As vísceras de Vinícius – Ivon Rabêlo

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PRÓLOGO

Autor: Ivon Rabêlo (Sertânia-PE, 1972). É mestre em Literatura e Interculturalidade pela UEPB, de Campina Grande, e tem especialização em Língua Inglesa e Literatura de Línguas Inglesas pela Fafire.

Livro: As vísceras de Vinícius é o livro de estreia de Ivon Rabêlo. Ele foi um dos selecionados da convocação de feita pela editora para integrar a coleção Mariposa Cartonera, que foi financiada pela plataforma de crowdfunding Kickante. Como os outros títulos da Mariposa Cartonera, a edição é artesanal, com capas exclusivas e feitas dentro dos preceitos do movimento cartonero.

Tema e Enredo: Ivon convida o leitor a um voyeurismo um tanto perverso, um tanto lúdico: abre o torso do corpo e avisa, o que importa é o que está dentro, humores, excrescências, o resplendor está no que causa repulsa. Ou um homem é coração e tripas.

Forma: Não se espere um drama de sangue e outros fluidos. Nada de Quentin Tarantino aqui. A escrita de Ivon é meticulosa, exata, elegante. Trata-se de um trabalho limpo.

CRÍTICA

O corpo oculto de Vinícius

Jean-Luc Nancy, em seu 58 indícios sobre o corpo, afirma que “um corpo é um cadáver ou é glorioso”. Ou seja, não há glória no cadáver em si mesmo, no corpo saqueado daquilo que lhe movimenta, seja vida, seja o desejo, ou olhar do outro. O corpo é um cadáver ou é glorioso. No entanto o corpo morto pode ser glorioso? A resposta é quase óbvia. Que o digam as relíquias de santos ou as fotografias de mortos que se multiplicam iconicamente nesse tempo regido pela imagem. Ataviamos os corpos, vivos ou mortos, de glória para que vida e morte possam ter algum sentido. O cadáver em si nos é insuportável.

O que dizer então das vísceras? É o que parece perguntar o poeta Ivon Rabêlo com seu livro de estreia, As vísceras de Vinícius (Mariposa Cartonera, 2015). Com o olhar de um legista que fosse simultaneamente contido e apaixonado, Ivon convida o leitor a um voyeurismo um tanto perverso, um tanto lúdico: abre o torso do corpo e avisa, o que importa é o que está dentro, humores, excrescências, o resplendor está no que causa repulsa. Ou um homem é coração e tripas. Não por acaso a primeira parte do livro chama-se justamente linea alba, linha que vai da virilha ao abdome e deste até o tórax: o autor guia a mão do leitor para que o corte seja preciso.

No entanto não se espere um drama de sangue e outros fluidos. Nada de Quentin Tarantino aqui. A escrita de Ivon é meticulosa, exata, elegante. Trata-se de um trabalho limpo. Que o digam os primeiros versos de Da Natureza dos Vermes: “na mira da seta/no durame da brisa//não me baste o descanso/o descaso do ser/o não-ser/:/isopor,/abstrato vitral,/cubo de basalto,/minarete,/fractal//na direção da seta/na lisura da brisa//não me baste intuir/dilatar um brilho/rarefeito de estrela/que transmute-nos/em constelação (…)”.

Mas um trabalho limpo não quer dizer um trabalho sem tutano. Pelo contrário. Evoco novamente Jean-Luc Nancy: “o corpo exprime o espírito, quer dizer, faz com que ele brote para fora, espreme-lhe o suco, extrai-lhe o suor, arranca-lhe faíscas e atira tudo no espaço”. Ou: o leitor só saberá de um certo Vinícius pelo que suas vísceras podem narrar. Ou ainda: “que haja aqui/beleza sólida/em mãos calejadas/&/o sumo segredado/em teu morno corpo/ataviado/de prenhez”.

O corpo de Vinícius e suas vísceras expostas são um livro aberto. A poesia de Ivon Rabêlo inaugura-se em livro pronta, madura, uma estrela a rebentar em outras estrelas. Sem dúvida, uma das mais importantes estreias desse ano. Uma poética iridescente, do brilho inexorável do bisturi. Leia-se!

“Sob meu poder detenho
uma pequena caixa de chumbo
onde guardo
o rosto secreto
dos meus restos mortais”

E não se espante o leitor se, após a autópsia, ou leitura, como se queira chamar, se deparar com seu próprio rosto. Será um horror se descobrir Vinícius. Ou quem sabe, uma perversa alegria.

Escrito em setembro  de 2015


Micheliny Verunschk é autora dos livros de poesia Geografia íntima do deserto (2003), O observador e o nada (2003), A cartografia da noite (2010), B de bruxa (2014) e do romance Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida (2014).

FICHA TÉCNICA

As vísceras de Vinícius
Ivon Rabêlo
Editora: Mariposa Cartonera
1ª edição, 2015
56 páginas

TRECHO

“Os que morrem ao sol
e, entre corpos, ressecam
quiçá evaporam

Aqueles que cegam ao sol
e, libertos, matam a luz
eliminando seu limite

Os viventes apesar de,
cambaleantes, sôfregos
na forja da escuridão

Os que não dormem,
os que morrem
ao silvo do sol

nada terão
nem um cão
como guia

[seus olhos
sua saliva
seu verbo

nos esperam
no dia a dia]”, (poema Vesperal).

OUTRAS OPINIÕES

Diogo Guedes, no Jornal do Commercio, em 9 de setembro de 2015

(http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2015/09/09/ivon-rabelo-lanca-seu-primeiro-livro-pela-mariposa-cartonera-198084.php)

“Um livro de poema feito de vísceras, mas que é mais do que verborragia e sentimentos expostos exatamente como aparecem. Os poemas de As Vísceras de Vinicius, feitos pelo professor e escritor Ivon Rabêlo, são calculados nas suas palavras e na sua força, mesmo quando parecem surgir dos motivos e momentos mais pessoais.”

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