O boxeador polaco de Eduardo Halfon chega ao Brasil

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É curioso notar que as principais qualidades do livro de contos O boxeador polaco, do autor guatemalteco Eduardo Halfon, representam estratégias que, pelo uso recorrente na literatura contemporânea – especialmente na nacional -, parecem menos impactantes ou, em alguns casos, enfadonhas. Os textos do autor são protagonizados por um escritor chamado Eduardo Halfon e costumam sugerir, nos enredos, reflexões sobre a própria literatura.

A proeza deste autor ainda pouco conhecido no Brasil – este é seu primeiro livro publicado no País – é adaptar características geralmente interpretadas como herméticas, experimentais ou excessivamente intelectuais em histórias sobre dramas do cotidiano; um livro que narra situações comuns, reconhecíveis pelo que apresentam de universais, a partir da perspectiva literária, em que outros livros e autores oferecem novas possibilidades de entendimento.

“Em minha obra, a linha que separa autor e narrador é muito tênue. Somos um. Isto, claro, exige absoluta transparência de minha parte. E não a transparência dos acontecimentos, que pouco ou nada me importam, mas sim de verdades, de intimidade com a página e com o leitor. Suponho que essa intimidade é minha maneira de convidar o leitor a entrar em meu universo, a confiar plenamente em mim, a pegar minha mão e me permitir guia-lo por uma história que de partida necessita da ficção, e deixa então de ser meramente biográfica, deixa de ser minha, envolvendo todos”, diz o autor, em entrevista para a Folha de Pernambuco.

Os contos de O boxeador polaco se aproximam da tendência atual da auto-ficção, em que o escritor, ou uma representação ficcional do autor, torna-se um personagem ativo na trama. “Sei que sempre começo a escrever a partir de mim mesmo, me vendo e me descrevendo no espelho, mas essa imagem de mim mesmo é insuficiente para dizer o que quero dizer, para gerar no leitor as emoções que quero gerar. Não sei por que escrevo assim, partindo sempre de mim, mas necessitando a ficção. Talvez o processo literário seja sempre indutivo, e toda ficção esteja cimentada no autobiográfico, ainda que não pareça. Talvez tenha sido sempre assim. ‘Madame Bovary’, dizia Flaubert, ‘sou eu'”, comenta.

Nos textos de Halfon surgem outros autores; os livros de Mark Twain, Ricardo Piglia e Guy de Maupassant oferecem alegorias para compreender os personagens. “Neste livro o jogo literário de citar outros autores é importante. Primeiro porque o narrador é escritor e professor de literatura. Mas é ainda mais importante porque, no fundo, este é um livro sobre o poder e a importância da literatura, da palavra escrita. A palavra escrita que pode nos elevar e salvar, e a palavra escrita que jamais será suficiente para dizer o que temos que dizer. E este livro, como todo livro, é uma viagem, que começa dentro da literatura e da metalinguagem, mas que culmina na própria vida: em uma praça de canários, em uma masmorra, em um bar escocês”, explica.

O boxeador polaco faz parte do projeto Otra Língua, da editora Rocco, organizado pelo escritor Joca Reiners Terron, que tem como objetivo apresentar autores latino-americanos pouco conhecidos no Brasil – uma forma de intensificar o diálogo entre o mercado editorial brasileiro e o de língua espanhola. “Não poderia comentar o que acontece no mercado editorial brasileiro. Mas tampouco poderia comentar o que acontece no mercado editorial argentino, colombiano, mexicano. Ainda prevalece uma profunda falta de comunicação editorial e literária entre nossos países. O fenômeno latino-americano segue sendo um paradoxo. Tanto nos une enquanto latino-americanos, mas ainda tanto nos separa”, comenta Halfon.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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