O Jardim do Diabo – Luis Fernando Verissimo

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Cabeça vazia…

Não é preciso muito esforço para aplicar a expressão “nada se cria, tudo se copia”. Basta ir ao cinema, a um desfile de moda ou, ainda mais fácil, ligar a televisão. Garanto que você achará a novela de hoje parecida com uma que já passou. E não por acaso ela foi um sucesso. Vivemos na era do déjà vu, onde o que dá dinheiro é repetido e copiado à exaustão, até encher o saco.

Contudo, não se pode sair taxando como oportunidade de negócio tudo aquilo que possua semelhanças com algo já existente. É preciso tomar cuidado para não se cometer injustiças, pois alguns elementos, que hora indicam o oportunismo comercial, também podem caracterizar o estilo do autor.

Esse é o caso de Luís Fernando Verissimo, que já utiliza em seu primeiro romance, O Jardim do Diabo, publicado em 1988 e agora relançado pela Objetiva; todos os mesmos elementos que viriam aparecer nos seus outros três romances – Borges e os Orangotangos Eternos, Clube dos Anjos e O Opositor.

E o interessante é que, desde já, Verissimo parece ter plena consciência do que seria sua obra, pois, em O Jardim do Diabo, ele brinca com essa discussão que estamos tendo aqui, sobre oportunismo e estilo, ironizando sua mania e tendência de usar sempre os mesmos recursos – metalinguagem, intertexto, mistério e humor.

O personagem/narrador desta vez é Estevão, para variar, um escritor. Desses de quinta categoria, que escrevem um romance policial por mês e tem seus livros vendidos em bancas de jornal. Estevão escreve seguindo uma fórmula: por volta da página 40 tem a grande trepada, a partir da 90, o desfecho. Numa referência ao escritor Joseph Conrad, seus personagens são sempre um ex-marinheiro chamado Conrad, pode ser Conrad James, Herman Conrad, não importa, desde que tenha Conrad no nome.

Estevão não tem uma perna, vive enfurnado em seu apartamento e os únicos contatos que possui com o mundo exterior são através dos ruídos domésticos que sobem pelo poço do edifício, das empregadas e pelo rádio ensurdecedor de uma delas, Dona Maria. Até que certo dia, recebe a visita do inspetor Macieira que diz haver semelhanças entre um crime que realmente ocorreu, com a história do seu último livro – Ritual Macabro.

Um prato cheio para a imaginação de um viciado em histórias como Estevão. Enquanto escreve a continuação de Ritual Macabro, ele passa a ler jornal e a prestar atenção ao rádio de Dona Maria, tentando completar os espaços em branco deixados pelas conversas com o inspetor.

Cruzando histórias do rádio de Dona Maria, com as aventuras de Conrad, mais acontecimentos domésticos, lembranças de infância e conversas de Estevão com o inspetor Macieira, Verissimo faz um delicioso jogo de referências, onde cada narrativa acaba contribuindo para o mesmo fim. É como se estivéssemos presenciando o processo criativo de Estevão, com acesso às suas fontes de inspiração, enquanto ele tenta organizar sua mente e escrever a nova saga de Conrad.

Assim, no decorrer da leitura, surgem três mistérios que se entrelaçam – o enigma trazido pelo inspetor, um episódio não-esclarecido do passado de Estevão e as charadas do serial killer Grego que Conrad precisa desvendar. Jogando com essas fontes de tensão, Verissimo não só prende a atenção do leitor, como também mostra sua habilidade em narrar uma história de diversas maneiras. Exemplo disso é como ele desenvolve a trama de Conrad, ora através da metalinguagem, enquanto Estevão escreve, ora através das conversas deste com o inspetor Macieira. São passagens geniais, repletas de sutilezas, e ainda assim, fáceis de ler.

Thiago Corrêa
lido em Jun. de 2005
escrito em 26.08.2005

: : TRECHO : :
“A pena é o pai e o arado e o papel é a mãe e a terra neste velho ritual de profanação e semeadura, mas que possível significado podem ter os tipos metálicos de uma máquina golpeando um pobre papel? De certa maneira, escrever à máquina corresponde a mandar capangas fazer o nosso serviço sujo. Mantemos as mãos limpas. Os que cavavam as letras primitivas com cunhas em tabletes de barro, estes sabiam que crime estavam cometendo. Foram os primeiros. Sempre que preciso trocar a fita da máquina, vou correndo depois lavar as mãos como se elas estivessem sujas de sangue. Out damn spots. Os que escrevem com pena assumem os seus livros e seus dedos sujos. Nós temos um álibi. Somos apenas os autores intelectuais das nossas tramas ” (p. 40)

: : FICHA TÉCNICA : :
O Jardim do Diabo
Luis Fernando Verissimo
L&PM, 1a. edição, 1987
184 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

6 Comentários

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  2. Alexandre Figueiredo em

    Tudo que o Luís Fernando Veríssimo escreve eu gosto, portanto sou suspeito para falar. A história é interessante, tem um humor sutil como em tudo que o Veríssimo escreve. O livro é bem bacana.

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