O contrário de B. – Bruno Liberal

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PRÓLOGO

Autor: Bruno Liberal (Goiânia-GO, 1981) estreou na literatura com o livro de contos Sobre o tempo. Em 2013, apareceu de vez na cena literária com a conquista do Prêmio Pernambuco de Literatura, com o livro Olho morto amarelo, publicado pela Cepe. 

Livro: O contrário de B. é o terceiro livro publicado por Bruno Liberal. Assim como os dois primeiros, é um volume de contos. Com edição da Confraria do Vento, a obra reúne 13 contos.

Tema e enredo: Boa parte dos contos tocam no tema dos conflitos familiares, que envolvem desde problemas gerados pela velhice, o processo de adaptação a nova rotina com os filhos ou mesmo a ausência familiar.

Forma: Contos fragmentados, divididos em partes e com o uso recorrente de marcações gráficas (a exemplo de itálico e parênteses) para indicar uma nova perspectiva narrativa.

CRÍTICA

Famílias em decomposição

A escolha de Juro por Deus que é um final feliz para encerrar o volume Olho morto amarelo parece ter ido além da questão metalinguística sugerida pelo título do conto. Ali, com a história do pai que passa a ser visto como monstro após esquecer o filho no carro, Bruno Liberal parecia já indicar o seu próximo passo, que se concretiza com a publicação de O contrário de B. Nesse volume de contos, o autor retoma o interesse demonstrado em Juro por Deus que é um final feliz e desfia novas histórias a partir de problemas que cada vez mais atingem as relações familiares do hoje.

Para se ter ideia, 9 do 13 contos reunidos n’O contrario de B. passam pelo eixo da família. A começar pelos contos homônimos Pater familias, onde Bruno Liberal apresenta o drama de uma família causado pelos lapsos de memória de uma idosa – representados pelo autor através de espaços em branco deixados no meio dos parágrafos – que vive sob a dúvida constante se já tomou os remédios ou se já se alimentou. Demonstrando habilidade, o autor constrói as histórias a partir de fragmentos e pontos de vista diferentes para dar profundidade e mostrar a complexidade da situação.

Pelos trechos de vida revelados pelo autor é possível perceber uma gradação dos personagens. Cada fragmento parece alternar seus lados sombrios e iluminados. O pai, que inicialmente é apresentado como sujeito truculento e intolerante, aos poucos ganha tons mais humanos, com cenas de arrependimento, acúmulo de frustrações e demonstrações de afeto. Já o filho, visto logo no início como vítima, revela a face da culpa pelo desleixo e recusa ao rumo da vida do pai.

Ápices de O contrário de B., os contos Pater familias servem como um indicativo do que será encontrado nas páginas seguintes, tanto em relação ao conteúdo quanto a forma. Em termos temáticos, a família volta a ser trabalhada em Hoje não e Não precisa gritar, onde o carinho dos pais pelos filhos parecem ser guiados pelo desejo de aprovação social; em Nós contra eles e Obedeça seu pai em que o autor expõe problemas da mudança de rotina com a chegada dos filhos; e em Reza para gato morto, Distante e Esse último sorriso quando vemos, respectivamente, o efeito da religião, da precariedade financeira e das irresponsabilidades dos pais na vida dos filhos.

Em relação a forma, a subdivisão dos contos em tópicos, a alternância de narradores e/ou mudanças temporais e as marcações gráficas (como o uso de itálicos para a inserção de novas vozes ou pela utilização de parênteses, para revelar segredos mais íntimos dos personagens) encontradas em Pater familias também reaparece nas outras histórias. No entanto, embora assim como em Pater familias, o autor também promova alternâncias entre a tríade pai, mãe e filho nos contos Distante e Obedeça seu pai; o resultado alcançado é diferente.

Neles, o autor até consegue dinamizar as histórias ao trazer novas perspectivas narrativas, mas as variações se mostram mais voltadas para justificar escolhas dos personagens do que capazes de transformar nosso olhar em relação a eles. Com exceção do pai em Distante (que oscila entre a imagem de sujeito truculento e outro zeloso pela situação de saúde da esposa), os personagens são mais rígidos, seguindo uma trajetória contínua em linha reta, sem mudanças de comportamento ou caráter.

Ainda assim, Distante se mostra um conto interessante e faz par com O contrário de B. na abordagem a personagens periféricos. É como se, lado a lado, a alienação dos personagens de Obedeça seu pai e Hoje não resultasse em descasos como o que encontramos em Distante e O contrário de B. Nesses últimos, o escritor adiciona a preocupação com o abismo da desigualdade e a incapacidade das pessoas, gerada por essa ruptura, compreenderem os outros, como apontam as cenas do hospital de Distante, do carro e da briga de O contrário de B.

Longe do eixo familiar e ao deixar de lado o foco nos noticiários, Bruno Liberal se vale de novas ferramentas e dedica mais empenho no exercício da imaginação do que da reflexão em si. É o caso de Dentes de cachorro, uma história de ação que fala sobre a caçada de uma mulher e de Isso não é jeito de voar, onde a queda do personagem permite que o autor explore um enredo mais abstrato e relativize o tempo. Porém, quando essa liberdade aponta para o experimentalismo linguístico de Possibilidade de estar incompleto, ela se revela um risco que beira a incompreensão.

Lido em julho de 2015
Escrito em 05.07.2015


Relação com o escritor: Conheci Bruno Liberal por conta do lançamento de Olho morto amarelo, através de entrevistas para o Café Colombo e para o site do Vacatussa, do qual o autor manteve a coluna Como se faz um deserto.

FICHA TÉCNICA

O contrário de B.
Bruno Liberal
Editora: Confraria do Vento
1ª edição, 2015
108 páginas

TRECHO

“(Ele lembra do cheirinho de bebê quando chegava do trabalho e cheirava a cabeça do filho. Lembra que ele chamava-o apenas de “pá”. Lembra de ter visto o sorriso dele crescendo toda vez que colocava a cabeça na porta e se escondia, lembra de ter segurado forte sua mão para a travessar a rua, de ter sentado com ele para assistir um desenho, de ter molhado o pão no leite e colocado em sua boca)” (conto Pater familias, p. 15)

OUTRAS OPINIÕES

Sérgio Tavares, no Jornal Opção, número 2099.

(http://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/uma-antologia-de-contos-nao-recomendada-para-os-coracoes-fracos-e-puros-46814/)

“O autor assemelha seu processo de criação a uma fervura entrópica, uma tessitura de pontas soltas, um puzzle em que os tempos se intercalam e encavalam-se, proporcionando uma visão completamente distinta do que acabou ser apresentado. Essa desordem intencional, a dança entre passado e presente, oferece pistas e novos ângulos para se conhecer os personagens de outras formas. Provocar uma experiência de percepções contraditórias, nas quais as máscaras de bom e de mau se alternam constantemente.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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