O bom e o mal do bem: dicotomia entre instâncias de controle e relações de afeto (parte 1)

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I

O DISCURSO INVERTIDO

“E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar. E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: de toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Gênesis 2:15-17. Grifo essas palavras, Senhor e Ordenou, porque avalio que deve ser cautelosa a leitura de escrituras ditas sagradas que já passaram pelas mãos de vários homens que se julgavam detentores das leis do devir. Que protegeram, para não dizer privaram do conhecimento popular, tais escrituras por séculos, se autopromovendo seres superiores na hierarquia divina, os mais próximos de Deus e capazes de discursar sobre tal conhecimento sagrado. Ao possuir esse Conhecimento, esses homens que encabeçavam a hierarquia do saber sagrado, exerciam poder e controle sobre os demais entes de seu grupo social. Mas… e se esse conteúdo do dito saber divino se incorporasse à existência de todos, inescrupulosamente e sem intermédios? Quem se submeteria aos templos e aos patronos do saber do Deus por eles proclamado? Quem os daria ouvidos? Quem não ousaria criticar, ou mesmo descordar, de qualquer interpretação sobre as escrituras?

Ainda segundo escrituras, no sétimo dia o Senhor e Criador do mundo natural que habitamos descansou ao contemplar criados sua terra e exército “assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados.” Exército da salvação que em nome do Conhecimento do Bem, aquele mesmo que o mesmo Senhor Deus alertou de sua letalidade ao formular a gênese do mundo que por hora habitamos, marchará pelo controle de qualquer dos demais seres da terra que não se submeterem ao escopo do devir desse Bem, discursado pelos detentores do saber divino. Das Cruzadas, Inquisições, evangelizações que dizimaram culturas, escravização dos “humanos inferiores” à imagem e semelhança branca e européia de Deus, aos terroristas, homens bomba de religiões fundamentalistas que no contexto contemporâneo querem impor sua versão do Bem Divino aos demais seres humanos habitantes do nosso mundo. E àqueles que não aceitarem a Deus, que lhes reste o desprezo, o pesar, a prisão, a submissão e mesmo o extermínio.

Quando Lutero, um cristão, roubou as sagradas escrituras e as traduziu para alemão, relatando que a verdade divina não estaria no verbo ou nas boas ações daqueles tidos como homens bons e sim nas próprias escrituras em si, suas boas intensões lhe acarretaram exílio, julgamento Católico por conduta inapropriada, heresia, dentre outras infrações às práticas doutrinárias do catolicismo cristão da época. Ao alcançar uma maior amplitude de discurso, algo de sua insubmissão foi apropriada por burgueses que não queriam mais se submeter a ordem divina do poder clerical e pretendiam exercer suas práticas liberais dentro das demandas do capital e nada mais. Nos tempos futuros, correntes do protestantismo se valeriam do discurso de não serem as boas ações, mas sim e somente a fé em Deus e nas escrituras que garantiriam ao homem o reino salvação – e reintero no meu discurso a repetição da palavra Homem porque é de onde vem e para onde vai o discurso religioso, de um Deus homem, Pai, que escreveu a lei dos homens, propagada através da oralidade de homens clericais para os homens de bem que constituem a sociedade, a sociedade patriarcal. Pervertendo as intensões de Lutero, muitas práxis protestantes se valem dessa proposição para manipular populações num dissimulado Discurso da Salvação que escraviza moralmente seus fiéis, transformando-os em súditos de um Deus imperativo, um Deus a quem se deve temor e dízimos cada vez maiores. A religiosidade se perde em meio a religiões que ditam o que deve ser o bem e o que deve ser o amor, através da normatização desse conhecimento e controle de suas práxis.

