O fragmento do rio (segunda versão)

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Na minha frente, aqui onde agora moro, a janela não revela varanda, ou rio, apenas a parede lateral de um edifício tão morno quanto este no qual me escondo. Apesar disso, sinto as mesmas impressões de quando, nas tardes de sábado, ou após chegar do trabalho, me sentava em uma cadeira de plástico, posicionada na varanda do apartamento onde morei lá no Recife, e tentava observar o Capibaribe. Raramente alguém me fazia companhia; na maioria dos dias havia apenas um céu alaranjado e um bando de morcegos, que rodavam pelo ar se movendo como hamsters de laboratório. A paisagem urbana, recortada e incompleta, acumulava uma tensão espessa, seus ombros sempre apavorados com a noite.

Pensando bem, o Capibaribe não deixa de ser como a lateral do prédio, com a diferença de que todo edifício é um rio que corre tanto para cima, quanto para baixo. É até mesmo possível lembrar de um poema de João Cabral, que compara o ato de observar o rio com o de assistir a um filme no cinema. Me parece verdadeiro, mas é preciso um ajuste, porque observar meu rio significa frequentar um cinema onde todos devem entrar de olhos fechados. A verdade: dentro do meu peito, o rio se permite habitar. Lá fora, na parede, corre o rio também: o problema é que ele é só margem.

Texto publicado, em versão diferente, na antologia Capibaribe Vivo, editado pelo Coletivo Parque Capibaribe. Grato a Jussara Salazar pelo convite

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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