O bom e o mal do bem (parte 3)

0

III
SER INDÓCIL

Demorei um pouco para entender sobre a importância da violência nas reestruturações sociais. No movimento de autopreservação humana existe uma busca neurótica por uma construção de um ambiente “seguro”. E tudo que negue essa “segurança”, esse lugar “conhecido, dócil e útil” surge como ameaça. Como na citação que fiz um pouco acima (parte I – O discurso invertido) de Adorno Ao disciplinar tudo o que é único e individual, ele [o pensamento]permitiu que o todo não compreendido se voltasse, enquanto dominação das coisas, contra o ser e a consciência dos homens.” Contra a ameaça desse todo desconhecido e assustador se instauram as instituições de vigília e controle sociais, que garantem a permanência do status quo, legitimada pela ideia de segurança e autopreservação. Temos aí as leis, a polícia, a moral, os dogmas, as convenções. Tudo que não se encaixe nesses padrões é rebatido socialmente com violência e/ou exílio por fazer germinar algo desconhecido, portanto e logo, uma ameaça. Em seus formatos mais agressivos temos os governos ditatoriais conservadores, os genocídios em massa, os processos de adestramento através de torturas (alguns até hoje lícitos como os manicômios), as manipulações do discurso religioso, dentre outras performances por demais perversas. Toda forma social que abale as estruturas do devir convencional é vista como possível violência ao estado de segurança social, ao pensamento conhecido e disciplinado. E, na defensiva, a vigilância social prepara uma resposta ofensiva. Por isso, em momentos de grande abertura de pensamento sempre há guerras, violência policial, pessoas exiladas, conflitos resultantes da ascensão em mesma medida de pensamentos fundamentalistas avessos aos processos de mudança. Nessa longa trajetória de movimentos sociais é compreensível que muitos deles, ao levantarem suas bandeiras de luta e (des)identidades, já o façam de forma “violenta”, como resposta à possível recriminação por vir. E, muitas vezes e infelizmente, numa mimese intrínseca à constituição do ser que ainda não aprendeu ser de outra forma, se reproduza táticas dos opressores num movimento a revés. Mulheres que odeiam qualquer tipo de homem, negros que odeiam qualquer tipo de branco, homossexuais que reprimem heterossexuais, e por aí vai. Porém, principalmente dentro do feminismo que é o movimento que mais dialogo por isso de onde posso falar melhor, tranquiliza entender que esse extremismo muitas vezes é só parte do processo. Como se, por ser tão difícil ser outro, para pular fora dessa roda-viva normativa e se identificar em fluidez e singularidade fosse preciso negar em absoluto qualquer vestígio em nós do que nos oprime, muitas vezes de dentro pra fora de nós mesmos, e as armas que até então se conhece para matar “o inimigo” são as próprias armas “do inimigo”. Nessa briga entre bem e mal, onde todos são bem e mal, dependendo só de que lado você joga, Foucault provoca “O fio condutor deste percurso é, finalmente, a ideia de que a verdade é sempre, apenas, o produto de um jogo de forças, o resultado de um agenciamento – complexo, singular, móvel – de poderes em luta, e não alguma realidade concreta e incorruptível.”

Sendo assim, nesse cabo de guerra, algumas instâncias de status quo social acabam sendo quebrados, e novas formas de ser são absorvidas e ganham utilidade. A exemplo aponto a assimilação e aceitação dos mercados pelas novas categorias de identidade e tentativas de inserir esses segmentos no universo de consumo, como apontam pesquisas realizadas por empresas de tendências como a Box1824: http://pontoeletronico.me/2016/tecnologia-genero-neutralidade/ http://pontoeletronico.me/2016/assexualidade/ e http://pontoeletronico.me/2016/desclassificar-para-enxergar/ . Agências de publicidade e departamentos de marketing de empresas consomem esses tipo de dados que são posteriormente transformados em produtos que atendam a esse “novo” jeito de ser, criando novas identidades, no ouroboros social da civilização humana capitalista.

A partir do momento que, dentro do sistema econômico social e político que vivemos, o Capitalismo, essas novas formas de ser ganham utilidade e começam a se integrar à premissa primordial desse nosso modo de produção – trabalho e consumo – há uma aceitação social dessa nova categoria. Como se elas se tornassem dóceis, descamando aquela percepção de ameaça que carregavam. Casais homossexuais começam a ganhar representatividade em conteúdos de massa, como filmes blockbusters e novelas, linhas de produtos começam a ser desenvolvidos, como na moda que vem adotando e adorando a androgenia, direitos políticos começam a ser conquistados e por aí vai. Esses acontecimentos como conquistas dentro do nosso sistema sociopolíticoeconômico atual é algo ótimo! Mas, ver esse sistema por demais nocivo se reinventando e adaptando nossas instâncias de luta às suas formatações controle, como um vírus que reorganiza seu dna para se adaptar a um novo corpo, transformando tudo em produtividade, utilidade e consumo, e, só a partir daí, esse novo ser deixa de ser abjeto e passa a ser integrado é desestimulante. E pior ainda é saber que o cerne da questão não é O Capitalismo. Não é a existência do dinheiro, do capital. Mas sim essa neurótica busca por autopresenvação e controle de todas as instâncias da vida, que normatiza, regulariza, vigia e penaliza tudo o que não for reprodução dessas instâncias de controle.

