O Carapuceiro – Adriana Vaz e Roberto Azoubel (org.)

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

carapuceiroAutores: O livro reúne textos de 23 autores. Além dos organizadores do livro, também fazem parte desse time os jornalistas José Teles, Renato L e Xico Sá, cronista da Folha de S. Paulo e autor de livros como Chabadabadá e Big Jato.

Livro: Seleção organizada por Adriana Vaz e Roberto Azoubel dos melhores momentos do site O Carapuceiro, que foi criado por h.d. mabuse, Adriana Vaz e Xico Sá e permaneceu em atividade entre 1998 e 2005.

Tema e Enredo: O livro preserva a estrutura do site, que era dividido em 8 seções, agrupando textos a partir de eixos temáticos (gastronomia, política, comportamento e causos amorosos) que registram a vida no Recife no início do século 21.

Forma: O gênero predominante é a crônica, que faz uma crítica irônica e descamba para o humor. Em algumas seções conteúdo tem um formato próprio, estruturado em cima de pequenas notas ou correspondências.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Geração da transição

Liberada para uso comercial no Brasil apenas em 1995, a internet logo foi vista como uma solução para o gargalo de publicação. Com as facilidades permitidas pelo meio digital, muitos escritores estreantes recorreram à rede para colocar seus escritos acumulados na gaveta em contato com os leitores. A facilidade, contudo, gerou novas dificuldades, trazendo problemas como o excesso de informações e o aumento da suspeita em relação às fontes. O que, por consequência, levou novos autores a se agruparem em sites coletivos como uma estratégia de se fortalecer enquanto grupo e assim, vencer o ceticismo dos leitores a autores estreantes.

E assim surgiram experiências como a newsletter gaúcha Cardosonline (de onde surgiram nomes como Daniel Galera e Clarah Averbuck) e o carioca Paralelo.org (de onde vieram João Paulo Cuenca e Tatiana Salem Levy). No Recife, um projeto semelhante surgiu em 1998, quando Adriana Vaz, Xico Sá e o designer h.d. mabuse se juntaram para criar o site O Carapuceiro. A página manteve-se no ar até abril de 2005 e reuniu mais de 400 textos de pelo menos 68 colaboradores diferentes (número que abriga nomes de autores reais e pseudônimos).

A exemplo de outros sites coletivos como o Escritoras Suicidas e o Wunderblogs, o conteúdo d’O Carapuceiro agora ressurge em livro. O volume O Carapuceiro: crônicas de um website sempre moral e só per accidens político, organizado por Adriana Vaz e Roberto Azoubel, reúne uma seleção dos melhores momentos do que restou do site (boa parte do material publicado antes de 2000 se perdeu). Para compor o livro, foram escolhidos 100 textos, trazendo colaborações de José Teles, Renato L, Fábio Lucas, Azoubel, mabuse e, sobretudo, Xico Sá e Miss Soledad (pseudônimo usado por Adriana Vaz).

Como boa parte da produção literária brasileira se tornou digital apenas pelo acaso da publicação, a migração do site O Carapuceiro para o papel não resultou em grandes perdas nem necessitou de adaptações. Além dos textos ainda serem pensados na lógica do meio impresso, sem utilizar as possibilidades da criação do digital; a edição do livro também colaborou para preservar a estrutura do site, mantendo as oito seções da página. Cada parte é aberta por uma página de fundo preto e letras em branco, onde os organizadores explicam como funcionavam as seções, quais os temas abordados e quem eram seus editores.

Um cuidado de registro importante que permite – a quem nunca chegou a acessar o site – vislumbrar como era O Carapuceiro na internet. O porém de manter essa estrutura é que, junto com ela, acabou-se preservando também um conteúdo não tão digno de ir para o papel justificada. Algumas seções sofreram mais que outras os danos da ação do tempo. Longe dos seus contextos históricos e virtuais, as seções Caritó (dedicada a aconselhamentos amorosos dos leitores) e Carapuça (espécie de coluna social de macho, sem a frescura asséptica de agradar as dondocas) perderam a relevância, seja porque a migração desmontou a suposta interatividade entre os leitores ou porque fatos específicos da época hoje já não possuem a mesma importância, respectivamente.

