O caminho de Los Angeles – John Fante

0

Arturo Bandini, personagem que permeia os principais romances de John Fante, “era muito errático”. E, aos 18 anos, todas as contradições do mundo fervilhavam na sua cabeça, exacerbando sua vocação transgressora. Possivelmente por isso, O caminho de Los Angeles, apesar de ser o primeiro livro escrito pelo autor ítalo-americano, só foi publicado após sua morte. No Brasil, só foi lançado em agosto deste ano.
Era 1933 quando Fante começou a trabalhar no romance. O cenário: os Estados Unidos pós-quebra da bolsa de Nova York, ainda com uma guerra pela frente. Ao terminar o livro, três anos mais tarde, previu o incômodo que a obra causaria: “tem passagens de chamuscar os pêlos do rabo de um lobo. Pode ser forte demais; isto é, falta-lhe ‘bom’ gosto”.

De fato, a publicação não saiu, provavelmente pelo caráter provocador do tema e do tom, fazendo com que o recorrente Arturo Bandini só fosse apresentado aos leitores em 1938, em Espere a Primavera Bandini. Mas é fácil perceber que, em O Caminho de Los Angeles, o personagem já estava construído – uma criatura muito parecida com seu criador, que tem sido interpretada como o alter ego de Fante.

Neste romance de estréia, Bandini é um jovem nascido nos Estados Unidos, filho de imigrantes italianos. Vive entre conflitos. Não tolera mãe e irmã, por conta da religiosidade exacerbada, reação ao cristianismo repressor que lhe foi imposto desde cedo. Ele é culto, devora Nietzsche e Schopenhauer, ao mesmo tempo em que tem que se subempregar para sustentar a família, já que seu pai está morto. Quer ser escritor, mas trabalha em uma insalubre fábrica de peixe enlatado.

O livro inteiro é uma viagem pelos pensamentos de Bandini, ora encantador, ora desprezível. Ele rejeita a ignorância e inércia dos que lhe cercam, mas está preso àquela realidade. Então, refugia-se em sua criatividade. No dia-a-dia imaginado, Arturo pode ser o Matador Negro da Costa do Pacífico, o fiel informante de Roosevelt, o responsável pelo declínio da Civilização da Formiga, ou o grande amante das mulheres de papel, com as quais se encontra dentro do guarda-roupa. Ele é doce, ácido e despreza os valores humanos, mas é deles que se alimenta.

Talvez numa tentativa de convencer-se, o herói-vilão coloca-se o tempo inteiro como alguém que está acima dos outros, seja por ser homem, falar palavras difíceis, nascer na América, ou, simplesmente, por não ser um crustáceo. E essa consciência de que poderia ser maior, é o que o atormenta. O leitor não fica imune, se depara com sentimentos que vão do asco ao reconhecimento, em menos de meia página.

O escritor faz, com maestria, uma reflexão sobre as diversas identidades do indivíduo: quem ele é, quem pensa que é, quem gostaria de ser, quem os outros acham que é. Expõe cruamente um universo de hipocrisias que ainda nos é muito atual. O ritmo do texto e a forma como verdades desconcertantes nos são lançadas (com graça ou dor), tornam a leitura fácil e deixam a vontade de que Bandini tenha uma vida longa. É impossível ficar indiferente aos seus dramas e às palavras de Fante.

A sensibilidade, tanto do autor como do personagem, capta as fragilidades de uma sociedade injusta, bitolada e, principalmente, contraditória. Bandini, claro, está contaminado, mas preserva a capacidade de incomodar. O leitor, que invade a mente conturbada do personagem, pode amá-lo ou envergonhar-se de seus atos. Não irá, certamente, ignorá-lo.

“E de que vale um homem ganhar o mundo e perder sua própria alma?”

Joana Rozowykwiat

: : FICHA TÉCNICA : :
O Caminho de Los Angeles
John Fante
Trad. Roberto Muggiati
José Olympio, 1a. edição, 2005
204 páginas

Compartilhe

Sobre o autor

Comente!