O espaço do livro digital

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É difícil medir a influência da Internet e da tecnologia na arte contemporânea, especialmente porque mudanças continuam sendo efetuadas com frequência. Na literatura, um fato importante é a ampliação do mercado de e-books, os livros eletrônicos. De acordo com a pesquisa feita pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, o faturamento do mercado editorial brasileiro com e-books subiu de R$ 3.8 milhões, em 2012, para R$ 12.7 milhões, em 2013; nesse mesmo período, o mercado do livro impresso teve um crescimento considerado nulo.

A evolução do digital acontece não apenas nas grandes editoras do mercado impresso que agora operam nos dois formatos, mas também em projetos independentes. Dois deles completam um ano neste fim de 2014 e têm se destacado pelo trabalho de qualidade: a editora pernambucana Cesárea e o projeto paulista e-galáxia. Enquanto a Cesárea vem ampliando sua atuação inicial, de revista literária para editora de e-books, a e-galáxia oferece diferentes tipos de textos; o mais popular é o conto, através do selo Formas Breves, com uma narrativa curta por semana, por R$ 1,99.

“Logo que lançamos, questionavam, eu e minha sócia, Jaíne Cintra: quando vão lançar a versão impressa; e nossa resposta foi: não vamos”, comenta Schneider Carpeggiani, editor da Cesárea. “Se você quer entrar no circuito independente, a revolução hoje ocorre na Internet; ela não lhe prende, você não tem problemas com distribuição. É uma revolução mais radical do que a dos anos 1960. Tem gente com fetiche pelo impresso, como tem gente com fetiche pela internet. A discussão agora é inclusiva e não exclusiva”, opina o editor.

Com a Internet e a tecnologia digital, é possível desbravar novas rotas de criação. “O livro é digital há pelo menos 20 anos, com a invenção do Page Maker. Todo o processo é digital. Só faltava o suporte para a leitura”, destaca Tiago Ferro, da e-galáxia. “O que muda são as possibilidades abertas com o digital: produção com baixo custo, distribuição mundial. Aí vale a criatividade para tomar proveito das mudanças, mas sabendo que há um processo de edição de um livro que deve ser respeitado. Conteúdo ainda manda. E bons profissionais também”, destaca.

O livro digital parece sinalizar possíveis soluções para uma dificuldade: como chegar a um número maior de leitores. “Qual o grande problema das pequenas editoras? Distribuição. As livrarias, por falta de espaço, estão virando lojas virtuais. Você tem sempre que encomendar o que quer; é uma questão física: o mercado está enorme. A liberdade de uma editora como a Cesárea se parece com a liberdade da Internet, que é um pouco a perspectiva do Punk: faça-você-mesmo”, analisa Schneider.

Embora o preço de um e-book seja menor do que o livro impresso é possível questionar o valor atual, considerando o custo reduzido do produto final. “Não entendo por que e-book das grandes editoras é tão caro, porque eles já tiram a questão da impressão e do transporte”, explica Schneider. “Cobrar na internet já é um pouco contra a própria perspectiva da cultura digital, que aponta que no futuro tudo deve ser gratuito e com arquivo aberto. Você pode piratear um livro, mas como ele é muito barato, por que não comprar?”, sugere. A e-galáxia segue a mesma linha: “Não há logística, transporte, gráfica ou armazenamento. E não há cálculo com tiragem. No nosso modelo é possível vender bons livros por menos de R$ 10”, diz Tiago.

Mesmo com o aumento no número de vendas, o e-book ainda não é reconhecido numa instância importante do mercado: a premiação. Concursos e festivais literários são etapas importantes na trajetória de um livro: ajudam na divulgação e venda de obras e autores, conquistam novos leitores. “É uma mudança em curso”, sugere Tiago. “Mais leitores aderem ao digital, grandes editoras também. A mídia dá ótimo ou mais tarde chegará a vez dos prêmios”, aposta. “E-books não podem concorrer a prêmios literários porque ainda não são considerados livros, ao menos no Brasil”, opina Carpeggiani.

“O e-book é considerado algo para remediar a ausência de um livro físico esgotado. Quando lançamos Aspades Ets Etc, de Fernando Monteiro, saiu uma matéria enorme no Estadão. Na época me disseram que aquela era a primeira vez que saía uma resenha de um e-book, de um livro que havia saído só em e-book, naquele jornal. As pessoas discutem como autografar um e-book, quando a discussão deveria ser: vamos aproveitar esse meio para levarmos literatura a mais gente”, comenta o editor.

Construção de um perfil editorial

A Cesárea e a e-galáxia vem se destacando por um catálogo que oferece ao leitor a oportunidade de conhecer obras geralmente ignoradas pelas editoras tradicionais. Enquanto a pernambucana lança livros como “Maçã agreste”, de Raimundo Carrero, publicado originalmente em 1989 e há quase 20 anos sem reedição, a e-galáxia criou o selo Formas breves, dedicado ao lançamento de contos; entre os destaques estão narrativas de Santiago Nazarian (Órfão), Ricardo Lísias (Delegado Tobias) e Carola Saavedra (Convivência).

Schneider sugere a escolha de livros para integrar a Cesárea como “afinidades eletivas”. “Nesse primeiro ano lançamos cinco livros. Essas obras estavam tão dispersas que se dependesse de grandes editoras nem tão cedo teríamos edições delas. Maçã agreste, de Carrero, nem havia sido digitalizada e nem ele próprio tinha uma cópia do livro. Aspades Ets Etc, de Fernando Monteiro, é uma das obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea e era impossível de ser encontrada em livrarias”, ressalta.

Os lançamentos da e-galáxia seguem uma divisão interna em diferentes selos. “Nosso papel é criar oportunidades e orientar a publicação independente com qualidade. Criamos o conceito de selo editorial para que terceiros façam algum tipo de seleção. Carlos Henrique Schroeder, Noemi Jaffe e Ronald Polito comandam respectivamente o Formas Breves, Jota e Geleia Real. E, claro, nada nos impede e convidar um autor para publicar conosco”, destaca Tiago.

O setor mais dinâmico da e-galáxia parece ser Formas Breves, dedicado ao conto. “No início de janeiro anunciamos os primeiros dez contos da coleção e no dia 3 de fevereiro estreamos com Averrós, de José Luiz Passos, e todas as segundas-feiras publicamos um conto inédito, de autores talentosos da nova geração ou traduções de clássico”, destaca o editor Carlos Henrique.

“Eu faço a seleção dos textos. A e-galáxia cuida da distribuição e estratégia. O único critério é a qualidade, não importa o tamanho ou se é autor renomado ou iniciante. Os primeiros dez publicados são muito diferentes, em temas e estilos. Conseguimos preciosidades, como um exclusivo do Nuno Ramos, outro do André Sant’Anna, um contista excepcional”, ressalta o editor.

Carlos destaca o papel da Internet como espaço que aciona possibilidades. “As barreiras físicas caíram e qualquer um de qualquer cidade pode comprar um e-book, basta ter acesso à Internet. A circulação do livro ficou mais democrática, o que é bom para as pequenas e médias editoras independentes, pois dá para competir com as grandes na distribuição, algo impossível no físico. Foi dessa maneira que pensamos o Formas breves: uma coleção em que você pudesse, com menos de R$ 2, o preço de um picolé, comprar um conto e ler em qualquer lugar”.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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