Nesses momento de crise de identidade e representação que vivemos, e não entendam crise como algo ruim, de forma alguma, mas como um processo adaptativo, de descoberta e criação de novas circunstâncias, a ficção da civilização humana vai se reestruturando e sua semiótica fundamentando outros significados a palavras que costumavam ser postulados indestrutíveis. O que é ser homem hoje? O que é ser mulher hoje? O que é ser negro, indígena? O que é ser brasileiro? O que é ser cidadão do mundo? Temos aí Rancière escrevendo um livro aclamado pela academia intitulado Ódio à democracia, essa mesma democracia que gamas de políticos defendem em seus discursos. Sendo assim, o que é democracia? Porque lutar por ela? O que é odiar a democracia? Ou quando vejo o filósofo brasileiro Vladimir Safatler publicando um livro intitulado A esquerda que não teme dizer seu nome, me pergunto com a ascensão de partidos de esquerda ao poder e que, estando lá, tiveram o próprio rabo comido ao compactuar e reproduzir instâncias de governabilidade que negá-las era a premissa fundamental de seu discurso enquanto oposição, como fica o pensamento de esquerda? Temos também grupos que vem mudando seu estilo de vida, de emprego, estabilidade financeira, por uma vida mais rica em tempo livre e lazer, sendo assim, o que é ter sucesso? Qual o estilo de vida de uma pessoa bem sucedida hoje?

Nesse novo jeito de viver, conceitos de utilidade e futilidade entram em parafuso. Quantas vezes, enquanto artista, tive que escutar coisas como “Sim, você é artista, mas você trabalha com o quê?” Como se dissessem “Qual a sua contribuição, nos termos do capital, de utilidade social?” Ou, “Você é artista, mas onde você vende suas obras?” “Ou, se você não vende suas obras, como você se sustenta?” ou, “É uma escolha difícil, não é?” e devo dizer: não, não é, quando se aprende a olhar o mundo sob uma outra perspectiva. E a propósito, nem artista eu sou. Adoro quando Foucault diz “Eu sou um pirotécnico.” Talvez eu seja uma aventureira.

Ainda sobre reconceitualizações, quando olho para o desastre da Vale do Rio Doce, em Mariana, me pergunto: produzir toda essa energia, ou melhor, desmantelar a este ponto a natureza para produzir toda essa energia para consumo humano, é utilidade ou futilidade? Quanto de energia se precisa realmente para viver? Ou, observando a minha alimentação ultimamente percebi que ela é basicamente de laticínios – manteiga, leite, bolos, queijos… – até que ponto manter vacas sendo engravidadas regularmente, confinadas em um cubículos com máquinas presas às suas tetas, lhes sugando leite que por vezes vem misturados a seu sangue por desconforto ou resistência delas a estar naquele lugar, até que ponto isso é utilidade pela nutrição humana ou seria mesmo futilidade? Mudar de equipamentos eletrônicos, carros, celulares, computadores, ou mesmo vestuário, artefatos que por vezes vem escrito “made in china” onde todo mundo sabe que as condições de trabalho são quase sub-humanas em troca de baixo custo de produção das empresas, até que ponto renovar regularmente esses artefatos muitas vezes somente pela manutenção do status social seria utilidade ou futilidade?

Nesse jogo de utilidade x futilidade, quais benefícios lhe são mais um fardo que um benefício em si? Ter um carro, por exemplo: quanto se gasta financeiramente com gasolina, impostos, manutenção? Quanto se perde de tempo em trânsitos ou buscando estacionamento? Quanto se gasta em estacionamentos por dia, por mês, por ano? Quanto se perde em saúde com o sedentarismo de estar ali sentado por horas? Quanto se perde de sanidade por estar confinado nesse cubículo, com medo de ser abordado por um assaltante na janela em qualquer momento, ou por uma blitz policial, frustrado por não alcançar seu destino, sozinho, na companhia de uma tela de celular por onde através de redes sociais se tem a ilusão de se estar com milhões de pessoas mas, na verdade, internamente se sabe que sua condição ali, dentro daquele carro, é de solidão? Será escolher não ter mais esse carro uma perda de benefício ou tirar um fardo das costas por uma nova percepção de vida? No fim de 2014 vendi meu carro e desde então praticamente só me locomovo pela cidade com bicicleta. Para muitos isso foi um benefício que abri mão e me submeti a esse pesar incompreensível. Acontece que, desde então, descobrir que meu condicionamento físico melhorou incrivelmente, que os quilos a mais que ganhei são de músculo e não de gordura, que ao pegar meus exames médicos anuais minhas taxas estão perfeitas, que estreitei laços com muita gente pelo simples fato de nos esbarrarmos pelas ruas, que conheci muitos lugares ao pegar caminhos alternativos às grandes vias, que o conceito de engarrafamento não existe mais na minha vida. Agora então pergunto, será que abrir mão do carro foi realmente perder um benefício? Ou deixar um fardo de lado? Esse autoquestionamento de utilidade x futilidade, benefício x fardo, pode ser reverberado para várias outras instâncias da vida: seu emprego, o local que você mora, sua escolha sexual, sua identidade de gênero, seu namoro ou casamento, seu grupo de amigos, seu consumo. Nessa linha de resignificados, para além da democracia, já esplanada anteriormente, o que vem a ser Progresso hoje em dia? Ele está realmente ligado à produtividade e estabilidade econômica? O que é evolução? Está realmente ligada à capacidade de acúmulo e manutenção de bens e dados? Para que serve a hierarquia? Você realmente está fazendo o que gostaria ou simplesmente reproduzindo algo que você não sabe nem mesmo porque? Qual o custo pessoal e social de ser assim tão dócil e mimético?

Compartilhe

Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

Comente!