Ao contrário delas, seções como Prosopopeia, Macumba acidental e Aurora Boulevard envelheceram bem. A distância temporal, nesses casos, ajudou a ressaltar as qualidades dos seus conteúdos, dando a eles uma perspectiva histórica no registro de ideias e tendências dos anos 1990 e início do século XXI. Como ressalta Azoubel no prefácio do livro, O Carapuceiro “foi uma espécie de representação midiático-literária da geração que estava no cerne da fertilidade cultural da capital pernambucana, abalada pelas pancadas dos tambores da Nação Zumbi e por toda a cena Mangue”.

Em Prosopopeia, espaço mais voltado para as invencionices literárias, temos acesso a crônica As calçadas da internet, onde Miss Soledad confidencia a nostalgia de uma geração que, apesar de se empolgar com as possibilidades da internet, também sofre com as mudanças de hábito tão repentinas. Já em Aurora Boulevard, editada pelo jornalista Renato L, a preocupação com os costumes é mais incisiva. Aqui o Recife dos anos 90 é reconstruído por palavras, que juntas formam crônicas e retratam desde o peculiar modo de se vestir das recifenses (como vemos em Contraditório esporte fino de Miss Soledad) ao gosto dos recifenses pelo boato em seus relatos sobre as enchentes (Apenas uma marca na parede de Xico Sá), das transformações a que a cidade foi submetida, com a decadência do centro e a ascensão do brega (Se minha rua falasse de José Teles) ao tédio da cidade em dias de chuva (Recife é parada! de Miss Soledad) e ao negativismo provocado pela falta de perspectivas no Recife (Sem lenço e sem documento de Renato L).

Em Macumba acidental, por sua vez, vemos um Xico Sá mais filosófico, tecendo reflexões sobre os rumos da cultura nordestina a partir do prisma fundado pelo Movimento Manguebeat. Com esse espírito, ele se põe a pensar sobre as questões de identidade e logo se depara com as fronteiras culturais, desenvolvendo teorias como a Síndrome Mário de Andrade (que fala sobre falta de jeito dos paulistas em curtir expressões da cultura popular) e a defesa pela preservação da dedada, em que ironicamente cobra o engajamento do Movimento Armorial nessa luta. Mas o melhor exemplo desse embate cultural é a crônica Cadê o folguedo que estava aqui? Sob o pseudônimo W.W.Wanderley, ele constrói uma ácida e bem humorada reflexão sobre a proposta de enrijecimento do Movimento Armorial, em que denuncia o discurso de preservação das expressões culturais como uma forma de domínio social, gerador da estrutura de poder que mantem os artistas populares sob a dependência dos favores do poder público.

Além desse lado filosófico, Xico Sá dá sinais do papel que assumiria como cronista em sites como o finado Blônicas e o jornal Folha de S. Paulo, onde mantém um blog. Nas seções Por cima da carne seca e Macho, ele já demonstra maturidade e convicção do caminho que ele iria trilhar, exaltando suas origens nordestinas através da gastronomia e o seu gosto peculiar pela malícia, onde a cultura do macho não o impede de enxergar os benefícios de certas brincadeiras (como a já citada dedada), criando uma fauna de personagens como o homem-brechó e o macho-jurubeba, este em contraposição aos metrossexuais.

Lido em maio/junho de 2014

Escrito em 10.06.2014

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa

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Currículo: Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com os escritores: Conheci Roberto Azoubel numa viagem a Garanhuns, quando primeiro soube do livro. E Xico Sá conheço de eventos literários e entrevistas, como a realizada para o Café Colombo. [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

O Carapuceiro: crônicas de um website sempre moral e só per accidens político

Adriana Vaz e Roberto Azoubel (Org.)

Editora: Grupo Paés

1ª edição, 2014

186 páginas

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“Você sabe lá o que é isso? Depois de meses sem foder acordar com a bela sensação de alívio? Terá sido uma amiga envergonhada com medo de estragar a amizade? Ou uma francesa-roquefort tarada, linda e fedida, como reza a obviedade clicherosa? Uma paulista gorda, linda e rosada de tanta pizza? Uma gostosa qualquer? Uma jambo-girl de Rio Doce? Aquelas ex-namoradas de Fabinho Trummer que a humanidade Original Olinda Style platonicamente deseja?” (p. 78. Crônica: Você sabe lá o que é isso…, de Xico Sá)

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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