O duplo – Sonia Nabarrete

0

O cientista decidiu construir seu duplo, que foi desenvolvido absolutamente à sua imagem e semelhança. A mesma aparência, a mesma personalidade, ele mesmo em dose dupla. A ideia é que o duplo ficasse com as atividades chatas, como acordar cedo, trocar pneu, discutir a relação, participar do almoço de domingo na casa da sogra, pedir empréstimo no banco, pagar impostos, ir à assembleia do condomínio, acompanhar a mulher nas compras. Ele ficaria apenas com o que é gostoso: comer e beber bem, viajar, ter uma vida cultural intensa, encontrar-se com a amante fogosa.

Assim foi feito. O único problema era acertar as agendas porque ambos não poderiam ser vistos simultaneamente em lugares diferentes. Nem precisa ser cientista para saber disso. Qualquer estudante de Física sabe que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

O cientista tomou precauções e a sua vida se tornou o sonho de qualquer homem. Mas apenas por um tempo. Ser feliz o tempo todo cansa. Começou a ter vontade de comer arroz com ovo de vez em quando, de ficar quieto em casa vendo um filme leve e até de dormir de conchinha com a esposa, após um honesto papai e mamãe.

Já o duplo começava a ficar revoltado com a sua vida cheia de obrigações e aporrinhações.

Encontraram-se para discutir a relação. Enquanto conversavam, o cientista olhou bem para o seu duplo. Caramba, que bonito. Que olhos, que boca. Como fala bem. Sabe argumentar feito um político. Como um Narciso, encantou-se com a própria imagem. Aproximou-se e o beijou na boca. Um longo beijo de língua, com os dois virando alternadamente a cabeça, se abraçando, passando a mão na bunda do outro.

– Sou espada – retrucou o duplo.

– Disso eu tenho certeza – garantiu o cientista.

– Você é apenas minha cópia. E eu tenho uma grande autoestima. Não há problema se a gente se divertir um pouco.

– Pela lógica, não.

Cientista e duplo se amaram de forma despudorada e apaixonada. Ao final do ato, um certo constrangimento em ambos, semelhante ao que sentiam após a solitária masturbação.

– Nossa, como você é gostoso. Amanhã, de novo, na minha, quero dizer, na nossa casa? – propôs o cientista

– Sim, amor – concordou o duplo, já envolvido.

Os encontros se tornaram rotineiros, mas sempre carregados de muita paixão. Até que bateu o ciúme. Um tinha ciúme do outro e ambos das mulheres de suas vidas.

– Você sente prazer com a Débora?

– Claro, ela é minha amante.

– E você, gosta da minha mulher.

– Nossa mulher você quer dizer? Muito. A Ana é deliciosa.

Olharam-se com fúria. A seguir, uma sequência de socos e pontapés terminou com alguém morto após bater a cabeça com força na quina de um móvel. O outro deu fim ao corpo. E a vida continuou com todas as suas dores e delícias para o sobrevivente. Seu único problema é que às vezes tem crises de identidade. Não sabe se é ele mesmo ou sua cópia.

Sonia Nabarrete nasceu em São Caetano do Sul-SP, 1953. É jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Participou das antologias: Quem conta um conto (2012), A arte de enganar o Google (2013) e Coletânea do 4o Concurso de Microcontos de Humor do 41o Salão de Humor de Piracicaba (2014) .Publicou conto na revista S.E.X.U.S.

Compartilhe

Sobre o autor

Comente!