O estrangeiro – Albert Camus

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o-estrangeiro-albert-camusUm bom livro já começa dizendo a que veio. Logo no primeiro parágrafo de O Estrangeiro, Albert Camus entorta o leitor ao apresentar o desdém do narrador Mersault à notícia de que sua mãe falecera. Mas o que seria apenas um desconforto específico, limitado ao comportamento de um personagem, em pouco tempo ganha a força de um soco no estômago da sociedade.

A apatia de Mersault serve como um espelho, na sua presença todos os nossos ritos, objetivos, preocupações e sentimentalismos parecem desnecessários. Ridículos. E o efeito disso torna-se ainda mais devastador quando percebemos que o personagem leva uma vida simples e normal, sem qualquer distúrbio psíquico-social. Como todos nós, dedica-se ao trabalho, tem amigos, namorada e curte ir à praia aos domingos.

A única diferença está na sua consciência de que não pode mudar os rumos da vida. Conforma-se com isso, adapta-se às condições impostas pelas engrenagens do tempo e aproveita o que de bom lhe aparece. O resto, deixa acontecer. Para ele, o prazer já basta. Deus, casamentos, funerais e julgamentos são meras invenções formais que distanciam o homem da crueza dos fatos. O vazio de sentimentos, crenças e ambições de Mersault, aos olhos da sociedade, são suficientes para lhe transformar num estrangeiro no lugar em que vive.

Com uma linguagem rápida e objetiva, Camus junta-se a Franz Kafka e Fiódor Dostoiévski no coro de questionamentos aos valores morais do mundo. Os três conseguem subverter aquilo que é mais valioso para os homens. Mostram como toda a estrutura social – instituições, leis, religiões, ideologias – é frágil, parecendo absurdo até mesmo para uma obra de ficção, mas, ainda assim, incapaz de causar revolta em quem enxerga dessa forma.

Com a mesma indiferença de Gregor Samsa ao descobrir que virou um inseto, Mersault acompanha entediado o promotor lhe apresentar ao júri como um demônio por não ter chorado no enterro da sua mãe, quando na verdade deveria ser julgado pelo assassinato de um árabe. Uma reação de certa forma surpreendente, não fosse a consciência do próprio Mersault de que ali, no tribunal, um homem feito ele era tão estranho quanto uma barata gigante.

Thiago Corrêa
lido em Abr. de 2007
escrito em 08.04.2007

: : TRECHO : :

Trecho: “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’ Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.” (p. 07).

: : FICHA TÉCNICA : :

O Estrangeiro
Albert Camus
Trad. Valerie Rumjanek
Record
27a. edição, 2006
126 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

5 Comentários

  1. Achei ótimo esse comentário sobre a obra de Camus,pois li no original,e não consegui captar a essência.Nem todos são literatos,experts,e por isso o valor dessas explanações…A comparação com kafka foi tb muito valiosa p mim.Pensava que estrangeiro seria o próprio Camus,que era argelino radicado na França…

  2. Ciça Buendía em

    O “estrangeiro” em Camus é uma grande metáfora pra vida, a absurdidade que persiste se você não transcende-a… Mersault é a própria transubstancialização dessa absurdidade! Parafraseando o próprio Camus em “O mito de Sísifo”: “É preciso imaginar Mersault feliz”. Parabéns pela comparação com Kafka, literatura é isso, é permitir ao leitor esses links!

  3. Li nesse último final de semana esse livro “O Estrangeiro”. Achei o livro maravilhoso e cheguei à mesma conclusão do comentarista do texto acima: como o personagem principal do livro não tem grandes desejos, nem paixões e se adapta à tudo muito facilmente, talvez ele seja muito mais feliz que todos nós. Este é um livro que realmente faz a gente pensar.

  4. Não sei bem a razão, mas na segunda de carnaval resolvi ler “O estrangeiro”, livro que me aguarda va pacientemente há alguns anos. O texto causou certa inquietude e hoje acabo de encontrar uma resenha que traduz parte do meu sentimento após a leitura. Maravilha Thiago (tapis), uma aproximação com Crime e castigo parece clara. Adorei!

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