Ao longo da história da humanidade, a necessidade de eternidade, autopreservação e temor à morte desenvolve a dissecação do espaço natural através e em prol do conhecimento e suas categorizações, seja no campo divino, moral, científico e até mesmo nas convenções sobre os estados de afeto. Ideologias que constituem redomas de controle e configuram barreiras à fluidez da vida pelo intuitivo e pelo estado de puro amor intraduzível no campo simbólico, apenas no sentir no campo dos afetos. Em seu romance Ana Karenina, Leon Tolstói diz O respeito foi inventado para esconder o lugar vazio onde deveria estar o amor.” E se, por respeito, entendêssemos todas as práticas de controle social? Tolstói, apesar de ser comumente colocado entre escritores anarquista por sua negação às formas de governo, nunca se qualificou como tal. Ele preferia, em lugar disso, proclamar-se um cristão literal. Foi seu pensamento cristão que o fez recusar a qualquer forma de governo sistematizado ou de qualquer igreja, o fez criticar a propriedade privada, os tribunais, a formatos de organização sociais e o intelectualismo estéril. Ao se considerar um cristão literal, Tolstói negava tudo que as instituições cristãs à sua época difundiam. Em Sonata a Kreutzer ele diz “Não compreendíamos que o amor e o ódio eram manifestações diferentes do mesmo sentimento animal. Seria horrível compreender a situação em que nos encontrávamos, mas, nem sequer a víamos.” A cegueira social em que vivemos, embriagados pelo simbólico e construção de sentidos no campo da racionalidade mais que pelo campo dos afetos, nos põe por demais susceptíveis a câmbios semânticos e semióticos no labirinto inventado pelo conhecimento normativo de todas as coisas. Nos priva de um senso crítico pelo sensível ao nos atar às amarras da racionalidade. Em uma publicação com recortes de entrevistas organizado pelo filósofo francês Roger Pol-Droit, Michel Foucault diz “Somente uma ficção pode fazer crer que as leis são feitas para serem acatadas, a polícia e os tribunais destinados a fazer com que sejam respeitadas. Somente uma ficção teórica pode nos levar a acreditar que aderimos, de uma vez por todas, às leis da sociedade à qual pertencemos.”

No primeiro capítulo de seu Dialética do esclarecimento, onde tece a desconstrução do saber por demais racionalizado, o filósofo alemão Theodor Adorno elucubrar sobre a ontologia do esclarecimento “No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo” . Um adendo a esse pensamento de Adorno pode ser o que Michael Foucault vem a dizer décadas depois em Vigiar e Punir “O adestramento do corpo, o aprendizado do gesto, a regulação do comportamento, a normalização do prazer, a interpretação do discurso, com o objetivo de separar, comparar, distribuir, avaliar, hierarquizar, tudo isso faz com que apareça pela primeira vez na história esta figura singular, individualizada – o homem – como produção do poder. Mas também, e ao mesmo tempo, como objeto do saber. Das técnicas disciplinares, que são técnicas de individualização, nasce um tipo específico de saber: as ciências do homem.”

Voltando à Dialética do esclarecimento, Adorno segue com recortes do discurso filosófico de Francis Bacon sobre a construção do saber “…primeiro acreditam que os outros sabem o que eles não sabem; e depois eles próprios sabem o que não sabem”. Ainda no prólogo desta mesma obra, Adorno divaga sobre o binarismo do saber e do não saber do conhecimento como lugar de (in)segurança à existência humana ao proferir Ao disciplinar tudo o que é único e individual, ele [o pensamento]permitiu que o todo não compreendido se voltasse, enquanto dominação das coisas, contra o ser e a consciência dos homens.” Como se o não perceber-se todo, não perceber-se ser múltiplo em um único ser, ou mesmo dual, bem e mal, consciente e inconsciente, e aceitar o mistério que permeia tudo isso, como se a tomada de partido de uma causa única, seja enquanto ser, seja enquanto sociedade, configurasse a instância primeira do conflito. Rancière em seu ensaio sobre estética e política A Partilha do sensível, diz “Denomino partilha do sensível o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Essa repartição das partes e dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividade que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte dessa partilha. O cidadão, diz Aristóteles, é quem toma parte no fato de governar e ser governado. Mas uma outra forma de partilha precede esse tomar parte: aquela que determina os que tomam parte.” Configura-se então, nas instâncias de conflito, os detentores do saber, que são os que detêm e governam o conhecimento – os seres visíveis ou opressores – e os se que submetem, que são governados pelo saber dos outros – os seres invisíveis ou oprimidos – nessa grande ficção conhecida como Civilização Humana.

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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