ou mulher estaria no sexo ou numa construção social? A urgência em quebrar com as amarras do patriarcado faz com que surjam fortes e violentas imagens que o contradizem. Recentemente fui à minha ginecologista, que é uma mulher maravilhosa, e ela me questionou sobre o comportamento de um parente seu, do porquê dele precisar sustentar uma imagem tão violenta por ser homossexual, na forma de se vestir e se portar. Na hora respondi que isso talvez se dava por um processo autoafirmativo. Mas depois que saí do consultório pensei que minha resposta deveria ter sido outra: Porque você se sente agredida pela imagem que ele levanta? Em que instância o jeito dele ser, e de ser visível dessa forma, lhe abala e põe em cheque suas convenções de existência?

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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